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Crise da Habitação: O Luís (Montenegro) afinal estava a trabalhar

© LUSA

Afinal, o Luís Montenegro não esteve desaparecido. Estava a trabalhar. Foi o próprio quem o garantiu, na terça-feira, no debate do Orçamento do Estado para 2027, depois de dez ou onze dias desaparecido, enquanto o país se manifestava contra a crise da habitação e se multiplicavam as acampadas de protesto em Lisboa e no Porto. Ficámos, portanto, esclarecidos. O primeiro-ministro, o Luís, estava a trabalhar. Só não se tinha dado conta de que o país também trabalhava, pagava rendas caríssimas, procurava casa e fazia contas à vida sem conseguir chegar ao fim do mês.

Eu, confesso, pensava que o Luís Montenegro estaria a gozar uns dias de férias. Afinal, no Verão, não tirou férias, conforme anunciou, porque andava a apagar os “fogos” do Governo. Primeiro, os do ministro da Administração Interna, Luís Neves, depois, pelo meio, os do ministro da Educação, Fernando Alexandre, e por fim, os do desgoverno. Agora, com tanto incêndio político para combater, pensei que precisasse de recuperar forças. Mas não. Estava a trabalhar. Em silêncio, é certo, mas a trabalhar.

Entretanto, a crise na habitação não entrou em pausa. Os preços não baixaram, as rendas não esperaram por uma declaração de São Bento e os jovens não descobriram que afinal podiam comprar casa. Levaram o desespero para a rua e montaram tendas, tornando impossível continuar a ignorar aquilo que seria muito mais cómodo discutir em conferências de imprensa, anúncios e promessas para daqui a uns anos.

A acampada incomoda, naturalmente. Ocupa espaço, perturba a rotina e expõe uma realidade que não cabe nas declarações oficiais. Depois vieram as intervenções policiais com feridos e detenções. De regresso ao palco parlamentar, Montenegro elogiou a actuação da PSP, que considerou cuidadosa e equilibrada, defendendo simultaneamente o direito à manifestação. Isto é sonsice. É ofensa aos portugueses. Um desrespeito pela inteligência de cada um de nós.

Em abstracto, tudo parece irrepreensível. A questão é saber se a proporcionalidade invocada por Montenegro resiste ao confronto com as imagens, os testemunhos e os acontecimentos concretos. Isso exige esclarecimentos, não apenas elogios e declarações de princípio.

Os portugueses podem, pois, agradecer ao Governo e à PSP por contribuírem para dar mais visibilidade à luta pela habitação. Se uma crise social se cruza com uma actuação policial que suscita dúvidas e com um discurso governamental que não esclarece os confrontos, as razões para protestar multiplicam-se. Os ânimos não se acalmam por decreto.

Alguém devia explicar ao Governo que as manifestações não nascem do prazer de passar noites ao relento, nem da paixão dos jovens por tendas. Nascem da constatação de que ninguém os escuta enquanto pagam o que mal podem e esperam pelas soluções prometidas. A rua acaba por mostrar os problemas que os gabinetes não resolvem.

Eis a ironia: fala-se em repor a normalidade quando a vida de muitos portugueses está longe de ser normal. Não ter casa, não conseguir pagar uma renda ou viver à beira do incumprimento não perturba suficientemente a tranquilidade pública. Já montar uma tenda numa praça é outra conversa.

O direito à manifestação, tal como o direito à greve e a liberdade de imprensa, tem uma característica desagradável: é incómodo. Perturba agendas, estraga imagens e obriga os responsáveis políticos a responder a perguntas que prefeririam adiar. É precisamente por isso que importa preservá-lo.

O Luís (Montenegro) diz que esteve a trabalhar. Muito bem. Agora, falta que os resultados desse trabalho se façam sentir na vida de quem precisa de casa, em vez de ficarem pelas palavras no Parlamento. Uma coisa é garantir que o Governo trabalha; outra é convencer os portugueses de que esse trabalho resolve os seus problemas.

E, se a intenção era fazer desaparecer a acampada do horizonte político, o resultado pode ser o contrário. As tendas podem ser retiradas, mas a contestação não desaparece com elas. Pode até ganhar maior visibilidade.

Afinal, o incómodo não está nas tendas. Está naquilo que elas mostram.

Mário Adão Magalhães

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico).

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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