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Opinião

O Sonho da União

Nos dias que correm, falar da Europa não será o tema mais popular que se possa trazer para a discussão. Na realidade, o que não faltam são dúvidas acerca do seu futuro e que rumo irá tomar. Aos olhos de muitos, a ideologia europeia preconizada por Robert Schuman está longe de se tornar realidade.

Desde logo, a crise financeira importada do outro lado do Atlântico continua a ser um problema em grande parte dos países do lado de cá. Poderão questionar-se os mecanismos utilizados ou a interferência de grandes grupos com interesses obscuros, mas o que é certo, é que no local da explosão, os danos foram controlados mais rapidamente, do que a milhares de quilómetros de distância.

Depois da questão financeira, mais importante ainda, é a questão social. Apesar do desinteresse mediático dos últimos tempos, para quem não saiba os refugiados continuam lá. Aos milhares. E, mesmo que o problema ficasse hoje resolvido, já seria tarde, demasiado tarde quando se trata de pessoas vitimas de um mal para o qual contribuíram tanto como eu ou qualquer um de nós.

Por fim, numa lista que peca por escassa, a questão ideológica das diferenças culturais. Esta continua a ser uma Europa com uma linha invisível que divide os do Norte dos do Sul e, neste caso, ao contrário do que acontece no meu país, o centralismo está lá em cima.

Posto isto, e parafraseando com algumas alterações a introdução mais conhecida da história da Banda Desenhada. “Estamos em 2017 depois de Cristo, e toda a Europa está ocupada pela descrença e interrogação… Toda?! Não! Um país bem lá no centro, povoado por irredutíveis cidadãos, ainda resiste e talvez resista sempre ao invasor”.

Após abandonar a minha experiência de turista na Cidade do Luxemburgo, chegou a altura de me tornar um cidadão deste pequeno país. Uma semana após essa alteração de estatuto, posso dizer que, até agora, talvez devido a ser uma pessoa naturalmente otimista, ainda não tenho algo de realmente negativo a dizer.

Se existe uma palavra capaz de condensar a essência deste país, é a palavra “resumo”. Um resumo daquilo que a Europa devia ser, mas, devido ao que já foi referido, não é. Tal como esse pequeno texto que abrevia o conteúdo de qualquer Obra, também no Luxemburgo se podem encontrar os traços gerais daquilo que faz parte do sonho Europeu.

Desde logo, uma enorme panóplia de culturas. Aqui, no mesmo autocarro, ouve-se francês quando se entra, alemão quando se senta, português durante a viagem e inglês à saída. Não é por acaso que num país com pouco mais de 500 mil pessoas, existam três idiomas oficiais. Porém, mais interessante do que ouvir simplesmente uma língua diferente, é ver crianças, provavelmente filhos de portugueses de segunda ou até terceira geração, a falar a nossa língua com orgulho e sem qualquer tipo de complexo que, evidentemente, nunca teriam de ter, nem aqui, nem em nenhuma parte do mundo.

Aproveitando a referência ao autocarro, a verdade é que ainda não esperei mais de cinco minutos por nenhum transporte público, sendo que os usei todos os dias. Baratos, simples e eficientes. Pode até ter sido uma sorte, mas é algo a que não estou, de todo, habituado. Bem como não estou igualmente familiarizado com uma Universidade inovadora, moderna e que proporciona as melhores condições de estudo e trabalho a alunos e professores. Por cá, o investimento público vê-se, aliás, utiliza-se.

Um dos maiores receios que tinha quando vim para o Luxemburgo, era o elevado nível de vida que, dizia-me o senso comum, iria ser maior que em Portugal. Na verdade, ainda não senti essa diferença em bens essenciais, vulgo, comida, transportes públicos ou utensílios indispensáveis para uma casa. É igualmente de salientar que tudo isto passa-se num país com um sistema financeiro sólido, com um dos maiores PIB per capita do mundo e com um salário mínimo dos mais altos da Europa.

Até ver, mais do que um sonho Europeu, diria que estamos na presença do tão aclamado sonho americano. Mas não, estamos na Europa, bem no centro, num dos países fundadores desta União. Aqui, mais do que palavras, vive-se o conceito pelo qual essa comunidade nasceu. Um país multicultural, social e que, mais do que isso, proporciona oportunidades a quem estiver disposto a trabalhar e a mostrar do que é capaz.

É uma pena que o resumo seja tão melhor que o livro.