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Vizinhos

À Fatinha
Ao Toninho
À Nita, ao marido e aos filhos;
Aos meus irmãos, especialmente à minha madrinha

Num tempo em que os vizinhos não se conhecem, mas não conhecem mesmo – não é eufemismo nem auxese – e não é preciso morarem num médio condomínio, bastam meia dúzia de alojamentos e já ninguém se conhece, se não cumprimenta. Usam o mesmo ascensor cara-a-cara e não se troca um olhar mais simples, o mais simplícissimo que seja. Mas há, ainda, aqui ou ali – e não é exclusivo de vizinhos de prédios vizinhos, vizinhos à moda antiga.

Eu tenho uns.

Eles sabem que são, pese eu ter muitos vizinhos, que, em abstracto, não tenho razão para queixa. Mas, estes… Ah estes!!!…

Eu penso que os vizinhos até nem têm que se ser boas pessoas – o que não é o caso, mas é o carácter. O interior. A cabeça. A cinzentinha massa encefálica, o carácter que não é muito fácil de definir, não tenho muito vocabulário para tal. Mas também não é isso que me interessa.

Passei a dizer, em tempo, que quando os encómios são superlativos, a palavra, o verbo cala.
Mas aqui nem esta minha expressão traduz o que são os meus vizinhos.

Os meus vizinhos. Não há.

Dizemos que à família não a escolhemos, mas aos amigos, aos vizinhos, os escolhemos! Em rigor até nem é. Mas que fosse.

Estes vizinhos, que eu devia designar de modo mais erudito, mais consentâneo com o que venho dizendo, são muuuiiitttooo mais que irmãos. Que os meus irmãos. A quem não estou a arguir, a ser deselegante, a ser delator.

Até porque teria que falar que cada um tem o seu feitio. Os meus familiares não são, nunca foram e, nunca serão maus, quer para mim, quer aos meus olhos. São exacta ou rigorosamente modos de ser. Que não tem que ser genético, congénito ou o que quer que queiramos. São estilos. Momentos. E os momentos podem ser grandes. Ir daqui, de hoje, até ao fim da vida, o fim do mundo

Nunca um pai pobre de um filho, a quem falta tudo – eu disse tudo, porque pode faltar tudo pese eu não ser absolutista. Para mim, genericamente, se me perguntarem: – está tudo bem? Eu posso estar nos píncaros dos firmamentos, bem ao lado do Pai. Nunca estará tudo, tudo bem.

Eu poderia dar aqui um ror de exemplos. Qualquer deles não teria plenitude. Posso tentar – e não consigo – ser o mais erudito, o mais eloquente, o mais fecundo que não direi a plenitude de tudo, o máximo que quero dizer.

Tenho para mim – conceitos meus – que poderia aqui enunciar, elencar. Nunca faria o pleno.

Os meus vizinhos são-no. Estão no cume, na cordilheira de cordilheiras das alturas dos pináculos. Eles estão-no. Estão lá.

E, sempre, comigo.

E, pese a rima, que popularmente se diz ser verdade quando rima,
estão lá.

E, sempre, comigo.

Mas mais não digo.

Mário Adão Magalhães,  019/09/07

(Não pratico deliberadamente o chamado Acordo Ortográfico)