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Shireen Abu Akleh

Disse o Gandhi, o MLK ou quiçá o Morgan Freeman que “olho por olho, e o mundo acabará cego”, mas colonizadores, potências invasoras, ocupantes, imperialistas, não se ficam pelo olho por olho, é o braço, as pernas, a cabeça, o corpo todo por um olho ou até por nada. A desproporção absoluta na violência. O embuste de que a violência do opressor é de mesma natureza que a utilizada pelo oprimido para sua defesa. A confusão entre as forças mais radicais e a população. E funciona tão bem…. Milhões de refugiados, assimetria colossal no número de mortos e feridos, na destruição das habitações, mas espera, faz aqui um close-up, estão ali terroristas, estão ali nazis, então a população que se lixe. Não gosto do opressor então é colonialismo e imperialismo do mau, não gosto do oprimido então é colonialismo e imperialismo do bom, estavam a pedi-las. Valores seletivos. A meritocracia dos oprimidos. O mas, mas e mais mas…

O colonizado, o invadido, o ocupado é sempre considerado inferior pelo opressor, quer na vida, quer na morte. Ele não sente como o opressor, não tem família como o opressor, não tem sonhos, não tem dignidade, por isso como vive ou como morre pouco importa, podemos atacar até no seu cortejo fúnebre. O colonizado não chora os seus mortos como nós. Exterminate all the brutes.

Em muitas das fotos da Shireen Abu Akleh emociona-me e intriga-me o seu sorriso. Não sei o que está por trás, nem o que pensa nesses instantes, mas sei o efeito que faz, o efeito de um sorriso de resistência, parece dizer-nos “um dia vamos poder viver a nossa vida aqui, mesmo depois da nossa morte”. E o opressor, aquele que pratica a injustiça ainda não sabe, como sabia o Hervé Bazin, que a sua felicidade “não se pode construir por cima das ruínas de uma longa miséria”. Aquela que se inflige ao outro devido à sua própria miséria moral. 

Luísa Semedo

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