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Colunistas

Da angústia da influência

Este andar por aí falsamente descontraído
mascarado naturalmente com um sorriso nada natural
sorriso social transvestido
sempre pregado de orelha a orelha
mesmo por debaixo da máscara antiviral
a necessidade de desenhar o sorriso sem bocejar
sê social! sê social! sê social!

a conversa fácil que entroso com os outros
o porte cheio de urbanidade, a atitude civilizada
o ar de cidadão no lugar certo
o uniforme adequado no cenário correcto
o ar galhardo, o olhar afirmado com que avanço

mas nas tripas a angústia latente que medra
a ansiedade que acabrunha e esbate
o pavor que entorpece e paralisa
o medo que se abate e esmaga

temor de quê, poltrão pusilânime?

de não ser
de ser nada
de ser nada no meio deste tudo tão vazio
de ser nada do meio deste tudo já tão cheio

de não ser legítimo
no que faço, no que digo, no que escrevo
mas, afinal, que alforria espero?
quem me dá a legitimidade que aguardo?
legitimidade, mas segundo a lei de quê, de quem?
quem me outorga reconhecimento?
par inter pares?
a aversão de não ser genuíno, autêntico?
mas verdadeiro em relação a quê, a quem?
de não ser eu em relação a mim mesmo?
que absurdidade abstrusa!
o terror de não ser original, de não ser único
de ser um pálido copy paste
translúcido de tudo o resto?

que barbaridade, poeta
que cometes contra ti mesmo
essa angústia homicida
assim morrerás na alma de anemia
e isso são perguntas de poeta menor!

José Luís Correia
JLC09102020

 

De l’angoisse de l’influence

Ma manière de marcher faussement détendue
naturellement masqué par un sourire qui n’a rien de naturel
sourire social travesti
toujours cloué d’une oreille à l’autre
même sous le masque antiviral
le besoin de dessiner un sourire sans bâiller
sois social ! sois social ! sois social !

la discussion facile que j’entame avec les autres
l’urbanité, l’attitude civilisée
un air de citoyen qui est au bon endroit
l’uniforme approprié au bon scénario
l’air gaillard, le regard affirmé avec lequel j’avance

mais dans les tripes l’angoisse latente qui craint
l’anxiété qui s’estompe sur moi et veut en finir
l’effroi qui m’engourdit et paralyse
la peur qui s’abat sur moi et m’écrase

la trouille de quoi, lâche pusillanime ?

de ne pas être
de n’être rien
de n’être rien au milieu du tout si vide
de n’être rien au milieu du tout déjà si plein

de ne pas être légitime
dans ce que je fais, ce que je dis, ce que j’écris
mais, finalement, à quel affranchissement je m’attends ?
qui me donnera la légitimité que j’attends ?
légitimité, mais selon la loi de quoi, de qui ?
qui m’accorde la reconnaissance ?
par inter pares ?
l’aversion de ne pas être véritable, authentique ?
mais vrai par rapport à quoi, à qui ?
de ne pas être moi par rapport à moi-même ?
quelle absurdité absconse !
l’horreur de ne pas être original, de ne pas être unique
d’être un pâle copier-coller
translucide de tout le reste ?

quelle crauté, poète
tu t’infliges à toi-même
cette angoisse assassine
ainsi tu mourras dans l’âme d’anémie
car cela sont des questions de poète mineur !

José Luís Correia
JLC09102020

 

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