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Rostos de profissionais de saúde esculpidos no Hospital de São João

Os rostos de 10 profissionais de saúde esculpidos pelo artista Vhils na porta de entrada do Hospital de São João, no Porto, formam uma homenagem aos “heróis” da “linha da frente” do combate à pandemia.

São cinco assistentes técnicos e operacionais, três enfermeiros e dois médicos. Sete mulheres e três homens. Chamam-se Paula, Sérgio, Manuel, Raquel, Maria João, Carla, Cristina, Patrícia, David e Idalina, e são do Hospital de São João, mas podiam ser a Ana, a Alexandra, o Tiago, a Daniela, a Maria ou o Carlos de qualquer outro hospital português ou do mundo.

A homenagem de Vhils visa lembrar através de caras da vida real retratadas com máscara, “os verdadeiros heróis do dia-a-dia”, aqueles que, como o próprio artista descreve em nota distribuída pelo Hospital de São João, “são muitas vezes esquecidos”.

“Os rostos destas pessoas foram assim gravados na memória das paredes do hospital, de modo a sublinhar quer a sua importância individual quer a importância do Serviço Nacional de Saúde (SNS)”, refere artista plástico Alexandre Farto, conhecido por Vhils, que não esteve presente na inauguração.

Esculpir os rostos dos médicos, enfermeiros e assistentes que foram escolhidos ao acaso demorou cerca de uma semana e o artista chamou “Linha da Frente” ao mural que agora figura junto ao átrio do hospital que a 2 de março recebeu o primeiro caso covid-19 em Portugal.

 

A Paula, o Sérgio, o Manuel, a Raquel, a Maria João, a Carla, a Cristina, a Patrícia, o David e a Idalina alinharam-se junto aos seus rostos e foram alvo de ‘flashes’ e de perguntas. A cada abordagem ou aproximação, apressavam-se em lembrar que deram a cara, mas representam os milhares de colegas deste hospital e do país.

Ouviu-se um coro de palmas: de profissionais de saúde para profissionais de saúde, alguns utentes que decidiram juntar-se à homenagem e muitos jornalistas.

“O objetivo foi escrever nas paredes do hospital a mensagem de que estes profissionais, que representam os grupos que trabalham aqui no dia-a-dia, não mais serão esquecidos. São profissionais que trabalham neste hospital, mas também de todo o SNS que, com o seu trabalho, dedicação, empenho e um trabalho de equipa, que todos os dias fazem com enorme sentido de humanização em prol dos utentes”, disse o presidente do conselho de administração do hospital, Fernando Araújo, também num dia em que foi confirmada a primeira morte de um médico português com covid-19.

Tinha 68 anos, estava internado há mais de 40 dias nos cuidados intensivos no Hospital de São José, em Lisboa, e terá sido infetado por um colega.

“As minhas primeiras palavras vão para a família com enorme sentido de pesar. Foi um dos nossos que caiu. Ele nunca mais será esquecido”, disse Fernando Araújo, que estima que o São João registe cerca de 200 casos de infeção entre profissionais de saúde. “Felizmente a maioria já regressou ao serviço”, acrescentou.

Cristina Teixeira, assistente técnica há 18 anos no Hospital de São João é uma das retratadas. À Lusa disse ter ficado “surpreendida”, mas sobretudo “feliz por todos os profissionais”, porque, sublinhou: “Trabalhamos todos em conjunto nesta epidemia e tivemos medo. Tivemos. Bastante”.

Ao lado está o rosto de Patrícia Botelho, enfermeira na urgência geral, serviço que foi “linha da frente” no combate à pandemia.

“Nos dois/três meses que passaram, as maiores dificuldades foram termos uma afluência anormal de pessoas à urgência, a carga de trabalho aumentou, tivemos de nos ambientar a novas dinâmicas e novas rotinas e a um vírus que trazia uma preocupação crescente a nível global. Somando-se o medo enorme de transmitir alguma coisa às nossas famílias”, descreveu à Lusa.

E, para não transmitir esse vírus, Patrícia somou aos novos procedimentos do hospital, novas rotinas em casa que incluiu uma “zona de sujos”, “mais banhos” e “roupas depositadas em sacos fechados”.

Também David Andrade, médico no serviço de urgência há 18 anos, que brinca com o facto de ter sido escolhido para o mural, dizendo que “era o rosto que estava mais à mão”, admite ter tido receios no passado, mas, sublinhando que o SNS “conseguiu responder”, lembra já o futuro.

“Houve um sentimento de apreensão face ao que podíamos contar. É evidente que no início estávamos com medo do número de casos (…). O SNS esteve muito bem preparado. O vírus continua aí. Devemos manter todos os cuidados que são exaustivamente e diariamente solicitados”, frisou.