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Quando tudo arde

Quando a espada te atravessa tão repentinamente, ainda a sentes? quando o punhal foi tão fundo que tu já não sabes se é dor que desatina sem doer, ainda é golpe ou outra coisa qualquer? quando o sangue te escorre das mãos e ainda está quente, ainda é teu? quando já não ouves o explosão do tiro e vês o buraco negro no teu peito fumegante, é a altura certa para saberes que deves morrer? quando a queimada devasta mais uma vez a terra e ela já não é combustível, o que mais há para arder? quando perdes pé e sabes que o mar te vai encher as goelas e as narinas e as órbitas dos olhos, ainda estás vivo para pensar nisso tudo? quando o deserto te queima os pulmões com pó, ainda tens sede? quando passas a voar pelo 10° andar a caminho do chão, ainda sentes as tuas veias a pulsar arrepiadas? quando te desintegras num só sopro de rebentamento, para onde vais? quando o sol fica negro e já não é dia nem é noite, onde estás? quando todos te dizem que és um monstro, deves continuar a viver?

Docilmente, ajoelhas-te perante os teus carrascos, de olhos bem abertos vês a sua verdade nos seus, deitas a cabeça no madeiro, entregas a nuca nua à justiça, a multidão em delírio cala-se ofegante, o céu respira uma, não, duas vezes, durante uns breves instantes tens a sensação que consegues ouvir o Sol a arder. de repente já não ouves, não sentes nada.

A mão do anjo veio intervir por ti e paralisou o derradeiro momento? já podes levantar os olhos? se o teu sangue não escorre à tua volta, é bom sinal? quando já não há multidâo, nem gume, nem céu, e o sol ficou como bréu e já não é dia nem é noite, onde estás?

JLC19042008
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Quand tout brûle

Quand l’épée te traverse aussi soudainement, tu la sens toujours? quand la dague s’est plantée tellement profondément en toi que tu ne sais plus si c’est juste de la douleur ou quelque chose d’autre, ressens-tu toujours le coup porté? quand le sang te coule encore chaud des mains, le reconnais-tu comme tien? quand tu n’entends plus le vacarme du coup de feu e que tu constates le trou noir sur ta poitrine fumante, est-ce le moment opportun pour savoir que tu dois mourir? quand le brûlis dévaste une nouvelle fois la terre et qu’elle n’est plus combustible, que reste-t-il à brûler? quand tu perds pied e que tu sais que la mer va te remplir la gueule et les narines et les orbites des yeux, es-tu encore en vie pour penser à tout cela? quand le désert te brûle les poumons avec sa poussière, as-tu encore soif? quand tu passes en vol plané par le dixième étage en fonçant droit sur le sol, sens-tu encore tes veines qui pulsent à l’envers? quand tu te désintègres en un seul souffle d’explosion, que deviens-tu? quand le soleil se noircit et qu’il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu? quand tous te disent que tu es un monstre, dois-tu continuer à vivre?

Docilement, tu t’agenouilles devant tes bourreaux, les yeux bien ouverts tu aperçois la vérité dans les leurs, tu couches ta tête sur le bloc de bois, tu tends ta nuque à la justice, la foule en délire se tait haletante, le ciel respire une, non, deux fois, pendant quelques brefs instants tu as la sensation que tu arrives à entendre le soleil qui brûle. soudain, tu n’entends ni ne sens plus rien.

La main de l’ange est-elle intervenue pour toi, stoppant net le dernier instant? tu peux lever les yeux? si ton sang ne coule pas autour de toi, est-ce bon signe? s’il n’y a plus ni foule, ni lame, ni ciel, et que le soleil est noir et qu’il ne fait plus jour ni nuit, où es-tu?

JLC19042008