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A história dos portugueses que resistiram ao nazismo em França

O livro “A Sombra dos Heróis”, com dados inéditos sobre a participação de portugueses na Resistência contra a ocupação nazi em território francês, vai ser publicado em França, disse à Lusa José Manuel Barata-Feyo, autor da investigação.

“O livro vai ser traduzido para francês e, tanto quanto eu sei, há mais do que uma editora interessada em traduzir. O que é certo é que o livro vai ser traduzido”, disse à Lusa o jornalista José Manuel Barata-Feyo.

No livro são referidos 253 portugueses que participaram na Resistência, mas atualmente o jornalista refere que o número é quase 300 e não é de excluir que venha a aumentar porque, passados quase dois meses após a primeira edição, o autor foi contactado por algumas dezenas de pessoas com mais informações sobre resistentes que também teriam participado no combate à ocupação nazi, e cujas histórias não foram abordadas nas duas primeiras edições.

A França foi invadida em 1940 tendo o país sido divido numa zona ocupada pelas forças da Alemanha nazi e a outra governada pelo governo colaboracionista do marechal Pétain, com sede em Vichy, tratando-se de um dos períodos mais traumáticos da História francesa contemporânea.

No livro, Barata-Feyo explica que o contributo dos estrangeiros na “Resistência em França” foi escamoteado durante “longas décadas”, e que só começou a ser reconhecido em 2014, setenta anos após o desembarque das forças aliadas na Normandia (06 de junho de 1944).

“Esta posição fazia parte da estratégia política do general De Gaulle, para quem a Resistência tinha pouca relevância numa perspetiva de futuro. Era preciso enterrar a imagem da França colaboracionista e minorar a importância da Resistência na qual tinham participado, proporcionalmente, muito poucos franceses. Numa palavra, era preciso criar e alimentar um grande mito unificador”, sublinha o autor no livro “A Sombra dos Heróis”.

Deste modo, uma das grandes omissões da História foi o papel dos republicanos espanhóis na libertação da cidade de Paris, integrados na 9.ª Companhia da 2.ª Divisão Blindada, comandada pelo general Leclerc, em agosto de 1944, assim como a participação do elevado número de portugueses durante a ocupação, referenciados nos Arquivos Históricos do Ministério da Defesa de França (Service Historique Défence – Chateau de Vincennes – Paris).

“Penso que é uma questão de elementar justiça referir estas mulheres e estes homens que tomaram posições de liberdade face ao nazismo. Não se trata de um número anedótico, trata-se de um número de portugueses que em termos percentuais ultrapassa de longe aquilo que foi a percentagem de franceses que combateram pela libertação da França”, diz Barata-Feyo.

O jornalista sublinha que, sendo Portugal um país neutro durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), estes portugueses podiam ter ficado tranquilamente em França, sem se envolverem no conflito.

Por motivos de solidariedade para com os franceses — no país onde viviam e trabalhavam –, ou por razões de ordem ideológica ou porque anteriormente estiveram envolvidos na Guerra Civil de Espanha (1936-1939), ao lado dos republicanos contra os franquistas, “acharam que era sua obrigação combater contra a pior ditadura do século XX, na Europa Ocidental”.

Segundo Barata-Feyo, estes resistentes nunca foram referidos em parte alguma – e ainda hoje não o são – porque em França nunca trabalharam juntos ou formaram um grupo de acordo com a nacionalidade, e estavam espalhados pelos mais variados grupos de combatentes que atuaram no conjunto do território francês.

“Por outro, nunca ninguém se tinha interessado sobre esta realidade. Deve-se à falta de curiosidade pela História. O meu trabalho como jornalista é contar os factos, mas parece-me que é de elementar justiça também que algo se possa fazer por esses portugueses, até porque se trata de uma situação muito particular”, considera.

José Manuel Barata-Feyo, exilado político em Paris durante a ditadura portuguesa, foi responsável nos anos 1980 pelos programas “Grande Reportagem” — que lançou depois em revista semanal –, “Portugal sem Fim” e “Enviado Especial” da RTP, tendo sido anteriormente correspondente em França da agência noticiosa ANOP e colaborador do jornal Libération.

É autor dos livros “O Grande Embuste” e a Última Missão”.

O livro “A sombra dos Heróis – A História Desconhecida dos Resistentes Portugueses que Lutaram contra o Nazismo” (Clube do Autor, 313 páginas) incluiu fotografias e uma lista dos Resistentes portugueses, a identidade e o local de nascimento, além dos dados que se referem à participação na Resistência.