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Desarrumação existencial

Há muitos anos conversava com um amigo sobre minudências do quotidiano e chegámos, já não sei bem como, às manhãs de sábado. Para ele, essas manhãs eram odes à «preguicite»: acordava, espreguiçava-se, acendia o rádio de pilhas que tinha na mesa de cabeceira, levantava-se, fazia um café, levava-o para o quarto, voltava a deitar-se, bebericava o café, retomava a leitura da noite anterior, levantava-se, ia à cozinha, dava comida ao gato, abria o frigorífico, rabiscava uma pequena lista de compras, fazia outro café e uma torrada, sentava-se nu no sofá da sala com o café e a torrada, consultava o programa de exposições e concertos, enfiava uma camisoleta para não se resfriar… tudo na mais perfeita imperturbabilidade.

Eu ria-me divertida e com uma ponta de inveja. Para mim, os sábados eram dias de azáfama como são os sábados de quem trabalha a tempo inteiro e vive com crianças pequenas. A preguicite era um luxo que eu não me podia oferecer, nem depois de o garoto estar a dormir – sobravam sempre coisas por fazer e o cansaço acabava por me mandar para a cama sem eu poder dedicar-me ao meu passatempo favorito: esparramar-me no chão e devanear.

Foi então que ele me apresentou a «arrumação sequencial», método por si desenvolvido para pôr ordem no seu vasto apartamento – uma fase, normalmente curta, que se seguia à da preguicite. É assim: há umas cuecas no chão do quarto? Vai pô-las no cesto da roupa suja na casa de banho. Uma chávena de café bebido na casa de banho? Leva-a para a cozinha. Louça no lava-louças? Põe-na na máquina de lavar louça. Jornais na mesa da cozinha? Leva-os para a sala. Documentos de trabalho no sofá? Leva-os para o escritório. Um cinzeiro cheio de beatas em cima da secretária? Volta à cozinha e despeja o cinzeiro. O caixote do lixo está cheio? Desce e despeja o lixo. A caixa de correio está a transbordar? Traz o correio para cima. E por aí fora.

E eu ria-me. Afiancei-lhe que ia experimentar o método, apesar de duvidar da sua eficácia. «Mas chegas ao fim de alguma coisa?», perguntei. Olhou para mim com olhos de míope, escudados atrás de uns óculos redondos de intelectual: «O quê? Ao fim da arrumação?». Acenei afirmativamente. «Não, mas divirto-me muito! – e soltou uma gargalhada. Compreendi. A arrumação sequencial era, para ele, uma viagem sem rumo, mas limitada no tempo – ainda que sequencial e divertida, não se sobrepunha a outras nobres ocupações como descansar.

Experimentei o método. Ao praticá-lo, descobri porém a sua face oculta: a desarrumação sequencial, na qual me tornei especialista. É assim: vou guardar um papel e desarrumo uma resma; vou arrumar um livro e dou comigo uma hora depois, com esse mesmo livro ainda fora do lugar e com outro livro nas mãos; ponho esse livro na prateleira e encontro o cartão de Boas Festas do meu primo e decido enfim telefonar-lhe; quero deitar fora um monte de jornais e passo o serão sentada no chão a ler notícias velhas de dois meses. É claro que o princípio da realidade acabava por se impor. Por exemplo, chegavam as seis da tarde e tinha de ir buscar o garoto ao râguebi. Fechava a porta do meu escritório e o pandemónio hibernava, contido naquelas quatro paredes.

Hoje, o meu escritório está mais arrumado. Mas a minha cabeça não, porque não lhe consigo fechar as portas como fazia com as do meu escritório. Arrastada pelo torvelinho e o caos do mundo, a minha desarrumação mental digitalizou-se, globalizou-se, entranhou-se. Entre noticiários-espetáculo, jornais-pasquim, comentadores sapientíssimos, redes sociais lamacentas, influencers das trevas e podcasts imperdíveis, vou saltitando entre Gaza e o estreito de Ormuz, violência doméstica e crise da masculinidade, pobreza e crise climática, extrema-direita e inépcia dos governantes, etc., etc. – sem conseguir «arrumar» uma visão minimamente coerente do país, do mundo e do futuro da humanidade. E isso não me diverte. Nada.

Sinto-me como um daqueles adolescentes de que fala o estudo PISA, que olham para um texto como boi para palácio. Assim estou eu. Burra. Leio o mundo e não o entendo. O que fazer? Desconectar-me e abandonar a ideia peregrina de o compreender? Resignar-me à burrice? Regressar ao bê-á-bá da arrumação sequencial e aplicá-la, não ao mundo, mas à desarrumação da minha cabeça e à sobre-excitação dos meus neurónios para os esvaziar como quem tira frutos estragados do frigorífico, como escrevia Maria Stepánova?

Esta crónica é só isso: um fruto estragado tirado do frigorífico, um peça de roupa deitada ao cesto da roupa, em dias de desarrumação existencial sem rumo nem fim à vista. E agora vou dormir.

Eduarda Macedo

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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