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Antes de recuperar as casas, é preciso compreender a vida que existe entre elas

© Luís Vieira Cruz / BOM DIA

Uma casa de pedra recuperada. Uma rua empedrada. Uma janela aberta sobre a paisagem.

É fácil imaginar um projeto turístico a partir destas imagens. Mais difícil é perceber o que fará alguém querer permanecer naquele lugar, como será recebido e que relação poderá estabelecer com quem ali vive.

O trabalho de Giancarlo Dall’Ara , responsável pela conceção do modelo italiano albergo diffuso, ajuda-nos a fazer essas perguntas.

A sua relevância para o turismo rural começa precisamente aí: na passagem da recuperação de edifícios para a organização de uma forma de acolher.

Das casas disponíveis às razões para ficar

A origem do albergo diffuso está ligada à Carnia, no nordeste de Itália, e à procura de utilização turística para casas recuperadas após o sismo do Friuli de 1976. A designação surgiu em 1982, num grupo de trabalho no qual Dall’Ara participou como especialista em turismo.

No seu manual, Dall’Ara reconhece uma limitação da ideia inicial: considerava as perspetivas de desenvolvimento do território e as expectativas dos proprietários, mas deixava por compreender as dos potenciais hóspedes.

Esta observação merece atenção de qualquer promotor.

Muitos investimentos turísticos continuam a começar pelo que existe para aproveitar. Uma propriedade herdada. Uma construção devoluta. Um terreno com vista.

São pontos de partida legítimos. A transformação desses recursos num negócio exige, porém, compreender quem poderá valorizar o lugar, em que circunstâncias e através de que proposta de hospitalidade.

Uma casa disponível ainda precisa de encontrar as suas razões para receber.

A vida entre os edifícios

O albergo diffuso articula alojamento distribuído por edifícios existentes, serviços hoteleiros e uma organização comum de acolhimento. A integração numa localidade com uma comunidade residente faz parte dos fundamentos do modelo.

É esta última condição que nos parece especialmente relevante.

A vida de uma aldeia tem ritmos próprios. Há quem abra o café cedo, quem trabalhe a terra, quem mantenha uma oficina, quem cuide de familiares. Há dias de movimento e tardes silenciosas. Há relações de proximidade e espaços de privacidade.

Para um hóspede, a possibilidade de encontrar essa vida pode constituir uma razão para viajar. Para os residentes, ela é o seu quotidiano.

Desenhar hospitalidade neste contexto exige compreender ambas as perspetivas.

O espaço entre as casas passa, assim, a merecer atenção: os caminhos que se percorrem, os serviços que permanecem abertos, os encontros possíveis, a forma como um visitante se orienta e percebe onde é bem-vindo.

Participar exige convite

Uma comunidade é composta por pessoas com vontades, disponibilidades e interesses diferentes.

Algumas quererão receber visitantes. Outras preferirão preservar a sua distância. Um produtor poderá ter interesse em organizar uma visita remunerada, mas não em interromper diariamente o trabalho. Uma associação poderá acolher participantes numa atividade, dentro de condições que ela própria define.

Estas escolhas devem fazer parte do desenho do projeto.

Quem quer participar? Em quê? Com que frequência? Quem organiza, quem assume os custos e quem recebe o rendimento?

Uma parceria começa a ganhar consistência quando estas perguntas têm resposta.

Também o hóspede precisa de liberdade. Poder descobrir o território ao seu ritmo, aceitar um convite ou passar a tarde a ler são possibilidades igualmente legítimas de uma estada.

O sentimento de pertença pode crescer através de encontros simples, consentidos e significativos.

A espontaneidade precisa de organização

Há trabalho de bastidores na tranquilidade de uma boa experiência.

Alguém confirmou os horários. Verificou a disponibilidade do restaurante. Conhece o percurso e as suas dificuldades. Combinou as condições da visita. Sabe quem contactar quando surge um imprevisto. Quanto mais distribuída estiver a oferta, maior será a necessidade de coordenação.

Esta é uma dimensão decisiva da leitura que fazemos do albergo diffuso: a proximidade à vida local precisa de uma operação fiável que a sustente.

A qualidade do acolhimento depende tanto das relações como da capacidade de cumprir o que se promete.

O que fica no lugar?

A recuperação de património tem valor. Para avaliar o contributo territorial de um investimento, precisamos também de observar o que acontece depois da obra.

Que compras são feitas a fornecedores locais? Que trabalho remunerado é criado? Que atividades encontram novos clientes? Que relações continuam para além de uma visita?

Importa igualmente reconhecer possíveis tensões: pressão sobre a habitação, conflitos de utilização, dependência de uma procura sazonal ou sobrecarga de um pequeno número de pessoas. O contributo de cada projeto deve ser demonstrado no seu contexto.

A recuperação de casas e a chegada de hóspedes, por si só, não permitem concluir que uma aldeia ganhou condições duradouras para fixar população.

É necessário acompanhar os efeitos sobre a vida de quem permanece.

Uma lição para quem investe em turismo rural

Na GROUS PARTNERS , encontramos no pensamento de Dall’Ara uma referência para uma pergunta que deve anteceder o projeto de arquitetura: Como poderá este investimento integrar-se na vida do lugar e criar valor para quem recebe e para quem visita?

Responder implica conhecer o território, ouvir os seus agentes, compreender os futuros hóspedes e organizar uma operação economicamente sustentável.

É nesse trabalho que um Programa de Hospitalidade ganha sentido. Define a relação entre espaços, serviços, pessoas e atividades; transforma intenções em condições concretas de funcionamento.

O albergo diffuso merece ser estudado nessa profundidade, com atenção ao contexto em que nasceu e às condições de que depende.

Para quem investe em turismo rural, deixa uma pergunta exigente: Quando recuperamos uma casa para receber visitantes, que condições ajudamos a criar para que aquele continue a ser um lugar onde vale a pena viver?

Frederico Lucas

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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