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Moita Flores: Português é o maior ativo que Portugal deu à Humanidade

Antecipando a participação de Francisco Moita Flores no 19º Salão do Livro do Luxemburgo, que terá lugar no fim de semana de 2 e 3 março, conversámos com o autor para conhecer melhor o seu último livro e as motivações que o levaram, mais uma vez, a focar a sua obra num período crítico da história de Portugal.

A sua visita ao Luxemburgo coincide com o lançamento do policial “O Mistério do Caso de Campolide”. O que se passou em Campolide em 1937 que mereça um livro?

O título do romance remete para a evocação da novela jornalística que, ao logo do séc. XIX e boa parte do séc. XX, em rodapé, era publica nos grandes jornais da época. Reinaldo Ferreira, o célebre Repórter X a quem dedico o romance, publicou no Diário de Notícias várias destas ficções, havendo uma, ‘O Crime da Rua Saraiva de Carvalho’ que sobressaltou o povo de Lisboa a tal ponto que a direção do jornal se viu obrigada a explicar que se tratava de uma ficção e não de um caso real. Escolhi o ano de 1937 porque é um momento importante de consolidação do Estado Novo e, aqui  ao lado, em Espanha, havia a guerra civil. Quis dar os ambientes da época de uma Lisboa que emergia para se transformar na grande metrópole que é hoje.

Após 35 anos de escrita publicou finalmente o seu primeiro policial. Era um projeto antigo? Sente que de alguma forma é um género mais complexo de escrever?

Muitos dos meus leitores, devido à minha profissão, ao longo de anos foram-me interpelando querendo saber quando escrevia um romance policial. Não era propriamente uma ambição ou um projeto adiado. Há três ou quatro anos começou a nascer a ideia e, por fim, resolvi estudar a técnica do romance policial e surgiu “O Mistério do Caso de Campolide”.

Este é mais um livro que se foca sobre um período muito específico da História de Portugal. Assume essa missão de despertar curiosidade sobre a história de Portugal?

Não é exatamente uma missão. Tenho vários romances que decorrem na atualidade. Mas gosto de mergulhar na História, encontrar sinais invisíveis que escapam ao ensino e aos programas curriculares e dar-lhe visibilidade. Não tenho a obsessão do romance histórico. Apenas gostos de boas histórias e de bons contextos que podem dar força à narrativa. Escrevi A Fúria das Vinhas porque descobri, por acaso, a D. Antónia Ferreira, a Ferreirinha, e o Douro é um dos meus amores. Era pouco conhecida a grande obra desta mulher. Escrevi o Dia dos Milagres como protesto contra o fim do feriado de 1 de Dezembro. A História não deu conta, e os homens também não, que se não fosse 1640, a nossa língua era do tamanho da língua catalã ou da basca. Hoje somos 250 milhões a viver, a amar, a pensar e a falar em português. O maior ativo que Portugal deu à Humanidade. Escrevi Mataram o Sidónio! porque me fascina a personagem, envolta em mitos, preconceitos e controvérsia, que foi presidente num tempo cinzento onde o país viveu esmagado com a epidemia da pneumónica e com o esforço para a Grande Guerra.

Com uma população no Luxemburgo estimada em mais de 100.000 portugueses, muitos dos quais já de segunda geração, como é possível estimular nesta comunidade o interesse pela língua e pela história de Portugal?

Falar e escrever em português significa pertencer a uma imensa Pátria, como lhe chamou Fernando Pessoa, que é a nossa língua. A mais falada no hemisfério sul, a quinta maior do mundo, a terceira que se reparte por todos os fusos horários da Terra. As palavras não valem por si. São, sobretudo, a expressão material das nossas emoções, da nossa identidade, do nosso olhar sobre o mundo na comunicação com os outros. Nós somos as nossas palavras e as nossas palavras somos nós. Escrever e falar em português é um privilégio que se constrói nas escola, no convívio, no trabalho. Somos bem mais ricos do que os alemães, embora tenhamos menos euros. Do que os franceses, do que os italianos, do que os povos nórdicos. Pertencemos a uma imensa família espalhada por todo o planeta.

Já conhece o Luxemburgo? Tem alguma expectativa sobre o tipo de público que virá assistir à sua apresentação no Salão do Livro?

Já estive várias vezes no Luxemburgo. É uma cidade que ‘sabe’ a português. Muito bonita. Espero encontrar-me com a minha gente, a nossa gente, para falar sobre este Portugal que, mesmo longe das fronteiras geográficas, continua a falar português e termos uma conversa divertida.

Francisco Moita Flores estará ao Luxemburgo a convite da associação PESSOA asbl. No dia 2 de março às 14 horas o autor apresentará o seu último livro e participará numa conversa pública com José Luís Correia no contexto do 19º Salão do Livro do Luxemburgo organizado pelo CLAE na LuxExpo.

Mais informações aqui

(Entrevista conduzida por Luís Galveias)