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Poesia de Pessoa inspira livro sobre desastres aéreos

O escritor norte-americano James Hannaham conheceu a poesia de Fernando Pessoa durante uma viagem de avião e dessa experiência nasceu um livro, a ser publicado este mês, que cruza aqueles poemas com desastres aéreos, refletindo sobre verdade e identidade.

Segundo um artigo publicado esta semana no Los Angeles Times, “Pilot Impostor”, que será publicado nos Estados Unidos no dia 30 de novembro, é uma obra “singular” e “um livro impossível de categorizar”, que mistura cânticos, com poesia, prosa, reflexões filosóficas, ficção e não ficção.

Seguindo-se aos aclamados romances “God Says No” e “Delicious Foods” – este último vencedor do Prémio PEN/Faulkner Ficção 2016 e publicado em Portugal pela Relógio d’Água com o título “Fruta deliciosa” -, este novo livro representa um “desvio ousado” ao estilo que marca os anteriores.

O primeiro é a história de um jovem gay que se debate entre a vida cristã conservadora e os seus desejos secretos, enquanto o segundo é uma história de terror, na qual os monstros são o racismo sistémico, o crack e a cocaína, e o legado de escravatura da América.

Segundo o jornal, “para um romancista em ascensão, este livro inclassificável poderá ser encarado como um desvio arriscado na carreira”.

Numa conversa mantida por Zoom entre o autor do artigo do Los Angeles Times e James Hannaham, o escritor explicou como chegou a este livro e qual a sua inspiração.

“O meu marido e eu vínhamos de Cabo Verde a caminho de Lisboa. Eu estava num avião, tinha acabado o livro que tinha trazido de um autor cabo-verdiano e decidi começar a ler outro livro que trouxera de um autor português, de Lisboa, que era Fernando Pessoa”.

James Hannaham familiarizou-se com o poeta e os seus heterónimos, considerando que Fernando Pessoa “criou uma espécie de identidade fragmentada, muito antes de qualquer outra pessoa o fazer”.

Um dos heterónimos pessoanos mais famosos é o pastor Alberto Caeiro e foi com esse poeta que James Hannaham primeiramente se confrontou.

“A primeira linha do primeiro poema começa com uma mentira: ‘Eu nunca guardei rebanhos, mas é como se os guardasse’. Essa linha pareceu-me particularmente indicativa de como são os nossos tempos neste momento. Por isso, quando a viagem de avião acabou, eu já tinha concebido a ideia de escrever uma resposta a cada poema deste maldito livro”.

A obra resultante desta experiência é uma coleção de cânticos, reflexões filosóficas, poesia e prosa, ficção e não-ficção, livremente construída em torno do pavor dos desastres aéreos, com imagens coladas de Lisboa e aviões a despenharem-se.

Um livro “engraçado, perturbador, intrigante e evocativo”, descreve o jornal.

“Os poemas de Pessoa que inspiraram cada peça são creditados nas margens, e, embora o livro valha por si só, se lermos os dois juntos, a experiência aprofunda e expõe tanto as lacunas como as semelhanças na forma como cada um destes escritores vê o mundo”, acrescenta.

Para estruturar o projeto, James Hannaham criou termos de compromisso, que explica: “Comecei a estipular regras loucas sobre como iria trabalhar, mas a regra principal era ter uma prática diária ou semi-diária de ler um poema, pensar em como lhe responder, e depois escrever algo que, de alguma forma, estivesse relacionado com ele”.

Tal como a poesia de Pessoa e dos seus vários heterónimos, “Pilot Impostor” transborda de ideias, um turbilhão de energia intelectual, como se James Hannaham estivesse a tentar envolver-se com o falecido autor português a partir de perspetivas diferentes, por vezes contraditórias, descreve o Los Angeles Times.

“O que emerge é uma espécie de argumento em fragmentos, repleto de pavor moderno, exigindo-nos que olhemos para trás do artifício e nos liguemos à visão da humanidade de Hannaham. Pode ser uma viagem estranha”, acrescenta.

Nas palavras de James Hannaham, “a ideia de um piloto impostor era alguém que tinha mentido sobre ser piloto e tentava pilotar um avião de qualquer maneira. As pessoas na cabine tinham de confiar nas pessoas que estavam no cockpit, sem nunca as terem conhecido ou aprovado, e isto é um pouco como a situação política”.

O escritor referia-se à governação de Donald Trump, mas não só, pois a escrita de Hannaham encerra também a ideia de se estar a assistir à morte dos especialistas e à ausência de pensamento critico.

Na sua opinião, a sociedade americana contemporânea está a afogar-se num tsunami de falsidades, “pessoas que são descaradamente capazes de dizer coisas bastante chocantes, que de outra forma não teriam sido ditas, e ainda se safam”.

Isto era particularmente verdade para um escritor como Fernando Pessoa, que jogava ativamente com várias identidades, permitindo por vezes que os seus heterónimos se correspondessem e criticassem uns aos outros.

Este sentido fluído de identidade – e política de identidade – está no centro de muitos dos textos do livro de James Hannaham.

“O que apelidamos de política de identidade é algo que tem que ver com características das pessoas, que não são a pessoa inteira, certo? Falamos sobre cultura e cor e classe e todas estas coisas, mas há qualquer coisa muito mais misteriosa para todos sobre apenas existir. E isso, penso eu, parece-se muito mais com identidade, para a pessoa que a vive”.

James Hannaham, homossexual, negro e primo da artista Kara Walker, já trabalhou anteriormente com estes temas da verdade e da mudança de perspetivas.

Em “Pilot Impostor”, usa Fernando Pessoa como um trampolim para interrogar a narrativa e o narrador e para procurar algum tipo de verdade sobre a consciência.

“É mesmo estranho ser humano e vivo e observador e sentir como se a identidade fosse reduzida a algo que na realidade é apenas uma ínfima parte do que é a identidade. Posso negar que o que se diz sobre a minha identidade é verdade, mesmo que seja verdade, e isso é legítimo. É como o piloto entrar no cockpit, trancar a porta e decidir despenhar o avião”.