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O pintor, Paris e o contentor do lixo

Jovem e sonhador continuava firme no seu propósito de ser pintor. Ainda na Primária, situada numa bela mas longínqua aldeia onde, naquele tempo, quando um automóvel calhava de passar na única e poeirenta estrada existente, era um acontecimento, já o Gaudêncio era admirado pelo seu talento. Sobretudo quando riscava uma caricatura ou passava para o papel uma das belas paisagens que de Santa Maria de Freigil, freguesia de Resende, se observam do alto da serra de Montemuro até ao rio Cabrum, com as suas águas cristalinas e rebeldes, a deslizar por entre fragas polidas pelo passar dos séculos. Chegou mesmo a conquistar um prémio, desenhando o nosso poeta Camões.

Gaudêncio nasceu e cresceu, podemos dizê-lo, à sombra do Penedo de S. João. A sua rústica e granítica habitação localizava-se um pouco abaixo, na encosta sobranceira a Caldas de Aregos, perto de Arguinhos, onde era muito estimado.

Mas a vida era dura e os pais não dispunham de meios financeiros para que pudesse continuar os estudos, acabando por seguir o destino de outros rapazes da aldeia, sendo enviado para casa de uns parentes do Porto, que lhe deram guarida a troco de serviços de merceeiro.

— O rapaz vai longe, sentenciou o familiar.

De facto, Gaudy (nome com que viria a assinar os seus trabalhos artísticos…) era aplicado, sempre atento ao negócio do senhor Gervásio. Mas a sua alma continuava a vaguear num mundo sem fronteiras, multicolor, de águas revoltas cercadas de vegetação e pássaros de mil cores, esvoaçando livres, em todas as direções.

Assim foi crescendo. Com algum dinheiro conseguiu comprar tintas, guaches, pinceis, papel cavalinho e iniciou os seus trabalhos artísticos, que foi guardando ciosamente numa gaveta.

Mais tarde adquiriu livros sobre pintura, visitou museus, admirou obras dos grandes mestres.

Ciente de que poderia finalmente iniciar vida nova, instalou-se num quarto modesto e acanhado na Rua do Almada, tendo como local de trabalho toda a cidade, o rio e o mar…

Na cidade grande passou a expor os seus trabalhos, vendas que mal davam para comer. Retratou a cidade de vários ângulos, o rio, a Ribeira, o casario… Expos à entrada dos mercados, nos espaços públicos, mas nunca conseguiu amealhar o suficiente para concretizar o seu objetivo principal — Paris, a Cidade-Luz.

E assim foi guardando no fundo do velho gavetão as suas pinturas, sempre na esperança de melhores dias.

E esse dia chegou, finalmente, quando um homem elegante, de cabelos grisalhos soltos ao vento, olhar atento e perspicaz, lhe comprou, ali mesmo, na Ribeira, as aguarelas expostas, que retratavam o rio e a ponte D. Luiz, vistos dos Guindais.

Porém, cansado de tantos anos de luta e de privações, o nosso herói adoeceu.

Nas longas e frias noites do seu desconfortável quarto, nas suas alucinações ouvia, com perfeita nítidez, o pai, na sua voz forte de homem habituado à rudeza do trabalho, a avisar:

Gaudêncio, olha as vacas que vão ao milho!

E recordava, com tristeza e saudade os seus belos tempos de criança. Os tempos em que foi feliz e sonhador.

Dona Aurora, senhora simpática e prestável, mas de débil instrução, estranhou o longo silêncio do seu hóspede e foi bater à porta do quarto. Ao deparar com o pintor morto, apressou-se a chamar as autoridades.

— Coitado, já nada se pode fazer… E tratou de limpar o quarto, que já tinha um interessado.

Dias depois, um senhor distinto, de cabelos grisalhos soltos ao vento e olhar atento e perspicaz, procurou a dona Aurora e disse:

— Venho adquirir todos trabalhos do pintor Gaudy. Trata-se de um artista excecional! Pago o que for preciso por eles.

Entretanto, já a diligente dona Aurora tinha metido «toda aquela macacada» no contentor do lixo…