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Portugal e os EUA: Um puzzle pessoal das relações luso-americanas

Ao longo dos últimos anos, o acervo bibliográfico dedicado ao fenómeno migratório tem sido profusamente enriquecido com a publicação de um conjunto significativo de obras que contribuem para aprofundar o estudo e ampliar o conhecimento sobre a história da emigração portuguesa e das comunidades que, ao longo de gerações, construíram percursos de vida além-fronteiras.

Um dos exemplos mais recentes da relevância destas publicações para a análise e compreensão da diáspora portuguesa encontra-se na obra Portugal e os EUA: um puzzle pessoal das relações luso-americanas, da autoria de Leonídio Paulo Ferreira, conceituado jornalista português e atual diretor-adjunto do Diário de Notícias.

Voz de referência em Portugal na análise dos conflitos internacionais e da geopolítica, o jornalista e escritor, licenciado em Comunicação Social, mestre em Estudos Americanos e doutorado em História Contemporânea, tem acompanhado de perto a diáspora luso-americana, realizando, ao longo dos últimos anos, extensas reportagens junto das comunidades portuguesas da Nova Inglaterra e da Califórnia.

Para além dos seus editoriais e artigos de opinião no Diário de Notícias e na imprensa de língua portuguesa no mundo, o contacto próximo com a diáspora em geral e com as comunidades portuguesas e luso-americanas nos Estados Unidos em particular levou-o a publicar, em 2019, sob a chancela da Desassossego, o livro Encontros e encontrões de Portugal no mundo. Em jeito de crónica, esta obra percorre a presença portuguesa à escala global, revisitando episódios, figuras e momentos marcantes da nossa história coletiva, entre encontros de culturas e confrontos de interesses, aproximações e desencontros.

Em setembro último, Leonídio Paulo Ferreira voltou a aprofundar esta linha de reflexão, desta vez centrando-se nas relações entre Portugal e os Estados Unidos da América e, muito particularmente, na história e nas vivências da comunidade luso-americana. Composta por mais de 1,3 milhões de pessoas, segundo as estimativas habitualmente referidas, esta comunidade constitui uma importante realidade demográfica, económica e cultural, com uma implantação histórica que se estende de costa a costa. É neste contexto que surge Portugal e os EUA: um puzzle pessoal das relações luso-americanas, uma obra que convida o leitor a descobrir as múltiplas peças de uma ligação transatlântica secular.

Editado no âmbito da coleção de ensaios da Fundação Francisco Manuel dos Santos, o livro revela, desde logo, a relação pessoal do autor com o universo que procura retratar. Na introdução, Leonídio Paulo Ferreira assume-se como um «ávido colecionador de histórias luso-americanas», percorrendo, entre a crónica, o ensaio e a entrevista, um conjunto diversificado de realidades, acontecimentos e figuras que marcaram e continuam a marcar a história da diáspora portuguesa nos Estados Unidos.

Das páginas da obra emerge, desde logo, a figura de um «Cabrilho português» que desembarca na Califórnia, numa evocação de João Rodrigues Cabrilho, navegador ao serviço da Coroa espanhola que, em 1542, alcançou a costa da atual Califórnia e entrou na baía de San Diego. Tradicionalmente identificado pela historiografia portuguesa e luso-americana como português, Cabrilho constitui um dos elos históricos mais emblemáticos entre Portugal e a costa ocidental norte-americana.

A narrativa não se esgota, porém, na revisitação do passado. Leonídio Paulo Ferreira estabelece uma ponte com o presente através de Idalmiro da Rosa, cônsul honorário de Portugal em San Diego, cuja ação contribui para preservar e dinamizar os laços históricos e culturais que unem aquela região a Portugal, nomeadamente através das celebrações anuais da chegada de Cabrilho e das festividades em honra do Divino Espírito Santo.

Mas o olhar do autor vai muito além da evocação histórica. É também um olhar de proximidade, reconhecimento e admiração por aqueles que, através do trabalho, da capacidade empreendedora e do compromisso com as suas comunidades, continuam a projetar Portugal no mundo. É neste registo que surge Manuel Eduardo Vieira, comendador natural da Silveira, na ilha do Pico, nos Açores, cuja trajetória empresarial o tornou uma figura de destaque da agricultura norte-americana, sendo conhecido como o «rei da batata-doce». O seu percurso constitui um exemplo expressivo da capacidade de iniciativa e da afirmação profissional dos emigrantes portugueses que, sem romperem os laços com as suas origens, conquistaram um lugar de relevo nas sociedades de acolhimento.

A obra cruza igualmente o olhar do jornalista com o de Onésimo Teotónio Almeida, académico de reconhecido mérito e uma das figuras incontornáveis do pensamento contemporâneo sobre a portugalidade, a experiência da emigração luso-americana e a construção de identidades transatlânticas. Com mais de meio século de experiência de vida nos Estados Unidos, o intelectual açoriano oferece uma perspetiva particularmente rica sobre os processos de adaptação, pertença e transformação cultural que atravessam as comunidades portuguesas da América.

Acima de tudo, como o próprio autor sublinha, trata-se de um livro «sobre episódios e figuras que me fascinam, também sobre locais que visitei e pessoas que conheci e que, de formas várias, deixaram uma marca portuguesa nos Estados Unidos (até antes de estes nascerem)».

Daniel Bastos

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