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A máquina que lê o mundo: a inteligência artificial, o futuro da guerra e da Intelligence

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A IA não vai substituir o soldado nem o analista. Vai mudar quem decide, com que rapidez e com que margem de erro, e as democracias ainda não decidiram como querem lidar com isso.

Em todas as revoluções militares houve quem prometesse que a nova tecnologia tornaria a guerra mais limpa, mais curta e mais previsível. Aconteceu com a metralhadora, com o carro de combate e com a bomba de precisão, e nunca foi bem assim. A inteligência artificial (IA) é a mais recente destas promessas. Convém levá-la a sério, porque desta vez a tecnologia não altera apenas as armas: altera a forma como se pensa, se decide e se sabe.

Dois campos, uma mesma transformação

O debate público tende a fixar-se nos robôs armados, nos “exterminadores” da ficção. É a parte menos importante da história. A IA está a transformar dois domínios distintos, embora ligados: o campo de batalha e o mundo da Intelligence, o conjunto de atividades de recolha e análise de informação que sustenta as decisões de segurança de um Estado.

No campo de batalha, a IA mexe sobretudo com a velocidade. No mundo da Intelligence, mexe com a escala. Num caso e noutro, o ganho é real, e o risco também.

A guerra à velocidade da máquina

A guerra na Ucrânia foi um laboratório involuntário e brutal. Os drones baratos, muitas vezes adaptados de uso civil, tornaram-se omnipresentes, e as duas partes descobriram um problema simples: a guerra eletrónica pode cortar a ligação entre o drone e o seu operador. A resposta natural é dar ao aparelho alguma autonomia, como reconhecer um alvo na fase final da aproximação ou manter a trajetória mesmo sem sinal. É uma autonomia limitada e funcional, mas um passo importante, porque a lógica do campo de batalha empurra, de forma quase gravitacional, para menos intervenção humana.

Há três efeitos que importa compreender.

Primeiro, o encurtamento do ciclo de decisão. Os militares falam do ciclo OODA (observar, orientar, decidir, agir). Quem o percorre mais depressa do que o adversário tem vantagem, porque quando este reage a situação já mudou. A IA comprime as fases de observação e orientação: processa imagens de satélite, de drones e de sensores em segundos, sugere alvos, propõe opções. O risco é que o ritmo da máquina passe a ditar o ritmo da decisão, deixando ao humano um papel de mera validação, o de carimbar o que já vem decidido.

Segundo, a democratização da capacidade destrutiva. Um míssil de cruzeiro custa centenas de milhares de euros; um drone com software adequado custa uma fração disso. A assimetria de custos altera a economia da guerra, porque defender-se de enxames baratos com interceptores caros é uma equação insustentável. Isto favorece tanto Estados médios como atores não estatais, e complica a vida às grandes potências que construíram a sua superioridade em plataformas sofisticadas e raras.

Terceiro, a logística e a manutenção preditiva. Longe dos holofotes, é aqui que talvez esteja o ganho mais imediato: prever avarias, otimizar cadeias de abastecimento, planear rotas. É pouco cinematográfico e muito decisivo, porque as guerras ganham-se, em boa parte, pela capacidade de sustentar forças.

A Intelligence numa era de excesso

Durante a Guerra Fria, o problema da Intelligence era a escassez: pouca informação, difícil de obter, escondida atrás de cortinas. Hoje o problema é o inverso. Há informação em excesso: imagens comerciais de satélite, comunicações interceptadas, redes sociais, dados de tráfego marítimo e aéreo, registos financeiros. Nenhuma equipa humana consegue processá-la toda.

É aqui que a IA se torna quase indispensável. Os modelos conseguem detetar padrões em volumes de dados impossíveis de analisar à mão, traduzir e resumir comunicações em dezenas de línguas, identificar alterações em imagens de satélite (uma nova instalação, movimentos de tropas, um estaleiro que se altera) e cruzar fontes diversas. A chamada informação de fontes abertas (OSINT) ganhou uma dimensão que há vinte anos seria impensável: investigadores independentes, munidos de imagens públicas e de ferramentas automáticas, conseguem hoje documentar movimentações militares que antes eram exclusivo dos serviços de Estado.

Convém, no entanto, ser rigoroso quanto ao que a IA faz e não faz. Ela é excelente a encontrar correlações e fraca a compreender intenções. A Intelligence não consiste apenas em detetar que algo acontece; consiste em interpretar porquê e o que fará o adversário a seguir. Isso exige contexto histórico, conhecimento cultural, juízo sobre a fiabilidade de uma fonte e, sobretudo, a capacidade de admitir que se pode estar enganado. Os modelos atuais têm pouco de tudo isto, e alguns fabricam com grande fluência afirmações falsas e convincentes. Um relatório de Intelligence que pareça sólido mas assente numa alucinação estatística pode ser pior do que a ausência de relatório.

Há ainda o reverso da medalha: a IA também serve para enganar. Imagens e áudios sintéticos, campanhas de desinformação em escala industrial, perfis falsos indistinguíveis de pessoas reais e ciberataques mais rápidos e personalizados são armas de quem quer poluir o ambiente informativo do adversário. A contraintelligence tem agora de distinguir o real do fabricado, o que obriga a uma corrida permanente entre quem gera e quem deteta.

O problema do humano “na malha”

O princípio mais repetido no debate político é o do controlo humano significativo: nenhuma decisão de vida ou morte deve ser tomada sem intervenção humana real. Concordo com o princípio, mas sublinho a palavra “real”.

Há uma diferença enorme entre um operador que analisa com calma um alvo, pondera o contexto e decide, e um operador que recebe centenas de sugestões por hora e dispõe de segundos para cada uma. No segundo caso, o humano está formalmente “na malha”, mas na prática exerce uma função de carimbo. A literatura designa este fenómeno por viés de automação: a tendência para confiar nas recomendações da máquina, mesmo quando o nosso juízo poderia corrigi-las.

Foram publicadas investigações jornalísticas sobre sistemas de apoio à seleção de alvos em conflitos recentes, que sugerem que o uso de ferramentas de IA para gerar listas de alvos em grande volume levanta exatamente estas questões, embora os detalhes e as conclusões sejam disputados pelas partes envolvidas e difíceis de verificar de forma independente. Sem tomar partido nesses casos concretos, a lição geral é sólida: quando a máquina produz mais alvos do que o humano consegue avaliar, a responsabilidade dilui-se, e é a responsabilidade que sustenta o direito da guerra.

O direito, a ética e o vazio regulatório

O direito internacional humanitário assenta em princípios que não desapareceram com a tecnologia: distinção entre combatentes e civis, proporcionalidade e precaução. A questão é como aplicar juízos essencialmente humanos, que exigem ponderação contextual, a sistemas que não compreendem o contexto.

Há um debate de anos, nas Nações Unidas e na Convenção sobre Certas Armas Convencionais, sobre os sistemas de armas autónomas letais. A Assembleia Geral aprovou resoluções sobre o tema e o Secretário-Geral tem defendido a necessidade de um instrumento juridicamente vinculativo. Mas o consenso é difícil: as potências militares com mais a ganhar são as menos entusiastas de restrições rígidas, e a definição do que conta como “autónomo” é ela própria contestada.

A União Europeia, por seu lado, criou o regulamento mais ambicioso do mundo para a IA, mas deixou de fora as aplicações militares e de segurança nacional, que ficam sob competência dos Estados. É compreensível do ponto de vista jurídico, mas deixa um vazio: a tecnologia mais transformadora para a guerra é justamente a que a regulação europeia não cobre.

A corrida entre grandes potências

Estados Unidos e China tratam a IA como um fator central da competição estratégica. Ambos investem fortemente na integração de IA em comando e controlo, em sistemas não tripulados e em análise de informação. A NATO, por sua vez, tem vindo a adotar estratégias e plataformas de análise assistida por IA para acelerar a fusão de dados entre aliados.

A dinâmica é a de um dilema de segurança clássico: cada parte teme que a outra ganhe vantagem, e por isso acelera, o que reduz o tempo disponível para testar, verificar e refletir. A história militar mostra que a pressa é inimiga da prudência. Um sistema mal testado, integrado à pressa numa cadeia de decisão, pode produzir erros de escalada, como uma falsa deteção interpretada como ataque real ou uma resposta automática a um incidente ambíguo.

Há ainda um risco menos falado, o da opacidade. Se os sistemas são cada vez mais complexos e difíceis de auditar, os decisores podem não perceber porque é que a máquina recomendou o que recomendou. Confiar em recomendações que não se consegue explicar é uma forma de abdicação.

O que deve fazer a Europa, e Portugal

Para a Europa, o desafio é triplo. É preciso capacidade: sem acesso a computação, a dados e a talento, ficará dependente de fornecedores externos e, no limite, de decisões tomadas fora do continente. É preciso doutrina: definir com clareza, e antes de o campo de batalha o impor, onde passa a fronteira entre a assistência aceitável e a delegação inaceitável. E é preciso confiança: sistemas testados, auditáveis, com responsabilidades claramente atribuídas.

Portugal tem aqui uma oportunidade que não deve desperdiçar. Sendo um país de média dimensão, não pode competir em todas as frentes, mas pode especializar-se onde tem vantagens: o domínio marítimo e a vigilância do Atlântico, o espaço, a ciberdefesa e a análise de dados. Para isso precisa de formar analistas e engenheiros, de aproximar universidades, indústria e Forças Armadas, e de dar aos serviços de informações os meios para usar estas ferramentas com rigor e sob controlo democrático.

Uma questão de juízo

A tentação, perante uma tecnologia tão poderosa, é oscilar entre o deslumbramento e o pânico. Ambos são maus conselheiros. A IA não é uma força da natureza; é um conjunto de ferramentas moldadas por decisões humanas sobre o que se financia, o que se testa, o que se proíbe e quem responde pelos erros.

O que está em jogo, no fundo, não é a capacidade das máquinas, mas a qualidade do juízo humano que as enquadra. A Intelligence sempre foi a arte de reduzir a incerteza para ajudar quem decide. A IA pode ser um formidável auxiliar dessa arte, desde que não a confundamos com um substituto dela. Uma democracia que delegue nas máquinas aquilo que devia decidir por si, apenas porque é mais rápido, terá ganho velocidade e perdido o essencial: o controlo sobre o uso da força em seu nome.

André Ferreira

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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