De que está à procura ?

luxemburgo
Lisboa
Porto
Luxemburgo, Luxemburgo
Colunistas

João, as palavras bonitas são para ti

Nunca Vos escrevi sobre o amor porque não tenho por hábito escrever sobre aquilo que não conheço nem domino. Contudo, de há 365 dias para cá, tive a possibilidade de entrar nesse mundo bom, ainda que complexo, e receber a boa energia de que tantos falavam, mas tão poucos compreendiam.

Sempre comprei bilhetes de avião para fugir de alguma coisa: da rotina, de uma história menos feliz, de um caminho que teimei não ser o meu… E foi há cerca de um ano que entrei num avião – um pouco contrariada, confesso, já que a Ásia era o meu sonho-projecto e os Estados Unidos da América a missão atribuída –, convencida de que aquele bilhete de ida e volta se cingiria a mais uma experiência profissional e cultural enriquecedora.

Não estava assim tão enganada. Todavia, agrafado a esse bilhete com destino a Washington DC, vinha um outro – de comboio, barco, ou qualquer outro tipo de transporte que queiram imaginar –, que me levaria a uma aventura daquelas boas, que não queremos que termine. Recebi um bilhete duplo para a melhor viagem de mochila às costas da minha vida. Uma daquelas viagens nas quais caminhar descalço não magoa, porque a paisagem é tão bonita que o chão se transforma em algodão. Uma daquelas viagens no Expresso do Oriente dos meus sonhos, na qual sempre soube que haveria mais e mais a contemplar pela janela. Uma daquelas viagens que nos transporta para os momentos mais felizes das nossas vidas (os vividos e os ainda por viver), que nos renasce o fôlego e nos faz crer que dar a volta ao Mundo é uma questão de segundos. E sim, essa viagem tem um nome e um destino: João, o meu João.

E eu que sempre adorei aprender palavras em novos idiomas, perder-me nas ruas mais enigmáticas e coloridas, saborear a solidão (que não tem de espelhar esse lado tão negativo que o ser humano lhe associa), deixar por terminar os pratos típicos locais por estes serem demasiado grandes para um estomago só, descobri com o João que não há nada mais bonito do que falar a mesma língua, contemplar a duas perspetivas a mesma cor. Ser um, sendo dois.

Tenho as bochechas coradas, garanto-Vos. Sempre evitei dizer as palavras bonitas porque achava que isso era coisa de poetas e só estes eram demasiado grandes e sensíveis para saber do que falavam. Para ser sincera, nunca as disse porque não sabia o peso e o valor que representavam. Mas percebo agora que essas palavras não são só coisa de escritor. Essas palavras são coisa de quem está vivo, de quem vive sofregamente e quer viver mais e mais – de quem desacelera os ponteiros do relógio porque o tempo é demasiado precioso para que o autorizemos a passar rápido. São coisa de quem descobriu essa ciência magna que é amar. E do pouco que sei conto-vos que é o melhor do mundo – porque se tem a melhor pessoa do mundo. E que seja sempre pouco o meu saber, para que eu possa sentir que tenho ainda muito pela frente para aprender. Do meu destino. Do meu João.

Na ciência magna de amar também há dias em que chega o flagelo, o receio da perda, da rendição, da falha. Como em qualquer viagem, sabem? Como quando nos perdemos, porque apanhamos o autocarro errado. A cidade não deixa de ser nossa, só não sabemos lidar com todos os seus desafios e ainda não aprendemos a pronunciar aquela palavra que pode mudar o rumo do nosso regresso a casa. Mas chegamos lá: questionamos, mais que não seja por gestos. E é nesses dias que devemos dar as mãos, encostar a cabeça no ombro do nosso companheiro e perceber que não há dias maus que não compensem 365 dias de horas boas.

Contigo João partilho o que ainda está para vir, assim como as histórias, as conversas noite dentro, as viagens, a falta de pontualidade, a extrema intolerância ao calor – nada que um “chafariz” de rua não possa resolver. Prometo-te o frio, não te voltar a envergonhar em museus, saber identificar a lima no vinho e ocupar o teu espaço – ai o teu lado é sempre tão mais confortável que o meu! Prometo-te desnortear-nos, obrigar-te a ir à praia, passear-nos em multidões, ganhar-te no desafio das nacionalidades – sim, serei sempre irremediavelmente melhor que tu neste Trivial Pursuit de bolso por nós improvisado.

E quanto às palavras bonitas. Ai as palavras bonitas… Essas são todas para ti.