De que está à procura ?

luxemburgo
Lisboa
Porto
Luxemburgo, Luxemburgo
Colunistas

Confissões de um não penitente a reboque do novo livro de Thomas #Piketty

Um amigo próximo viu-me a ler com fruição e concentração o novo livro do Thomas #Piketty, com o sugestivo e panfletário título “Pelo Socialismo”, e disse-me que para ele era muito difícil enquadrar-me politicamente (vivemos num mundo de caixinhas, cada vez mais…).

Ele já me teria visto defender pontos de vista coincidentes com a área de influência ideológica do PS, do PSD, da CDU, da IL, do CDS e até do PAN! Isso deixava-o confuso, e muitas vezes perplexo, sem saber como me etiquetar!

Antes de lhe responder, disse-lhe que dificilmente me veria identificar-me com posições do Chega ou do BE (jamais, como diria o Lino), porque são partidos puramente oportunistas, que cavalgam franjas marginais de descontentamento. Acredito que em relação a ambos se confirme uma variação da Lei de Pareto, ou seja, ainda que essas franjas não venham a representar nunca mais de 20% da população, conseguem impor aos 80% dos outros cidadãos a sua vontade, via geringonças várias, que acabam no fundo por ser muletas que lhes permitem sobreviver. Ali não há verdadeiramente ideologia séria, apenas respostas a anseios não atendidos de minorias confusas, tratando (e por vezes conseguindo) de impor a sua agenda muitas vezes idiota à esmagadora maioria dos cidadãos com sentido comum e equilibrados (na minha perspectiva, venham lá esses impropérios nas redes sociais…).

Expliquei ao meu amigo que hoje em dia o debate ideológico anda arredado dos partidos políticos. Freitas do Amaral e Basílio Horta começaram na ala mais à direita do CDS, e acabaram no PS, que me lembre sem passar pelo PSD. Nesta campanha das autárquicas temos malta que já militou e ocupou cargos políticos no PC / CDU a passar-se diretamente, com armas e bagagens, para o Chega! O espírito ideológico firme e pioneiro de Álvaro Cunhal deve estar a explodir de indignação, onde quer que se encontre. O meu também estaria, pelo que estes movimentos traduzem relativamente ao miserável caráter oportunista dos saltitantes.

Os partidos adotam hoje, em termos puramente oportunistas, temas de análise, discussão e de troca de ideias escolhidos muitas vezes só e apenas para satisfazer audiências, e não para realmente dissecar o que é melhor para o coletivo (os 100 0/0 dos cidadãos, sabendo-se que haverá sempre descontentes).

Dei-lhe um exemplo. Perguntei se achava que em termos ideológicos o PS de Mário Soares era o mesmo PS de Sócrates (!), ou de António Costa… Ou se o PSD de Cavaco Silva era, em termos puramente ideológicos, o mesmo do Durão Barroso de triste memória (sabujice na invasão do Iraque), ou de Santana Lopes, o menino guerreiro de ainda pior memória…

Ele teve que admitir que não, de jeito nenhum.

Portanto hoje em dia defende-se o partido em que votamos como quem defende o clube de futebol de que somos adeptos, e não pelas ideias e propostas ideologicamente sustentadas tendentes a construir o modelo de sociedade que o partido defende. Se assim fosse, esse modelo de sociedade, e as ações concretas para lá chegar, coincidiriam com a prática política daqueles 3 líderes do PS, ou do PSD, e a verdade é que não foram nunca coincidentes. Até porque hoje nos partidos do antigamente chamado “bloco central” (PS, PSD e CDS, este último em extinção acelerada por traição à sua matriz ideológica), coexistem internamente sob o mesmo teto as alas esquerda, moderada e de direita. Quando o líder é forte, como António Costa, os gatos ficam “quedos” e arranham-se dentro do saco, quando o líder é bonzinho, como o ToZé Seguro de que já ninguém se lembra, os Cavaleiros do Apocalipse internos rapidamente lhe cortam a cabeça.

Eu expliquei ao meu amigo que nunca consegui fazer-me sócio efetivo de um clube, muito menos militante de um partido, porque o modelo de seguimento e filiação exige fidelidade e obediência absolutas e cegas (só é bom o que emana do nosso partido, só é penálti quando somos nós os prejudicados). No partido do outro, ou no clube do lado de lá da Segunda Circular, não há nada de nada que seja digno de registo, de louvar, muito menos de adotar.

Essa intolerância matou o verdadeiro debate ideológico e transformou os seguidores do partido (clube) A, B, C em rebanhos de carneiros de raça pura. Charollais, Shetland, Caracul, Romanov… Quando aquilo que está provado é que os mais resilientes são os que resultam de cruzamentos de raças! Tal como disse ao meu amigo, como penso pela minha cabeça devo ser rafeiro, produto de um estranho cruzamento de raças…

Portanto, discordo visceralmente de muitas das propostas utópicas de Piketty, como a aplicação de taxas de tributação da ordem dos 80 a 90% aos rendimentos, sucessões e patrimónios mais altos, o que tendencialmente nos conduziria à utopia Marxista “de cada qual segundo a sua capacidade, a cada qual segundo as suas necessidades”, passando a sustentar parasitas com dinheiro espoliado a quem trabalhou no duro.

Piketty escreve no prefácio “Nascido em 1971, pertenço a uma geração que não teve tempo para ser tentada pelo comunismo e se tornou adulta observando o falhanço total do sovietismo. Como muitos fui mais liberal do que socialista nos anos 1990, orgulhoso como um pavão das minhas observações judiciosas, desconfiando dos mais velhos e de todas as nostalgias, e não suportando aqueles que, decididamente, se recusavam a ver que a economia de mercado e a propriedade privada faziam parte da solução. Só que 30 anos depois, em 2020, o hipercapitalismo foi demasiado longe, e agora estou convencido de que devemos pensar numa nova superação do capitalismo, uma nova forma de socialismo participativo e descentralizado, federal e democrático, ecológico, miscigenado e feminista”.

A primeira reação de muitos será certamente de perplexidade, e de querer mandar o Piketty experimentar o seu modelo no Afeganistão ou na Coreia do Norte, de onde certamente nunca voltaria, deixando-nos em paz na Europa, onde já estamos a ficar cansados de experimentalismo societário idiota.

Mas também nos deixa perplexos o trajeto de Piketty. O “normal” é os jovens europeus, com a vida segura e abundante do pós-guerra, o desprendimento e generosidade inerentes à faixa etária, serem mais permeáveis ao apelo sedutor da esquerda, “evoluindo” depois à medida que progridem na vida (os que o fazem) para posições ideológicas mais conservadoras, não necessariamente de direita.

Piketty faz o caminho inverso, num momento em que os próprios “über-capitalistas” americanos já andam a criar movimentos para distribuir a riqueza pornografica e absurda que muitos deles acumularam.

Portanto existe um forte desejo de mudança, quer nos ideólogos da esquerda moderna, ou seja aqueles que não vêm o modelo soviético, chinês, coreano e muito menos cubano ou venezuelano como uma panaceia, e preconizam sim uma sociedade mais justa, com mecanismos que permitam distribuir a riqueza com mais equidade, quer nos ideólogos do “über-capitalismo”, que chegaram à conclusão de que levaram o sistema longe demais.

Os pontos de partida são diferentes, a justiça social na esquerda, a consciência da necessidade de mudança, para poder preservar o sistema capitalista, na direita, e o diabo está nos detalhes, ou seja o como chegar lá.

Está claro que terá de nascer um debate ideológico entre ambas as forças em causa, e acredito que será uma época fascinante para os que puderem, quiserem e souberem participar construtivamente, sem os dogmas ideológicos do passado, que hoje não fazem qualquer sentido.

A grande questão é se este debate encontra nos partidos políticos, radicalizados e endogâmicos, gente à altura de o conduzir, não só em Portugal, mas no resto do mundo também.

Aos partidos políticos recomendo vivamente que façam profundas abluções internas para limpar a endogamia. Pois como sabemos o resultado da endogamia é o aumento da homozigose, que provoca perda de vigor inexoravelmente …

Quanto ao meu amigo vai continuar certamente a olhar para mim com perplexidade, porque nunca se consegue etiquetar um livre-pensador. Continuarei a apoiar projetos e ideias provenientes de pessoas que pensem com integridade e honestidade no bem comum, independentemente de onde venham, com as duas exceções oportunistas mencionadas. E estarei atento (e participativo) no debate ideológico que a esquerda travar para humanizar o capitalismo selvagem, não porque espere ainda beneficiar do Nirvana que daí possa resultar (o meu horizonte de vida é bastante reduzido), mas para contribuir a criar um mundo melhor para as minhas filhotas, filhas de rafeiro, mas com ideias próprias e bem estruturadas também! So help me God!

José António de Sousa

 

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.