Eu, pronome pessoal da primeira pessoa do singular, mas que representa, contudo, tantos “eus” que é, por isso, imensamente plural: o “eu” que é (só) nosso e que não partilhamos com outros, mesmo com os mais íntimos, porque muito da vida que eu ainda quero viver existe, essencialmente, nos meus sonhos, e a minha meta é ser feliz e não perfeito; contudo, sou muito crítico para com o meu “eu” imperfeito. O “eu” que julgamos ser, de acordo com os nossos valores e referências. Mas sou o que eu vejo, porque somos o que sabemos e o que estamos dispostos a aprender; sei que não sou a melhor pessoa do mundo, mas pelo menos não finjo ser quem não sou. O “eu” que aparentamos ser, tentando esconder o nosso “eu” intimista; o “eu” que queremos ser, visando objetivos individualistas; sigo procurando quem sou e sei que sou o que quero ser, porque sou ser humano e o meu “eu” me permite ser; o “eu” que deveríamos ser, para que o nosso contributo pessoal beneficiasse outros “eus”; o “eu” que os outros querem que sejamos, como que limitando a liberdade do nosso “eu” mais egoísta; o que os outros pensam sobre mim não vai mudar quem sou, porque ninguém tem o direito de me julgar, a não ser eu mesmo; o “eu” pelo qual nos tomam, a partir de certos preconceitos ou de ideias feitas, e que podem mudar o meu conceito sobre o “eu” dos outros que me julgam; o “eu” que nós não conhecemos, porque não sabemos ou não queremos olhar-nos ao espelho, preferindo cultivar um certo narcisismo; afinal, seria tanto o que poderíamos aprender com os outros se tivéssemos a mente aberta a outros “eus”; o “eu” que os outros conhecem e nós não, porque, egocêntricos, tentamos esconder-nos numa carapaça que nem sempre é visível pelos outros.
Contudo, sou o que vejo e sinto e não tento ser o que os outros querem que eu seja; simplesmente, sou o que sou. Mas sou também o meu “eu” da criança que existe dentro de mim, apesar das muitas voltas da vida, de um tempo que já passou e se aproxima do fim; de um tempo, já numa certa longevidade, que deixou rosas, mas também espinhos, alguns que laceraram o corpo e a alma.
Sou o “eu” do presente, o “eu” do depois e de tudo o que já fui antes, mas o que de facto importa é o “eu” que verdadeiramente sou, porque eu sou, para cada pessoa, aquilo que ela acha que eu sou.
Mas este meu “eu”, que para mim é mais importante, é o “eu” que procuro continuamente ser, e isso ainda não sei, nem sei se algum dia saberei quem sou. Sei que aquilo que somos hoje e o que seremos amanhã depende das nossas atitudes; se procedo mal, sofro as consequências, mesmo que apenas no meu “eu” íntimo, e, se procedo bem, o meu “eu” purifica-se, enriquecendo-se e vertendo lágrimas de alegria.
Tenho também um “eu” que nos confunde e, por vezes, nos deixa perdidos neste mundo de tantos “eus”.
Este “eu” que também é dos outros, principalmente daqueles com os quais nos relacionamos e interagimos; este “eu” que incomoda os outros, gerando, por vezes, ciúme, inveja, ódio, raiva e violência; este “eu” inquieto e lutador, neste mundo tão desigual e tão violento, com um “eu” confuso perante o inconfundível e com medo do (im)possível. Mas sou o “eu” de mim mesmo, o dono das minhas ideias; sou este “eu” sofrido, mas corajoso e resistente à dor, buscando no exemplo do sofrimento dos outros a coragem e a resistência, quando as forças parecem já faltar; este “eu” que ama os outros e, sem narcisismo, se ama também a si próprio; um “eu” que se revê na ternura das crianças e na paz dos idosos e da natureza, nas suas diversas formas, mas um “eu” que se revolta perante a onda destruidora em que vivemos. Meu Deus!
Por muito tempo fui tudo o que pude e agora procuro ser tudo o que quero, porque “o valor do ser humano não é medido segundo aquilo que se tem, mas sim segundo aquilo que se é”. Sei que não quero morrer — há muito em contagem decrescente —, mas sim viver, porque sou ainda destino incerto, sou estrada que partilho com os outros, no meu sangue continuado em crianças que ajudei e ajudo a crescer. Sou andarilho, mas não quero esperar até ao final para ser feliz no outro mundo, porque o que quero é ser feliz aqui e agora. Contudo, queria ter um “eu” que me levasse para bem longe desta incerteza, destas guerras e desigualdades, dos egoísmos exacerbados, deste mundo tão agressivo e violento. Mas isso seria no país da utopia, que só existe no nosso imaginário e quando a inquietude nos assalta.
Assim, “EU”, palavra de duas letrinhas apenas, mas de tão profunda complexidade do nosso ser, quer como indivíduo, quer como membro da comunidade em que vivemos. Por isso, são tantos os “eus” que temos dentro de nós que ficamos sem saber verdadeiramente quem somos e sem sabermos lidar com os nossos “eus”. O pensamento é o diálogo da alma consigo mesma e, por isso, dei comigo a pensar: “Eu, quem sou e o que fiz e faço neste mundo?”. Aos outros deixarei o meu “eu” para que o julguem na eternidade.
Serafim Marques
