De que está à procura ?

Colunistas

Montenegro falou ao país: Uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma

© LUSA

Quando ontem vi que Luís Montenegro tinha anunciado uma conferência de imprensa, também ela, como todas as suas intervenções meticulosamente programadas, esta para as vinte horas e, ainda por cima, sem perguntas, supus que fosse anunciar para aí uma nova República. São assim as suas intervenções, dentro do escopo dos seus serviços de comunicação.

Montenegro, que impõe sempre as suas agendas, marcar uma conferência de imprensa para as vinte horas não poderia ser para deixar de se ver. Como que a não querer abranger os principais telejornais, mas, bem sabendo o horário, a querer que lhe dessem o destaque, não apenas na abertura, mas durante os jornais e depois pelos restantes serviços da noite. Escalpelizassem aquilo tudo. Eu, bem, eu sabia lá o que vinha dali.

Depois, bem… depois foi retórica, do que já sabíamos, mas com mais populismo e a fazer história com os recados e a arqueologia de há mais de quinze anos e, simultaneamente, para os países periféricos.

Curiosamente, até houve no Governo quem destoasse desta conversa. Manuel Castro Almeida, ministro da Economia, havia reconhecido que os portugueses estão a passar dificuldades por causa do preço dos combustíveis e considerou a situação um ponto delicado. Uma afirmação que, convenhamos, não se ouve todos os dias vinda de um membro deste Governo.

Mas essa realidade, que o ministro da Economia reconheceu, foi ultrapassada por Montenegro. No dia seguinte, lá veio o primeiro-ministro com a sua versão dos acontecimentos: a fazer-se condoído, reconhece as dificuldades, o sofrimento das famílias e das empresas, mas, ao mesmo tempo, garante que não troca a política do Governo por outra. Ou seja, reconhece o problema, mas a receita continua a ser a mesma.

Por isso se percebeu melhor o papel de cada um: Castro Almeida reconhece a dificuldade; Montenegro explica-nos porque é que, apesar dela, o Governo está no caminho certo. E assim se faz política: primeiro reconhece-se a realidade e depois trata-se de a ultrapassar com retórica.

Reitero que não consigo encontrar muito engenho nem autoridade em Montenegro. Nunca, por mais que me esforce, o consigo ver como líder, como autossuficiente. Mas o clube de amigos do partido, tipo aquela equipa de futebol de freguesia capitaneada por Hugo Soares, acoplada com os serviços de um ror de assessores pagos por nós, pode fazer esperar tudo.

Então, o que se viu, e porque cuidadosamente agendado, foi mais uma mão cheia de nada e outra de coisa nenhuma, num verdadeiro exercício de campanha governamental. Continua a esforçar-se para não rir, com um bocado de custo, bem se vê, pelas interjeições e trejeitos que ensaia para parecer sério e que está a falar a sério.

Percebe-se que, por ali, o papel principal foi do economista Joaquim Miranda Sarmento, ministro das Finanças, porque Montenegro não se alargou no que prometeu: uma devolução de IRS que dá para cima de um dinheirão e uma série de mais compras mensais.

Para os reformados, já se vê, e eu já o tinha dito, porque não havia eleições agendadas, não ia haver nada para ninguém. Mas como as coisas se proporcionaram e servem simultaneamente para fazer campanha, lá arranjou uns euros que lhe vão valer a satisfação dos beneficiados mais limitados e dos amigos partidários, porque cai sempre bem uma oferta destas, particularmente pelo Natal.

Os que mais têm, os mais poderosos, são sempre os mais beneficiados. As políticas deste partido parecem sempre vocacionadas para quem mais tem e para quem mais pode beneficiar.

Depois, e aqui já nem me vou alongar, os outros… os partidos populistas vêem o seu caminho amainado, aplainado, favorecido e propício para o berreiro, para a desestabilização e para tudo aquilo que, em vez de fortalecer, fragiliza o bom funcionamento da democracia.

Não é por acaso que começam a ultrapassar o próprio partido de Montenegro.

Mário Adão Magalhães
(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

TÓPICOS

Siga-nos e receba as notícias do BOM DIA