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Morreu Jorge Palma

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O músico Jorge Palma, um dos cantores e compositores mais marcantes da música portuguesa contemporânea, morreu na segunda-feira à noite, aos 76 anos, anunciou hoje a família.

“É com profundo pesar e consternação que a família e agência de Jorge Palma informam a sua morte, ocorrida esta segunda-feira à noite, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória”, refere a família do músico, numa mensagem partilhada nas redes sociais. 

A família recorda que Jorge Palma, com uma carreira com mais de meio século, “deixa uma obra assinalável que faz parte da história” portuguesa, bem como “muitos amigos pelo mundo, pessoas que conquistou com a sua generosidade e genialidade”.

Jorge Palma esteve também presente junto da diáspora portuguesa, tendo atuado em vários países para as comunidades.

Jorge Manuel d’Abreu Palma nasceu em Lisboa, a 4 de junho de 1950. Começou a estudar piano ainda criança, por volta dos seis anos, e passou pelo Conservatório Nacional. Aos 14 anos, porém, decidiu afastar-se da formação clássica para se dedicar ao rock e à música popular.

A sua primeira experiência em bandas aconteceu ainda nos anos 1960. Passou pelos Black Boys e, em 1969, integrou os Sindikato, grupo de rock em que também participava Rão Kyao. Os Sindikato estiveram na primeira edição do Festival de Vilar de Mouros, em 1971, um dos momentos fundadores da história do rock em Portugal. O grupo chegou a editar um single e um álbum de versões.

Em 1972, Jorge Palma iniciou oficialmente a carreira a solo com o single “The Nine Billion Names of God”, cantado em inglês. Nesse período abandonou também os estudos de Engenharia e começou a afirmar-se como compositor e músico. A aproximação à escrita em português ganhou particular importância através da relação com o poeta José Carlos Ary dos Santos. Dessa colaboração nasceu, em 1973, o EP “A Última Canção”, que inclui quatro composições de Palma, duas delas com letras de Ary dos Santos.

Ainda em 1973, Palma recusou cumprir o serviço militar obrigatório, no contexto da Guerra Colonial, e partiu para a Dinamarca, onde obteve asilo político. Viveu em Copenhaga e trabalhou em empregos diversos para sobreviver. Regressou a Portugal em 1974, depois da Revolução de 25 de Abril.

De regresso, desenvolveu uma intensa atividade como compositor, orquestrador e arranjador para outros intérpretes. Trabalhou, entre outros, com Amália Rodrigues, Tonicha, Rui de Mascarenhas e Paco Bandeira. Em 1975 participou no Festival RTP da Canção com dois temas: “Viagem”, a solo, e “O Pecado Capital”, interpretado com Fernando Girão. Nesse mesmo ano publicou o primeiro álbum de longa duração, “Com uma Viagem na Palma da Mão”.

A década de 1970 foi também marcada pelas suas viagens pela Europa, onde chegou a tocar na rua e no metro, nomeadamente em Paris e Copenhaga. Essa experiência, conjugada com as influências do rock, do folk, do blues, do jazz e da música clássica, ajudou a construir uma linguagem muito própria.

Depois de “Com uma Viagem na Palma da Mão”, Palma lançou trabalhos como “Té Já” (1977), “Acto Contínuo” (1982), “Asas e Penas” (1984), “O Lado Errado da Noite” (1985), “Quarto Minguante” (1986) e “Bairro do Amor” (1989). É sobretudo a partir de meados dos anos 1980 que a sua escrita e interpretação se tornam presença central na música popular portuguesa, com canções como “Deixa-me Rir”, “A Gente Vai Continuar”, “Estrela do Mar” e “Bairro do Amor”.

Apesar de uma carreira já consolidada, Jorge Palma retomou os estudos de piano no Conservatório de Lisboa e concluiu o Curso Superior de Piano em 1990. No ano seguinte publicou “Só”, um álbum particularmente singular na sua discografia: acompanhado essencialmente pelo piano, Palma revisitou canções de diferentes momentos da sua carreira.

Durante os anos 1990, manteve uma atividade musical diversificada. Criou os Palma’s Gang, ao lado de músicos como Zé Pedro e Kalú, dos Xutos & Pontapés, e Flak e Alex Cortez, dos Rádio Macau. Participou também em projetos como os Rio Grande e, mais tarde, os Cabeças no Ar, ao mesmo tempo que compunha para teatro e para outros intérpretes.

Em 2001 regressou aos álbuns de originais com “Jorge Palma”. O disco valeu-lhe, em 2002, o Prémio José Afonso. Seguiram-se “Norte” (2004), “Voo Nocturno” (2007) e “Com Todo o Respeito” (2011). “Voo Nocturno” alcançou dupla platina e consolidou uma carreira que, nessa altura, já atravessava quatro décadas. “Com Todo o Respeito” recebeu o Prémio Pedro Osório da Sociedade Portuguesa de Autores.

A sua atividade estendeu-se igualmente a colaborações com outros músicos. Entre elas destacou-se a parceria com Sérgio Godinho, com quem gravou “Juntos”, álbum ao vivo editado em 2015. Ao longo da carreira, Palma trabalhou ainda com numerosos nomes da música portuguesa, mantendo uma relação particularmente forte entre a canção de autor, o rock e a tradição do piano.

Em 2020, quando completou 70 anos, foi celebrado com o espetáculo “70 Voltas ao Sol”, no Castelo de São Jorge, em Lisboa, acompanhado por uma orquestra de câmara dirigida por Cesário Costa. Os arranjos foram preparados pelos pianistas e compositores Filipe Melo e Filipe Raposo. Nesse contexto recebeu a Medalha de Mérito Cultural da cidade de Lisboa. No mesmo ano foi condecorado pelo Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, como comendador da Ordem do Infante D. Henrique.

Depois de um intervalo de 12 anos sem um álbum de originais, Jorge Palma regressou em 2023 com “Vida”. O disco recuperava a dimensão autobiográfica e confessional que atravessou grande parte da sua obra. A faixa-título nasceu de uma canção escrita numa noite em casa e posteriormente trabalhada em estúdio com, entre outros, Júlio Pereira e Filipe Melo.

Em 2025 apresentou o espetáculo “3 Palmas na Mão”, em que partilhou o palco com os filhos Vicente Palma e Francisco Palma. Vicente, nascido em 1983, já integrava há cerca de duas décadas a banda que acompanhava o pai. Francisco, nascido em 1995, juntou-se igualmente ao projeto familiar.

Em abril de 2026, poucos meses antes da sua morte, Jorge Palma recebeu o Prémio Carreira na oitava edição dos PLAY – Prémios da Música Portuguesa. A distinção foi entregue pelo secretário de Estado da Cultura, Alberto Santos, numa cerimónia realizada no Coliseu dos Recreios, em Lisboa.

Jorge Palma morreu na noite de 21 de setembro de 2026, aos 76 anos, vítima de uma paragem cardiorrespiratória. Deixou uma carreira com mais de cinco décadas, marcada por uma obra que atravessou diferentes gerações e por uma figura artística difícil de separar das próprias canções: o pianista de formação clássica que encontrou no rock, na canção de autor e na vida vivida matéria para construir uma das vozes mais reconhecíveis da música portuguesa.

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