Durante décadas, habituámo-nos a reconhecer um implante coclear também por aquilo que se vê: um processador junto à orelha, uma bobina sobre a cabeça, baterias, cabos e acessórios que fazem parte da rotina de quem depende desta tecnologia para ouvir. Esta semana, essa imagem começou a mudar. Pela primeira vez, um implante coclear totalmente implantável e comercialmente disponível entrou na prática clínica europeia. Tudo fica sob a pele – microfone, processamento, bateria e sistema de estimulação. A tecnologia, literalmente, desaparece do olhar.
A novidade chama-se TICI UNICO e foi lançada pela MED-EL. A marca merece ser identificada porque é a responsável por este desenvolvimento, mas a questão verdadeiramente interessante ultrapassa qualquer fabricante: o que acontece quando uma tecnologia de reabilitação auditiva deixa de ser um dispositivo que colocamos e retiramos e passa a acompanhar a pessoa continuamente?
Para quem utiliza um implante coclear convencional, a diferença é fácil de compreender. Retiramos o processador para dormir; há cuidados acrescidos com água, suor, quedas e perda; carregamos baterias e transportamos acessórios. Um sistema totalmente implantável promete reduzir parte desse ritual e permitir acesso ao som durante o sono, no banho, na natação ou em momentos em que o processador externo tradicionalmente não está disponível. Para uma criança, para um adulto que vive sozinho ou para quem precisa de perceber um alarme durante a noite, ouvir continuamente pode ser muito mais do que uma questão de conforto.
Mas a inovação séria não deve ser recebida nem com deslumbramento nem com receio automático. Deve ser interrogada. Se o processador, o microfone e a bateria passam para o interior do corpo, também mudam as perguntas sobre manutenção, reparação e evolução tecnológica. Num sistema convencional, um processador externo pode ser substituído ou atualizado sem nova cirurgia. Num sistema totalmente implantável, importa perceber, ao longo dos anos, quais os componentes que poderão ser atualizados por software, quais exigirão intervenção médica e como será gerido o fim de vida de uma bateria ou de um componente eletrónico.
Há ainda a questão do microfone subcutâneo. Captar som através da pele foi durante muito tempo um dos grandes obstáculos da engenharia de um implante deste tipo. Os primeiros resultados científicos são encorajadores: um estudo de viabilidade com seis participantes encontrou desempenho de perceção da fala comparável ao obtido com um processador externo convencional. Mas seis pessoas e um acompanhamento limitado não equivalem a décadas de utilização. A prudência científica obriga-nos a acompanhar a fiabilidade, a qualidade sonora, o comportamento dos tecidos, a durabilidade e a experiência quotidiana numa população muito maior.
Também não podemos permitir que a invisibilidade se transforme num novo padrão social imposto às pessoas com deficiência auditiva. Há quem valorize a discrição; há quem use a sua tecnologia sem qualquer constrangimento; há quem veja nela uma parte da sua identidade. Tornar um dispositivo invisível pode aumentar liberdade e escolha. Não deve transmitir a ideia de que a deficiência precisa de ser escondida para ser aceite.
E existe uma pergunta que Portugal terá inevitavelmente de fazer: quem terá acesso a esta evolução? A inovação em saúde só se transforma verdadeiramente em progresso quando não fica limitada a quem a pode pagar. Critérios clínicos, financiamento, acompanhamento, manutenção, eventual substituição e equidade no acesso terão de entrar na discussão à medida que estas soluções chegarem aos sistemas de saúde.
Como utilizador de implante coclear, observo esta mudança com enorme interesse. Como Engenheiro Electrotécnico e de Computadores, na área de Controlo e Robótica, vejo nela um exemplo fascinante de integração entre eletrónica, processamento de sinal, energia, materiais biocompatíveis e engenharia biomédica. Quanto mais funções colocamos dentro do corpo humano, maior é a responsabilidade de projetar não apenas para funcionar hoje, mas para permanecer seguro, reparável, acompanhável e clinicamente útil durante muitos anos.
Talvez a maior revolução não seja, afinal, deixar de vermos o implante. É começarmos a aproximar-nos de uma tecnologia que interfere cada vez menos com o quotidiano e que procura devolver algo extraordinariamente simples: a possibilidade de ouvir sem ter de pensar constantemente no dispositivo que permite ouvir.
A engenharia pode fazer desaparecer a tecnologia dos nossos olhos. Não pode fazer desaparecer as perguntas sobre segurança, acesso, sustentabilidade e liberdade de escolha. E ainda bem. Porque o verdadeiro futuro da reabilitação auditiva não será medido apenas pelo tamanho dos componentes ou pelo número de horas de autonomia. Será medido pela autonomia que devolve às pessoas.
“A engenharia pode tornar a tecnologia invisível. O verdadeiro progresso mede-se pela autonomia que devolve às pessoas.”
Nota factual: O TICI UNICO foi apresentado comercialmente na Europa em 29 de setembro de 2026, após marcação CE. A evidência clínica publicada inclui um estudo inicial de viabilidade com seis participantes; os resultados são promissores, mas exigem confirmação através de maior experiência clínica e acompanhamento prolongado.
António Ricardo Antunes Miranda
