De que está à procura ?

Comunidades

Júlio Vilela: “O emigrante de hoje não tem necessariamente o desejo de voltar”

© DR

Há quase quatro décadas que Júlio Vilela representa Portugal pelo mundo. Caracas, Barcelona, Genebra, Toronto, Zagreb e, desde 2022, Berna fazem parte de um percurso diplomático de quem também passou pela direção dos Assuntos Consulares e das Comunidades Portuguesas. Mas no BOM DIA Diplomacia, o atual embaixador de Portugal na Suíça e no Liechtenstein deixou por momentos o protocolo à porta e falou também das memórias, dos lugares, dos hábitos e das histórias que têm marcado a sua vida.

A conversa começou por abordar, inevitavelmente, o livro que apresentou recentemente: “Portugal e 50 anos de Democracia Participativa”. A obra nasceu da vontade de “refletir sobre o comportamento do emigrante no exercício do direito de voto e aquilo que aconteceu nos últimos 50 anos, tendo em conta, por um lado, a relevância que a diáspora portuguesa possui para as autoridades centrais e o de serem, também elas, parte de Portugal no mundo”. E deixa claro: “o livro não tem qualquer caráter político, mas apenas promover informação e, quem sabe, também um diálogo mais profícuo em relação às questões relativas ao voto do emigrante”.

Na Suíça, encontrou uma comunidade portuguesa que, diz, multiplicou-se e evoluiu significativamente desde a primeira vez que esteve no país, há cerca de duas décadas. Hoje, os portugueses estão presentes nos 26 cantões e uma nova geração começa a construir uma identidade própria.

“Mais de 80% dos portugueses com menos de 18 anos já nasceram na Suíça”, segundo os dados referidos pelo embaixador. E isso está, na sua perspetiva, a mudar a relação das novas gerações com Portugal. “Isto significa que esta jovem comunidade irá agir, porventura, no futuro de uma forma diferente dos seus progenitores: mais integrada, mais autónoma, não deixando de manter ligações afetivas a Portugal”, acrescenta.

Com portugueses espalhados por mais de 180 países, o embaixador considera que nem sempre se reconhece plenamente o percurso e as conquistas das comunidades portuguesas no estrangeiro. A imagem tradicional de quem partia à procura de melhores condições de vida, com a intenção de regressar a Portugal na reforma, já não corresponde necessariamente à realidade atual.

“O emigrante que partiu, em particular, no (início) do século XXI e aquele que hoje parte não têm necessariamente no seu horizonte o desejo de voltar”, observa. É uma realidade que, considera Júlio Vilela, nem sempre é devidamente percebida em Portugal. Muitos dos mais jovens saem porque procuram oportunidades profissionais e pessoais que não encontram no mercado de trabalho português, movidos por ambições diferentes das gerações anteriores. “O jovem parte sobretudo para arriscar e ser vencedor. E isto é profundamente enriquecedor para as comunidades, mas também para Portugal”, sublinha o embaixador.

Durante os anos em que esteve à frente dos Assuntos Consulares (entre 2016 e 2021), o diplomata acompanhou situações provocadas por catástrofes naturais, conflitos e, naturalmente, a pandemia. Experiências que lhe deixaram uma convicção: nenhuma nação consegue hoje enfrentar e gerir sozinha todas as crises e problemas e “só a solidariedade entre os Estados, entre as instituições, só as parcerias e os apoios mútuos é que permitem a superação das crises”.

Para o embaixador, os diplomatas são “na prática, uma ponte permanente entre pessoas, entre instituições e entre sociedades”. É também por isso que a dimensão social da diplomacia, tantas vezes vista de fora como acessória, assume uma importância particular. Receber, participar, estabelecer relações e ganhar a confiança de quem está do outro lado são, na perspetiva do diplomata, instrumentos de trabalho. “Não podemos fazer pontes sem sermos conhecidos e nos darmos a conhecer. Não podemos fazer pontes sem sermos capazes de atrair a atenção daquele que nos recebe. E isto, por vezes, não é fácil de explicar ao grande público em Portugal”, acrescenta.

Mas talvez seja quando deixa a diplomacia e regressa à infância que aparece o lado mais pessoal da conversa. Júlio Vilela nasceu no Lobito e viveu entre o Lobito e Benguela, em Angola, durante os primeiros três anos de vida. E, entre todas as imagens que ficaram dessa infância, há uma que permanece particularmente forte: o mar.

A praia, o calor, os cheiros, o quintal da casa onde viveu, a sensação de crescer junto da água são memórias que, décadas depois, continuam presentes e que ajudam a explicar preferências atuais por lugares perto do mar e onde o sol predomina. “Isto são particularidades (…) que marcam muito depois a nossa forma de estar depois nos lugares onde por onde acabamos por ir exercer funções”.

A conversa passa ainda pelas cidades onde viveu, pelas memórias que guarda de cada destino e pela importância de reservar espaço para os pequenos prazeres da vida (como a leitura e a música), mesmo numa profissão frequentemente marcada por situações exigentes. O humor, acredita, é essencial para manter essa leveza: “Rir deve fazer parte da vida das pessoas porque, de facto, ela já é muito complicada quando temos de tratar de assuntos sérios”, afirma.

O episódio está disponível nas plataformas digitais do BOM DIA (YouTube, Spotify e Apple Podcasts).

Texto: Fabiana Bravo

TÓPICOS

Siga-nos e receba as notícias do BOM DIA