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O pranto de Gustavo Esteves

doutor, faz dois anos que não durmo,
não sei já mais o que é ter
os olhos fechados sem pensar nela,
os soníferos que me prescreveu
causam-me agitadas insónias
e os barbitúricos desterraram-me
sempre para as estepes do desassossego

tenho andado a beber muito, doutor, muito,
mas o álcool tem encontrado cada vez mais dificuldades em embebedar-me;
creio que vai também deixar-me

doutor, não consigo confiar
em nenhum ser, nenhum,
e desconfio de todos os poemas líricos;
os casais apaixonados causam-me enjoos e vertigens, abalam-me todos os firmamentos

certos odores provocam-me
vigorosas faltas de ar;
a baunilha, por exemplo; e a alfazema;
acho que o perfume dela tinha baunilha

e alfazema

e a música, doutor?
gostava tanto de música
e agora a música enfurece-me

é tão difícil viver sem música

doutor, talvez não acredite,
mas o meu coração é o maior armazém da dor,
nem eu mesmo tenho
a exacta noção da colossal dimensão;
todos os dias conheço novas secções,
novos compartimentos, novos anexos,
um imensurável inferno dentro do meu corpo

o doutor não imagina os metros
de corda que sinto apertarem-me incessantemente a garganta,
não imagina a quantidade
de flores mortas no meu estômago

alimento-me mal, a minha casa
é o espelho desta infecção

há mais de um mês que não tomo banho

se quer saber, nem sei o que faço aqui
no seu consultório

doutor, esta semana já tentei
matar-me duzentas vezes;
duzentas vezes me seguraram as mãos
da minha falecida mãe

doutor, dê-me qualquer coisa
para arrumar este luto,
dê-me qualquer coisa para chorar
as lágrimas que trago
a naufragar nas profundezas do sangue,
dê-me, doutor, por amor de Deus,
qualquer coisa para esquecer aquela mulher

dm