De que está à procura ?

Colunistas

A indignação saiu à rua num dia assim

© L'Union Étudiante

Hoje apetece-me falar dos paladinos do Facebook, os gladiadores de sofá, que pelejam nas redes sociais desde o conforto mole das suas poltronas, esses arautos corajosos de facho no punho que dão o corpo ao manifesto… atrás de um ecrã. Não, afinal não é desses que quero falar. Vou antes elogiar os verdadeiros heróis e heroínas que se fartaram de estar indignados por ecrã interposto e decidiram sair à rua para gritar mais alto, gritar para serem ouvidos.  

Da França à Bélgica, de Portugal aos Estados Unidos, as mobilizações de jovens em 2026 contam a mesma história: a de uma juventude que recusa calar-se quando considera que os seus direitos não estão suficientemente protegidos. 

Por trás de reivindicações diferentes — mais verbas para a educação, custo dos estudos, habitação, violência sexual ou segurança das mulheres — surge uma mesma desconfiança em relação a instituições consideradas demasiado lentas a escutar, a reagir e a agir. 

Em todos estes casos, a rua torna-se um espaço de contestação quando as vias institucionais parecem já não ser suficientes.

Em França, a contestação estudantil começou no final de setembro, seguindo-se à greve da Função Pública e dos professores que reclamavam mais meios e melhores salários. E alguns dias alastrou-se a cerca de 2000 liceus em todo o país (no pico do movimento) e dezenas de universidades, e levou para as ruas cerca de meio milhão de manifestantes. Aos alunos juntaram os estudantes universitários e os sindicatos, para denunciar a falta de professores, turmas sobrelotadas, o estado de degradação de muitos liceus com tetos a cair, salas insalubres, ratos nas cantinas, mas também a opacidade do sistema Parcoursup. Parcoursup é a plataforma oficial de acesso ao ensino superior. Alunos e estudantes consideram o sistema altamente stressante, violento e opaco, porque funciona como uma lotaria e sem transparência. Milhares de jovens ficam sem qualquer vaga universitária e sem justificações claras para as recusas.

Na Bélgica, também esta semana, inspirados pelos seus colegas franceses, milhares de alunos protestaram em Liège, Bruxelas, Mons, Charleroi, Arlon, entre outras cidades, contra os cortes anunciados na Educação, a falta de docentes, a degradação das escolas e a redução dos apoios. Em Portugal, os estudantes manifestaram-se em março contra o custo da habitação, as propinas universitárias e a insuficiência dos apoios sociais. E em julho contra o caos que foram os exames nacionais, pondo em evidência a falta de investimento na educação em Portugal nos últimos anos, não só pelo governo atual, mas também pelos anteriores.

Educação, pilar essencial da democracia

Todos estes movimentos têm um ponto em comum: denunciam o desinvestimento na educação. Quando os jovens sentem que o seu futuro está comprometido por decisões orçamentais ou administrativas, saem à rua para lembrar que a educação não é um privilégio, mas um elemento essencial da igualdade de oportunidades e da democracia. 

Num momento em que as nossas sociedades observam com preocupação um exumar da extrema-direita e o renascer do fascismo – nos EUA, na Alemanha, em Portugal, na América Latina, e agora também o Brasil enfrenta a possibilidade de a extrema-direita voltar ao poder – é mais do que nunca fundamental apostar na educação dos mais jovens, que são os adultos de amanhã. É a educação que lhes permitirá distinguir a diferença entre partidos do arco republicano e as erupções cutâneas nacionalistas e fascistas que manipulam as massas apenas para chegar ao poder. 

Em França, a mobilização estudantil já ficou manchada por confrontos violentos entre jovens e a polícia. Para piorar, desordeiros infiltraram os protestos estudantis para claramente provocar e atacar violentamente a polícia. Mas estes devem ser distinguidos dos alunos. No entanto, as autoridades endureceram a reação. Mais de seis mil pessoas foram detidas e centenas de manifestantes, alunos e polícias ficaram feridos. Um aluno ficou sem uma mão no norte da França por causa de uma granada da polícia, outro ficou sem parte do rosto, uma aluna foi estrangulada por um polícia em Metz, um outro jovem ficou sem o uso de um olho. Tudo isto agudizou ainda mais o movimento estudantil. 

Esta mobilização estudantil em França levanta uma questão democrática essencial: como manter a ordem sem transformar o direito de manifestar-se num confronto sistemático? A resposta é: Proporcionalidade na resposta policial e não… repressão policial! Os alunos querem estudar com dignidade, em escolas com condições, levantam a voz e pedem para ser ouvidos. Uma contestação, um conflito não são uma agressão. Ora, as autoridades francesas em vez de discutir e negociar, atacam, agridem, ferem, amputam. Isto não é uma guerra, é uma manif estudantil! Muitos pais, professores e muitas outras pessoas juntaram-se também às manifestações dos estudantes para acalmarem a tensão entre jovens e a polícia. O movimento estudantil em França, que começou por ser espontâneo, está a transformar-se num conflito social de enormes proporções que pode mesmo fazer cair o Governo.  

No Luxemburgo, os sindicatos têm o hábito de organizar manifestações e temos sempre quem assegure a segurança e identifique se há infiltrados que tentam destabilizar uma manifestação ordeira. Mesmo quando levantamos a voz e o punho. Para reivindicar, não para arremessar socos ou pedras. A prova que manifestações funcionam é que a grande manifestação de 28 de junho de 2025 no Luxemburgo, que juntou mais de 25 mil pessoas, fez o Governo recuar no que pretendia fazer quanto à idade da reforma, para que não retirasse aos sindicatos a exclusividade de negociar convenções coletivas, e para que não colocasse em questão a indexação automática dos salários (vulgo ‘índex’).

O mais importante é preciso proteger e defender o direito de manifestar, que é um direito que assiste a todos os cidadãos e é outro dos pilares essenciais da democracia.   

E a habitação?

Também a Espanha enfrenta uma onda massiva de manifestações contra a crise da habitação e a especulação imobiliária. Depois de Maricarmen Abascal, uma idosa de 87 anos ser despejada da casa onde viveu durante 70 anos, houve uma vaga de protestos que atingiram uma escala histórica este mês, levando o primeiro-ministro Pedro Sánchez a anunciar 21 medidas urgentes e a antecipar as eleições legislativas para 29 de novembro. A mobilização popular ganhou ainda mais intensidade após o Parlamento espanhol rejeitar dois decretos governamentais destinados a travar os despejos e a regular os alugueres, gerando indignação generalizada que reuniu perto de um milhão de manifestantes nas ruas de Espanha. 

E em Portugal, onde o Governo tomou medidas a favor dos senhorios e contra os inquilinos ninguém manifesta? E, no Luxemburgo, onde a crise da habitação empurra as pessoas para o outro lado da fronteira?

Esta aparente apatia tem duas origens: por um lado, o comodismo da elite, que não se sente afetada pela crise da habitação, e por outro lado, a exaustão dos trabalhadores, já sem energia física e mental para sair às ruas. Mas lutar é sempre preciso. Sempre!

Manifestar contra as agressões sexuais

Todas estas questões e manifestações rimam, de forma diferente, com as mobilizações que tiveram lugar esta semana nos EUA contra as violências sexuais feitas às mulheres. 

Na Universidade de Cornell (Nova Iorque), estudantes protestaram contra a forma como foi gerido em 2024 um caso de violação coletiva de uma estudante por sete rapazes numa república estudantil (residência universitária gerida por estudantes). Um rapaz atraiu a rapariga ao seu quarto, drogou-a e depois chamou os outros, que a violaram durante sete horas. Entretanto, descobriu-se que já faziam isto há algum tempo e não se sabe, para já, quantas vítimas este grupo fez. A indignação veio, sobretudo, quando se soube das sanções ligeiras impostas aos violadores pela reitoria da Universidade e na ausência, na altura, de processos criminais. 

As manifestações de Cornell alastraram-se depressa a muitas outras universidades: Columbia (como Cornell, no estado de Nova Iorque), Yale (Connecticut), Harvard (Massachusetts), Los Angeles (Califórnia) e Austin (Texas).

Um peso, duas medidas

Os estudantes americanos denunciam não só a ausência de verdadeiras consequências para os agressores sexuais, mas também o tratamento mais severo reservado a outros estudantes envolvidos em mobilizações políticas, como a que aconteceu há alguns meses em Cornell em apoio da Palestina, o que resultou na expulsão dos estudantes. 

Sob a pressão do movimento de estudantes e da indignação pública nos media e nas redes sociais, foi reaberta uma investigação criminal a esta violação em grupo, a rapariga apresentou uma queixa formal, foi anunciada uma investigação independente e a república em causa já foi encerrada. Foi pedida também a demissão em bloco dos membros da reitoria.

Neste caso, a indignação estudantil não se centrou no financiamento da universidade, mas na capacidade desta para proteger os estudantes e tratar a violência sexual com a gravidade necessária. As estatísticas revelam que há mais de oito mil queixas de violação por ano nas universidades americanas. Sabendo-se que apenas um pequeno número de raparigas apresenta realmente queixa, isto deixa imaginar um cenário de horror nas universidades de um país onde a cultura da violação é considerada algo de menor importância. Trump – que apesar de ter dezenas de acusações de agressões sexuais e de ter sido condenado por violação, mas que mesmo assim foi eleito Presidente dos EUA – já veio dizer que se solidariza com os rapazes de Cornell. Um violador a defender outros violadores, qual é a surpresa? Começa-se por defender violadores nas universidades e acaba-se a eleger um violador para a Casa Branca. Não há coincidências!

Responsabilidade coletiva

Fazer o paralelo entre as manifestações de estudantes nos EUA contra as violações nas universidades e a manifestação da semana passada no Luxemburgo também contra as agressões sexuais é óbvio: em ambas as situações, homens e mulheres protestam porque consideram que as instituições não respondem de forma adequada a um problema que afeta diretamente os seus direitos.

No Luxemburgo, a manifestação de 2 de outubro contra as agressões sexuais e físicas dirigidas às mulheres expressou o mesmo apelo à proteção. Sob o lema ‘As mulheres devem poder andar na rua sem medo’, os participantes denunciaram as limitações do sistema atual e exigiram mais medidas de prevenção ao Governo luxemburguês. 

A questão não se resume apenas à punição após uma agressão, mas também à educação e à prevenção de todos, rapazes e raparigas, jovens e adultos, antes que uma agressão ocorra.

É aqui que reside a ligação direta entre todas estas manifestações e mobilizações e que decidi tecer como linha vermelha deste meu texto. O Estado, a escola, o país e os pais não podem intervir apenas após as crises. Têm a responsabilidade de educar. Tal como é necessário dar aos jovens os meios para saberem quais são os seus direitos e participarem na democracia – como o direito de manifestar e ser ouvido – é preciso também ensinar desde a mais tenra infância, tanto aos rapazes como às raparigas, o respeito, o consentimento e a igualdade. 

Os rapazes devem ser educados para saberem que as mulheres são pessoas livres e não corpos aos quais têm acesso em livre serviço.

A responsabilidade é coletiva. Quando é cometida uma violação, a condenação não deve vir apenas das vítimas, das mulheres ou das associações: os rapazes e os homens também devem tomar posição e recusar-se a proteger os seus pares através do silêncio ou de uma solidariedade masculina malsã. 

Da mesma forma, face às mobilizações estudantis, o papel das autoridades não deve ser a repressão, mas a escuta e o diálogo.

Estas mobilizações revelam, em última análise, uma mesma exigência:  cidadãs e cidadãos, jovens ou menos jovens, querem ser ouvidos e ser protegidos. Os estudantes exigem meios para construir o seu futuro; as mulheres exigem poder viver e andar na rua sem sofrer violência, a qualquer hora do dia ou da noite, e independentemente de como estejam ou não vestidas. Quem não tem casa, merece ser ouvido e atendido. 

Em todos estes casos, os protestos servem para lembrar às autoridades que a democracia não se resume às eleições. Implica também a possibilidade de os cidadãos se manifestarem, de contestarem as decisões públicas e de exigirem que o Estado garanta real e concretamente os direitos que afirma proteger.

José Luís Correia

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

TÓPICOS

Siga-nos e receba as notícias do BOM DIA