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Brasil: adiciona amor, por favor

Querido Brasil,

Faz hoje 5 anos que te conheci, meia década portanto. E que marcador temporal acrescido de responsabilidade é este! E não. Não sou, de todo, a Inês de há cinco anos.

Hoje tenho uma maior perceção das coisas, uma maior capacidade de resolução dos problemas, um sentido muito mais amplo de justiça, perda, ganho e de mundo – também por ti.

Não posso negar que me deste o melhor. Um grupo de amigos com quem partilhei histórias inéditas, inesquecíveis, uma formação académica muito mais completa do que a que eu teria se jamais tivesse saído do lugar que os meus pés confortavelmente pisavam. Deste-me Sebastião Salgado, Hitchcock, Cartier Bresson.

Ainda hoje ecoa nos meus ouvidos a tua música, a tua balada. Na pele o toque da tua areia fina e nas costas o bater da ondulação de Copacabana. A bandeira gay de Ipanema, os beijos apaixonados que se trocavam em qualquer lugar. Porque tu apaixonas Brasil.

Tu tens uma energia contagiante e permites que a impossibilidade se afunde. E eu apaixonei-me e tive de te deixar para trás. E tu não desististe de mim. Foste tu que criaste dentro da Inês a vontade de mais: tirar os pés do chão e voar. Cresci tanto contigo que quase estive para voltar. Mas tu é que regressaste para me ensinar que nada nos pertence. E aí sim: atiraste-me contra o luto, mostraste-me que as memórias, o amor e a amizade vão muito para lá de quem está presencialmente, senão de quem as viveu incondicionalmente. E vi a minha alma companheira partir. E chorei, chorei rios dos teus
mares e aprendi que para se estar junto realmente não é preciso estar-se perto.

E sabes o que me dói profundamente? Ver quem tanto me ensinou, desabar. Desabar como se não houvesse uma base sólida. Como se tu não fosses suficientemente dono de ti mesmo. Ainda hoje ecoa nos meus ouvidos, Brasil: “vem pra rua vem”. E eu fui.

Arriscada a ser deportada por uma manifestação que não era a minha, mas da qual eu já me sentia tão responsável que a tua voz era a minha voz. “Sem violência”. E eles atiravam contra nós: balas de borracha, bombas de gás lacrimogéneo. E nós seguíamos em frente. Por uma subida de 2 ou 3 reais num bilhete de autocarro que simbolizava muito mais do que apenas 2 ou 3 reais. Era uma explosão de acontecimentos, era um esgotamento, a rutura. Tu não queres ser esse Brasil. Tu queres que as pessoas se passeiem na rua, coabitem, gritem em uníssono. Não te cales Brasil.

Há 5 anos uma menina indefesa deixava a sua mãe no aeroporto e partia de coração nas mãos. Com medo. Pintavam-te tão cinzento e eu vivi-te tão colorido. Eu dei-te esse voto de confiança que todos me garantiam vir a ser defraudado – e não foi. Por isso hoje, mais do que nunca, prepara a tua feijoada, o teu samba, a tua caipirinha e junta toda a gente à mesa. Tu não tens medida, tu tens um valor inestimável. Tu és água de coco, és sol, és calçadão. És Tijuca, és homem ou mulher, de mãos dadas, de coração junto.

Deixa que o mundo te conheça, deixa que a vida te surpreenda. Tu não precisas desse ódio, tu não precisas do vermelho garrido do sangue, quando és coberto de céu azul.

Por isso hoje sou eu que te peço: adiciona amor Brasil. Adiciona amor.