
Metade dos países europeus têm cerca de 70% da sua população totalmente vacinada, ao passo que a outra metade tem níveis manifestamente inferiores.
Com quase três quartos da população adulta vacinada contra a covid-19, a União Europeia é o bloco líder a nível mundial no que respeita a inoculações. No entanto, esta classificação esconde uma realidade algo desconfortável: a administração de vacinas tem acontecido de forma desigual entre os diferentes países da União.
Países como Portugal, Malta ou a Irlanda já atingiram praticamente o patamar da vacinação integral, de acordo com o Centro Europeu de Controlo de Doenças. No espectro oposto, a Roménia e a Bulgária vacinaram apenas 33% e 22% dos seus adultos, respetivamente.
O problema não está, como se poderia pensar, no número de vacinas disponíveis, já que todos os estados-membro da União Europeia dispõem de acesso às doses compradas e aprovadas pela pelo Executivo comunitário – Pfizer/BioNTech, Moderna, AstraZeneca e Johnson & Johnson, para além de estarem autorizados a adquirir outras vacinas de forma independente. Foi o caso da Hungria, que adquiriu doses da vacina russa Sputnik para administrar à sua população.
“Eles têm vacinas. Qualquer pessoa que queira ser vacinada pode sê-lo”, explicou Ivan Krastev, um cientista política búlgaro e integrante do Conselho Europeu na área das Relações Internacionais. No entanto, explica, a Bulgária está com dificuldades em combater o elevado grau de hesitação da população em relação à toma da vacina, que é potenciado pela instabilidade política, pelas teorias da conspiração e falta de confiança nas autoridades.
“Há um grande nível de desconfiança, que se aplica tanto à Bulgária como à Roménia”, explicou o responsável. “Até a comunidade médica — médicos e enfermeiros — estão hesitantes em vacinar-se, por isso não é uma surpresa que a sociedade, como um todo, também esteja”, acrescentou. Tanto a Roménia como a Bulgária têm registado picos de infeções da SARS-CoV-2 desde o início de Setembro. Na última semana, a Roménia reportou mais de 45 mil novos casos e mais de 800 mortes — números que estão ao nível do pico da segunda vaga registada no país em abril.
No entanto, e tal como lembra a CNN, o problema da baixa adesão das populações à vacinação contra a covid-19 não é exclusiva da Bulgária e da Roménia. O bloco europeu está, na realidade, dividido em dois. Uma das partes, sobretudo os países do lado oeste, tem a sua população vacinada quase na totalidade, ao passo que a outra, a dos países de este, tem baixas taxas de vacinação e altos níveis de desconfiança em relação às doses. A divisão ocorre onde há décadas se erguia a famosa cortina de ferro.
Dos 27 países que integram a União Europeia, os primeiros 15 da tabela de vacinação localizam-se no que anteriormente era o bloco oeste, enquanto os últimos dez são todos países que integraram a União Soviética. As exceções são a Lituânia e a Grécia, nos 16.º e 17.º lugares, respetivamente. De todos os países de oeste, a Grécia é, de facto, o único que ainda não alcançou a meta de 70% da população completamente vacinada. Nenhuma das nações de este lá chegaram.
Para Ivan Krastev, a forma como a pandemia afetou os diferentes países pode estar a ter impacto no processo de vacinação e nos ritmos a que estes decorem. “Países que foram mais atingidos pela primeira vaga, em 2020, quando o choque foi maior, por exemplo Itália ou Espanha, têm mais sucesso com a vacinação do que outros países que foram atingidos apenas na segunda vaga”, explicou.
Anna Nicinska, professora na Faculdade de Ciências Económicas da Universidade de Varsóvia, estudou, ao longo do seu percurso, as razões por trás da hesitação em torno das vacinas, pelo que não tem dúvidas em afirmar que a história tem um papel determinante no processo das pessoas decidirem se devem ou não vacinar-se. Juntamente com a sua equipa, Nicinska analisaram dados relacionados com a confiança das populações de cem países nos sistemas de saúde e nas autoridades sanitárias.
Uma das conclusões a que chegaram é que a a desconfiança é muito maior nos países que fizeram parte do sistema soviético. Por outras palavras, pessoas com experiência em ser enganadas pelos próprios governos têm mais dificuldade em acreditar nas autoridades e instituições oficiais, mesmo após vários anos depois do sistema mudar, explicou a investigadora.
“As pessoas expostas ao comunismo soviético confiam menos em outras pessoas, nos governos e nos sistemas de saúde também. A experiência incute desconfiança no domínio público e formal“, afirmou à CNN. A investigadora considera que este é um dos motivos pelos quais a exigência de provas de vacinação podem não resultar em taxas de vacinação mais elevadas em alguns países.
“A decisão de uma pessoa se basear ou não baseia-se em confiança e torná-la obrigatória deverá ser contraproducente. É preciso lembrar que em muitos países há um histórico de resistência em relação ao estado, por isso as pessoas arranjariam sempre uma forma de fugirem à vacinação ‘obrigatória’.”
As baixas taxas da vacinação em alguns países são um problema que a Comissão Europeia já reconheceu e considerou um problema. “Enquanto o vírus não for derrotado em todos os estados-membros, ele não foi derrotado“, disse um porta-voz da Comissão à CNN. O organismo afirmou que os países que estão com dificuldades em aumentar a vacinação devem focar-se em realizar campanhas direcionadas especificamente para aqueles que estão hesitantes e reforçar a importância e autoridade da ciência.