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Eu e a Gazeta de Felgueiras

Há quem se interrogue porque afirmo que A. Garibáldi terá sido o homem que mais me honrou no meu percurso pelo mundo das Letras.

Já C. Quintela Teixeira, que pereceu em Agosto de 1996, me designava “pupilo de A. Garibáldi”.

Barroso da Fonte é um escritor, poeta, jornalista, fundou e foi proprietário de dois jornais e (apenas director) de um outro, é editor e membro (maioritariamente fundador) de várias agremiações. Foi também director de serviços, como do Palácio dos Duques de Bragança, e Castelo de Guimarães. Entre outros encómios, chamou-me “cabouqueiro da Comunicação Social Regional.”

Esgrimir contrariedades não cabe, agora, aqui.

Para mim e ao tempo da grande proliferação dos jornais em papel, a imprensa era regional e não local. E de igual posição gozam os que, cada vez menos, persistem.

A. Garibáldi que pereceu em 20 de Agosto de 1992, é um felgueirense vindo de Braga por razões políticas. Era decano dos jornalistas em Felgueiras, poeta, escritor, e um exímio embaixador de Felgueiras dados os seus inúmeros e prestigiados contactos, essencialmente na Galiza, na margem sul e Alentejo e vários países sul-americanos.

A. Garibáldi, de quem não é difícil falar, antes, tem é muito para se escrever, foi durante vinte anos director d’O Jornal de Felgueiras (jornal com imenso historial) e em 17 de Setembro de 1983, saiu o primeiro número da Gazeta de Felgueiras que fundou e dirigiu. A divisa deste jornal era: “Antes quero sofrer por dizer a verdade, do que fazer sofrer a verdade com o meu silêncio. – John Pym”.

Ora A. Garibáldi sempre me dispensou uma atenção inaudita, pese a minha juventude, podendo ser seu neto. Morando a cerca de dois quilómetros de mim, quando me queria falar, mandava-me uma cartinha – (CTT) ou dentro do exemplar expedido da Gazeta de Felgueiras, onde invariavelmente dava nota “que queria trocar impressões comigo”.

Ainda hoje tenho por hábito utilizar esta expressão.

Eu respondia pelo mesmo meio ou, por fim, dava um telefonemazinho para combinar a tal troca de impressões cuja data, hora e todo o tempo de encontro, eram rigorosamente cumpridos. Até o seu lanche, que comigo partilhou algumas vezes, era servido, mais a dieta, rigorosamente à horinha.

A. Garibáldi procurava em mim um continuador da Gazeta de Felgueiras, mas, capciosamente, me pedia sugestões de nomes que mantivessem a linha editorial, marcadamente de Esquerda – daí a tramitação da Gazeta ser sem custos.

Nomes houve que supostamente estariam bem posicionados para o “cargo”, mas não. Estavam religiosamente fora de hipóteses. Daí os seus apelos reiterados para a nossa troca de impressões.

Claro que eu percebia que aquilo era uma abordagem velada à minha disponibilidade. Um dia tive a confirmação. A senhora e muito dilecta esposa de A. Garibáldi, por mor de uma chamada telefónica fora da hora prevista, me diz: “Sabe, senhor Mário Adão! Ele quer-lhe deixar o jornal”. E cuidando a querida e muito simpática senhora, de quem continuo com grande saudade, cuidando, dizia, de estimular decidir-me ficar com a Gazeta, conta-me que recentemente haviam ido a um congresso nos Açores, completamente a expensas do Jornal, pormenorizando-me que não tocaram no dinheirinho das reformas de ambos.

Entre outras circunstâncias continuei sem me dar por achado e assim num instante posso contar:
Eu tinha em Montemor-o-Novo, no Alentejo, muitos e difíceis tratamentos de Ortopedia por mor de um acidente de viação. (Um dia o senhor Garibáldi pediu-me que levasse cumprimentos ao Presidente da Câmara, que me prestou muita agradabilidade e gratidão).

Nesta incerteza e tendo em conta que eu era muito jovem, para mim dirigir a Gazeta de Felgueiras, era uma grande responsabilidade. A Gazeta era essencialmente uma publicação literária (razão pela qual em Felgueiras era quase desconhecida) e tinha colaboradores de um jaez invejável. Alguns jornais nacionais, ao tempo, tomaram ter igual plêiade de colaboradores e conteúdos.

Não anuí porque sendo a Gazeta um jornal com muito prestígio, temi não estar à altura de lhe manter esse prestígio, e de me movimentar no meio de intelectuais e pessoas de grande prestígio.

Por fim: o senhor Garibáldi recebeu um convite para correspondente de uma publicação de Lisboa, de âmbito nacional, um tipo de edição ao tempo muito na moda. O senhor Garibáldi encaminhou o convite para mim.

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)