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A alma do anfitrião

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Há cerca de vinte anos, no Bética Hotel Rural, em Pias, no concelho de Serpa, o proprietário chamou-me para mostrar uma coleção de minerais: não era uma atração turística. Não fazia parte de nenhum programa de atividades. Não estava descrita no site, nem justificava uma tarifa mais alta.

Eram apenas pedras. Pedras que aquele homem tinha encontrado, ao longo dos anos, nos campos em redor da casa. Mostrava-as com entusiasmo, uma a uma, explicando onde as tinha encontrado, aquilo que via nelas e porque as tinha guardado.

No final, disse-me uma frase que nunca esqueci: “Aquilo que diferencia cada alojamento é a alma do anfitrião.”

Na altura, achei a frase bonita, mas hoje percebo que era também uma extraordinária definição de hospitalidade.

Passámos demasiados anos a tentar profissionalizar o turismo através da repetição; os mesmos quartos neutros; as mesmas casas de banho; os mesmos pequenos-almoços: as mesmas piscinas; as mesmas listas de “experiências locais”.

E, pouco a pouco, começámos a confundir qualidade com ausência de personalidade, como se um bom alojamento tivesse de ser suficientemente neutro para agradar a toda a gente.

Talvez seja precisamente o contrário.

Os lugares de que nos lembramos raramente são os mais perfeitos, mas aqueles onde alguém nos mostrou qualquer coisa que não encontraríamos sozinhos; uma pedra; uma receita; um caminho; uma árvore; uma história sobre a aldeia; um banco onde o sol se põe de uma determinada maneira.

A hospitalidade começa muitas vezes aí: quando alguém decide partilhar connosco aquilo que aprendeu a ver naquele lugar.

E é por isso que criar um empreendimento turístico não devia começar por perguntar apenas quantos quartos cabem num edifício, onde colocar a piscina ou qual será a categoria do alojamento.

Talvez devesse começar por uma pergunta muito mais difícil: O que é que este anfitrião tem para mostrar ao mundo?

Não me refiro a transformar proprietários em animadores turísticos, nem a obrigar todas as pessoas a contar histórias aos hóspedes. Refiro-me a algo mais profundo.

Um empreendimento turístico torna-se difícil de copiar quando existe uma ligação verdadeira entre quem o criou e o território onde está inserido.

Essa ligação pode aparecer na arquitetura, na comida, nos objetos, na paisagem, na música, na agricultura, nos livros que estão na sala, ou simplesmente na forma como alguém recebe quem chega.

É isso que dá coerência a um lugar. E talvez também seja isso que lhe dá alma.

Neste verão, quando tantos de nós andamos de hotel em hotel, de restaurante em restaurante e de destino em destino, vale a pena reparar naquilo que permanece na memória.

E sobretudo daquela frase.

Porque talvez aquele anfitrião tivesse razão.

Aquilo que diferencia cada alojamento continua a ser a alma de quem nos acolhe.

Frederico Lucas

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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