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Não sou de nenhures

© paulo lobo

Não sou daqui nem de nenhures
sempre estive à margem
sempre tentei integrar-me
sempre tentei ser aceite
eu e a minha geografia
eu e a minha anatomia
sempre tentei ser igual ao outro
e sempre tentei ser diferente –
e ao mesmo tempo ser o outro
sem me perder de mim
e ao que faz de mim ser eu próprio
ter a minha identidade e a do outro
número de equilibrista ou de palhaço?

Sempre tentei fazer como se estivesse
habituado a esta terra e a esta língua
sempre tentei fazer como se estivesse
acostumado a esta gente e a este clima
sempre mostrei habituação, descontração,
afabilidade, civismo, compreensão, respeito
mesmo quando me faltava à-vontade e ânimo
mesmo quando me faltaram ao respeito
e me humilharam, e se riram de mim
e me fizeram passar vexames e vergonhas
e se aproveitaram de mim
e me exploraram descaradamente
sempre tentei esquecer isso tudo
– dores inevitáveis de um imigrante?
O agravo nunca é visto como grave pelo ofensor.
E assim, tantas vezes baixei a cabeça
engoli o orgulho e o amor-próprio
e fiz por compreender as incompreensões
culturais, sociais, de classe, de língua
tentei sempre reatar o diálogo
tentei sempre acreditar na convivência pacífica
na compreensão mútua
tentei sempre facilitar e privilegiar a comunicação
mesmo com quem não queria nem tinha vontade de comunicar
por sentir que não tinha de fazer esforços em comunicar
por sentir que não tinha de fazer esforços em se integrar
por já estar na sua terra (mas a Terra é de quem?),
mesmo com quem não queria travar conhecimento comigo
nem tinha vontade de travar conhecimento com ninguém
que não fosse da sua terra.
Número de palhaço ou de equilibrista?

O mais estranho, curioso e triste é que
quando estou cá sou de lá
e quando estou lá sou de cá
defendo os de cá quando estou lá
torço pela equipa de lá quando estou cá
sou dos dois lados quando não sou de nenhum verdadeiramente.

Não sou de cá nem de lá. Não sou de nenhures.
E isso faz com que me veja obrigado a ser
e a sentir-me sempre de toda parte.

Quem sou, afinal ?

Sempre me perguntaram se eu era
mais de cá ou mais de lá
se eu preferia estar cá ou estar por lá
é como me perguntarem se prefiro
a mão direita ou a mão esquerda
e mesmo se escrevo com a direita
não ficaria bem menos destro sem a esquerda?
se tenho dois olhos não é para olhar com os dois?
é como me perguntarem se sou só filho da mãe
quando também sou filho do pai!

Sou miscelânea de cá e de lá
sou mistura de sul e de mais sul
de süden, de sud e sul
das terras vermelhas do Algarve barrocal
das terras vermelhas do Minett grão-ducal
das praias oceânicas e rios-fronteira
das planícies amarelas alentejanas
e dos prados verdes do Gutland
das florestas de pináceas sob a neve
e dos pinheiros mansos à beira-mar
da serra e dos montados e dos vales verdejantes
sou misto e mito ao mesmo tempo
sou lendas de melusinas e contos de mouras encantadas
dinastias de Sigifredos, Afonsos, Naussaus e Braganças
poemas de Dicks, Rodange, Camões e Pessoa
tenho em mim minério de ferro, cortiça e alfarroba
açordas, azeitonas, marisco e grompelkichelcher
e também céu e estrelas infinitas
e brisa marinha e salgada do sotavento
e soleira de uma casa de cal branca
tudo isso corre nas minhas veias
tudo isso se lê nas rugas e gretas da minha pele
tudo isso se vê no horizonte-prumo dos meus olhos
e em tudo o que escrevo.
Rigoroso e quadrado, espontâneo e desenrascado
discreto e reservado, expansivo e extrovertido,
q.b. ou como quem diz ‘ma non troppo’.
Pura contradição em contramão.

Sou tudo isso. Construí-me assim como sou
do que herdei de meu pai e de minha mãe
da minha mátria e da minha pátria
e do que agarrei só para mim
para que fosse só meu
para que fosse só eu.

Não sou de cá, não sou de lá. Não sou de nenhures.
Sou de toda a parte e só posso ser tudo ao mesmo tempo.

José Luís Correia

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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