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Os números de Portugal

Gostaria, obviamente, de poder dizer o contrário, mas o desempenho de Portugal no que respeita à epidemia de covid-19 está longe de ser bom. À data em que escrevo, o total acumulado de infetados — ou seja, o número de pessoas que estão ainda doentes somado ao das que já se curaram e ao das que faleceram —  ultrapassou os 31 milhares (cifra-se, mais exatamente, em 31.292). Morreram, até hoje, 1.356 pacientes.

Em comparação com a situação assustadora em países de alguma forma próximos, como a vizinha Espanha, a Itália, o Reino Unido, a Rússia, a França, a Alemanha, o Brasil, os Estados Unidos e mesmo a Bélgica ou a Holanda, aqueles valores parecem, proporcionalmente, favoráveis. Mas há outros cotejos que podem — e devem — ser feitos com países de população idêntica à de Portugal (entre 9 e 11 milhões de habitantes).

Grécia: total acumulado de 2.903 casos, com 173 mortes (respetivamente, dez e quase oito vezes menos do que Portugal).

Hungria: 3.793 casos e 505 mortes (respetivamente, oito e quase três vezes menos do que Portugal).

Áustria: 16.496 e 643 (pouco mais e pouco menos de metade, respetivamente).

República Checa: 9.050 e 317 (menos de um terço e menos de um quarto).

Israel: 16.771 e 281 (pouco mais de metade e pouco mais de um quinto).

Noruega: 8.383 e 236 (números quase quatro vezes e quase seis vezes inferiores aos de Portugal). Mesmo tendo em conta que a população norueguesa é cerca de metade da portuguesa, a situação da Noruega é bem mais favorável do que a de Portugal.

Finlândia: 6.692 e 313 (números mais de quatro vezes e meia e mais de quatro vezes inferiores aos de Portugal). Mesmo tendo em conta que a população finlandesa é cerca de metade da portuguesa, a Finlândia apresenta um quadro bem mais favorável do que Portugal.

A Polónia tem 22.303 casos confirmados e 1.025 óbitos, o que significa, respetivamente, cerca de 71% e de 75% dos correspondentes valores em Portugal. Considerando, ademais, que a população polaca é quase o quádruplo da portuguesa (38.386.000 habitantes contra 10.276.617), conclui-se que, em termos proporcionais, a situação da Polónia é muito mais favorável.

Se atendermos aos países mais desenvolvidos da Ásia, o contraste é igualmente flagrante:

Japão: 16.662 casos confirmados e 862 óbitos, o que significa, respetivamente, pouco mais de metade e cerca de 64% dos correspondentes valores em Portugal. A população japonesa é de 126.150.000 habitantes (mais de doze vezes os 10.276.617 de Portugal). Portanto, há no Japão 132 casos por milhão de habitantes, contra 3.045 em Portugal; e 6,8 óbitos por milhão de habitantes, contra praticamente 132 em Portugal.

Coreia do Sul: 11.265 casos confirmados e 269 óbitos, o que significa, respetivamente, pouco mais de um terço e menos de um quinto dos correspondentes valores em Portugal. A população sul-coreana é de 51.709.098 habitantes (o quíntuplo dos 10.276.617 de Portugal). Portanto, há na Coreia do Sul 218 casos por milhão de habitantes, contra os 3.045 de Portugal; e pouco mais de 5 óbitos por milhão de habitantes, contra os 132 de Portugal.

Taiwan (ou, se se preferir, Formosa): 441 casos confirmados e 7 (sim, sete!) óbitos, o que significa, respetivamente, quase setenta e uma vezes menos e quase cento e noventa e quatro vezes menos do que os correspondentes valores em Portugal. A população taiwanesa é de 23.780.452 habitantes (mais do dobro dos 10.276.617 de Portugal). Portanto, há na Formosa menos de 19 casos por milhão de habitantes, contra os 3.045 de Portugal; e pouco mais de 5 óbitos por milhão de habitantes, contra os 132 de Portugal.

Honguecongue (ou, se se preferir, Hong-Kong): 1.066 casos confirmados e 4 (sim, quatro!) óbitos, o que significa, respetivamente, quase trinta vezes menos e quase cento e quarenta vezes menos do que os correspondentes valores em Portugal. A população de Honguecongue é de 7.482.500 habitantes (um pouco menos do que os 10.276.617 de Portugal). Portanto, há em Honguecongue menos de 143 casos por milhão de habitantes, contra os 3.045 de Portugal; e 0,53 óbitos por milhão de habitantes, contra os 132 de Portugal.

Conclui-se que, se em termos absolutos a situação do Japão, da Coreia do Sul, da Formosa ou de Honguecongue nada tem a ver com a de Portugal, o contraste em termos proporcionais é ainda mais gritante.

Na Ásia desenvolvida, o único país com que Portugal se compara menos desfavoravelmente é Singapura… mas só quanto a casos confirmados: 32.876. Dado que a população de Singapura é de 5.638.700 habitantes (cerca de metade dos 10.276.617 de Portugal), esta cidade-Estado está nitidamente em desvantagem no que respeita a este parâmetro (5.830 casos por milhão de habitantes, contra os 3.045 de Portugal). Já em relação à taxa de mortalidade, Singapura, com um total acumulado de 23 óbitos (ou seja, pouco mais de 4 por milhão de habitantes), está muito melhor, incomparavelmente melhor, do que Portugal (132 óbitos por milhão de habitantes).

Entre nós, talvez o mais auspicioso seja a subida paulatina do número de recuperados, hoje claramente acima dos 18 milhares (mais propriamente, 18.349), o que representa bem mais de metade dos infetados desde o começo da epidemia. Mais: durante bastante tempo, morreram mais pessoas do que as que se curavam, até que, sensivelmente na terceira semana de abril, se deu a viragem. E, desde então, o número de doentes recuperados não parou de subir, representando agora quase catorze vezes o de falecidos.

Importa deixar bem claro que não aponto estes factos com um intuito derrotista. Para mim, acima do apoio ou da reprovação a quem nos governa, está o interesse do país. Mas parece-me ilusória (e até perigosa) uma falsa euforia que há algum tempo muito se deteta. Só por ignorância (ou desonestidade; o efeito é o mesmo) se pode ter chegado a falar em «milagre» português. Incensa-se um primeiro-ministro que se revela hábil a fazer passar reveses por feitos positivos. José Miguel Júdice, em tempos tão crítico de António Costa, afirmou há dias, numa cadeia de televisão, que os portugueses «adoram» a dupla formada por Marcelo Rebelo de Sousa e António Costa. Ora, se é certo que, em tempo de tragédia, é sobremaneira necessária a união e a cooperação, não menos certo é que o unanimismo e o embandeirar em arco apresentam sérios inconvenientes. António Costa tem escapado incólume a muitos desaires da sua governação, desde o deplorável incidente da Caixa Geral de Depósitos, passando pelo terceiromundista roubo de armas no paiol de Tancos e pela calamidade dos incêndios florestais. Os encomiastas de António Costa conseguem sempre que não o belisquem argoladas suscetíveis de queimar irreversivelmente outros políticos, como aquela de dizer que 2017 tinha sido «um ano particularmente saboroso para os portugueses» (2017 foi, precisamente, o ano do roubo de Tancos e dos mais mortíferos incêndios florestais jamais registados em Portugal). Há sempre um ministro ou um secretário de Estado que amortecem os ricochetes.

 

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