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Projeto “E-Migras?” está a juntar antigos e novos emigrantes em França

O projeto “E-Migras?”, da fotógrafa lusodescendente Rose Nunes, está a juntar histórias e retratos de portugueses que chegaram a França entre 1960 e 1975 e outros que emigraram a partir de 2008.

Desde 2015, Rose Nunes entrevistou e fotografou 34 pessoas, desde homens e mulheres que viveram em bairros de lata nos anos 1960, cantores, escritores e intelectuais que fugiram do Portugal de Salazar, assim como artistas, recém-licenciados e trabalhadores destacados que chegaram a França após a crise de 2008.

O projeto, que vai estar visível, este fim-de-semana, na página internet projetemigras.com, vai ter retratos, testemunhos orais e textos, sendo o objetivo final lançar um livro, em 2018, que deverá ser financiado por uma plataforma de ‘crowdfunding’.

A ideia é cruzar as histórias e os retratos da antiga e da nova geração de emigrantes e ter uma “cartografia heterogénea” da emigração portuguesa, contou Rose Nunes à Lusa, durante uma sessão de trabalho para o “E-Migras?” com uma enfermeira portuguesa que deixou Portugal há seis anos por falta de emprego e que foi parar ao “hospital que na primeira vaga da emigração portuguesa era o único em Paris onde se podia ter bebés sem se ter papéis franceses”.

Entre os testemunhos mais marcantes para Rose Nunes, está, por exemplo, o de Bruno, um trabalhador destacado que esteve muito tempo desempregado em Portugal e que emigrou para França, onde acabou por ser “explorado por empresas portuguesas”.

“Emocionou-me imenso ouvi-lo. Tive o sentimento de rever algo que já aconteceu há 50 anos. Eu não entendia como é que é possível ainda hoje um rapaz se encontrar nesta situação, ser explorado por empresas portuguesas durante dois anos”, lembrou.

Rose Nunes sentiu necessidade de concretizar o projeto porque sempre ouviu histórias da emigração em casa, desde o bisavô do lado materno, que foi para a Argentina em 1937, aos pais e avô paterno, que fugiram para França entre finais dos anos 1950 e início dos anos 1970.

No entanto, ainda que a avó lhe fosse contando memórias, só muito tarde conseguiu quebrar o silêncio que envolvia a história da emigração dos seus pais.

“Só ouvi a história de como a minha mãe chegou a França com 25 anos. Fartei-me de fazer perguntas depois dos 25 anos. Antes disso, havia um pudor. Não é que não se falasse em casa porque eu era uma moça curiosa mas tímida. Havia um respeito pelos pais, havia uma necessidade de calar. A geração das minhas primas conheceu as barracas, uma nasceu lá”, contou.

Depois de muita investigação e pesquisa junto dos arquivos da terra dos pais, Rose Nunes foi reconstituindo a história e o relato completo da mãe só o conheceu em 2013, aos 32 anos, numa viagem a Portugal de carro, quando ao passar a fronteira a mãe recordou “como é que atravessou da aldeia até Espanha”, em 1971.

Quanto ao pai, só em fevereiro de 2017, quando Rose o levou a Vilar Formoso, é que conheceu todos os passos da viagem clandestina para França, ou seja, “a salto”, em 1967.

O pai chegou a viver um ano nos “bidonvilles” de Saint-Denis e a mãe – ao contrário das tias maternas de Rose Nunes – escapou aos bairros de lata.

Para Rose Nunes, o projeto “E-Migras?” é, também, uma forma de responder à necessidade da geração lusodescendente em França “perceber e transmitir” a própria história.

“As minhas primas não sabem que os avós estiveram nas barracas. Acho que não é normal. Isto tem que se falar, tem que se ensinar nos livros de história, tem que se falar no milhão e duzentos mil emigrantes que vieram para França. Isto tem que ser falado, tem que ser ouvido, tem que ser visto”, defendeu.

Formada em Economia Aplicada, Rose Nunes deixou uma vida de bancária, no início de 2011, para se dedicar à fotografia, tendo uma das sementes para o projeto “E-Migras?” surgido quando ainda estava atrás do balcão e se apercebeu da nova vaga de emigrantes para França e de “um primeiro-ministro a mandar para fora pessoas com diplomas”.

Rose Nunes ainda está à procura de emigrantes que queiram dar o seu testemunho, nomeadamente crianças e trabalhadores que tenham chegado depois de 2008 e mulheres que tenham vivido nos bairros de lata nos anos 1960 e 1970.

A fotógrafa também fez imagens para o livro “100 ans d’histoire des portugais en France”, da historiadora Marie-Christine Volovitch-Tavares, lançado no ano passado, em França.