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Ignez Baptistella: o voo da maturidade

Perto dos 50 anos, uma fazendeira do interior de São Paulo, com a vida aparentemente estável e bem resolvida, rompe com um casamento de 27 anos, que lhe trouxera seis filhos e parte para desbravar o mundo, não hesitando, embora nascida numa família abastada, em ganhar a vida como babá e cozinheira, na Europa, onde permanece por uma década. É este, em linhas gerais, o eixo de Voo livre, primeiro livro de Ignez Baptistella, que a fez nacionalmente conhecida e referência para muitas mulheres que se enxergam em sua corajosa saga por liberdade.

Por que escrever um livro de memórias? Ao escrevê-lo, houve algum receio de não ser compreendida pelas pessoas que nele figuram como personagens e estiveram ou estão intimamente ligadas à sua historia?

Eu não escrevi um livro de memórias e sim um depoimento dos motivos que me levaram a ser chamada de louca. Escrevi, para que depois da minha morte, meus filhos encontrassem o manuscrito e se inteirassem da história de sua mãe. Meus filhos nunca me questionaram nos meus nove anos e meio de ausência, pelo contrário, eles me respeitaram. Eu estive ausente, mas nunca distante. Era preciso dizer tudo, sem esperar perdão ou compreensão. Ao escrever, eu abria a minha alma como se abre uma caixa de segredos. Cada passagem que eu narrava era reviver o passado como se fosse ontem. Foi muito sofrido sentir as mesmas emoções, as lembranças, que tocadas, vertiam as lágrimas já choradas.Meu filho Eduardo pegou o cd com o texto e sem mesmo ler, entregou ao jornalista Sérgio Kobayashi, dizendo a ele: “veja aí o que minha mãe escreveu”.Dias depois, Sergio disse que tinha em mãos um diamante bruto, que precisava apenas polir para ser um grande livro.

A ruptura de um casamento aparentemente estável e consolidado, no universo conservador de uma pequena cidade do interior de São Paulo, teve um custo alto.  Ao lermos Voo livre, fica a sensação de que valeu a pena bancá-lo. Faria tudo igual novamente?

Tudo igual hoje? Eu não fiz nenhuma conta em valores materiais. Eu tinha saúde, era forte, ter que trabalhar não me alarmava, eu já trabalhava tanto. Tirei o avental para ser livre e nada mudou o meu projeto. Eu era um soldado indo para guerra, não para ser herói, apenas vencer, sem me importar com os custos. Bancar uma separação é morrer um pouco, é despir-se de toda vaidade, é não olhar pra trás, é lutar com determinação e persistência na busca de um novo caminho, sabendo que terá que desbravá-lo sozinha.

Avançamos muito nas questões de gênero nos últimos 50 anos, mas ainda somos um país machista e conservador no que se refere a padrões morais. A que atribui isso?

Na questão da presumida superioridade masculina, em que imperam costumes, religião, raça e cultura. O homem ainda julga ocupar uma posição mais alta, acreditando, por exemplo, que pode trair e fica tudo bem. A mulher, no entanto, é apedrejada, mesmo que simbolicamente, como nos tempos da Idade Média, por qualquer eventual deslize.

Concorda com a ideia de que a mulher brasileira, em significativa parcela, também tem uma pratica e um discurso machistas?

Sim. No entanto, a mulher tem provado ao mundo machista que ela é tão capaz quanto o homem de liderar em qualquer campo profissional, com aguçada inteligência e o sexto sentido que lhe são peculiares. Ao ocupar um alto posto de chefia, além de se equiparar ao homem por sua competência, tem a sensibilidade mais aguçada, o que a favorece em vários setores. Mais ainda, não podemos esquecer que a mulher tem sempre jornada dupla e muitas vezes tripla, pois ela é a responsável pela casa, filhos, marido e ainda trabalha, o que prova sua imensa força.

Comumente, tendemos a absolver as relações extraconjugais dos homens e a incriminar as mulheres que a elas se entregam. A que creditar tal postura?

Quando acontece um desvio conjugal, cabe ao homem tanto quanto à mulher ser honesto e abrir o jogo. Já dizia meu avô, cem anos atrás: ”ninguém quer jantar outra vez se a refeição foi boa”. Muitos casais vivem na hipocrisia e isso vem desde os tempos de Adão e Eva. Ou seja, o machismo é muito antigo e justamente por isso não vai acabar de uma hora para outra. Se o homem traiu é porque foi ludibriado, mas se a mulher faz a mesma coisa, ela não presta e é rechaçada pela sociedade.  Será que a culpa é da maçã?

A subalternidade das mulheres tem forte origem religiosa, ligada que está aos mitos propagados por diferentes doutrinas. Parece, então, que no mais das vezes a religião aprisiona, quando deveria libertar?

Discordo da ideia do “juntos até que a morte nos separe”. Durante muito tempo, eu briguei comigo mesma, me questionei ajoelhada diante de Deus. Ser submissa, aceitar ordens, tem seus limites. A religião direciona o caminho, mas a escolha é nossa. Há religiões, as mais radicais, que colocam a mulher como subjugada pelo homem. Não acredito, por exemplo, que Deus aprovasse a ideia de uma mulher que fosse proibida de estudar e fosse humilhada por isso. O problema não é a religião, mas o homem que se faz passar por Deus.

Controle da natalidade, aborto e homossexualidade continuam, em nosso século, sendo tabus imensos, até em função da mitologia religiosa. Algum antídoto pra isso?

“Cada cabeça uma sentença”.Controle da natalidade deveria ser aceito como um processo sem restrições. É uma decisão séria a ser tomada pelo casal. Já o aborto, cabe à mulher a última palavra. Há casos especiais e únicos para dizer sim ou não a um aborto. Homossexualidade pode ter um componente genético ou mesmo uma busca emocional, independentemente de ser tabu. O mais importante é que cada pessoa possa decidir e assumir todas as conseqüências. Que atire a primeira pedra…

A leitura de Voo livre permite-nos perceber que, em nosso país, apesar dos desajustes ainda visíveis entre homens e mulheres, as relações entre eles já foram bem piores, muito mais opressoras. Como era ser mulher, meio século atrás?

Ser mulher era copiar o modelo de nossas avós e mães. Nelas eu me espelhava. Cuidar da casa e da família, sempre pronta para o marido, avental na cintura. Ter os filhos que Deus mandasse. Vaidade era um luxo desnecessário. A mulher não existia para si própria. Sem direito a nada era completamente dependente do pai e depois do marido. Mas, o cenário foi mudando. Eu nasci à frente da minha época e por isso fui chamada de louca.

Em suas andanças pelo mundo (e foram muitas) o que mais lhe chamou atenção sobre o comportamento das mulheres? Que país destaca como mais avançado nas questões de gênero?

As mulheres mais jovens dos países desenvolvidos, de um modo geral, são mais soltas, têm voz ativa, dizem o que querem e impõem suas decisões desmitificando o reinado dos homens. O que me admirou foi ver a presença da mulher ao lado de seu marido em todas as conversas sociais e financeiras. Não tem essa de em reuniões sociais as mulheres fazerem uma rodinha e os homens outra. Eu destaco a Inglaterra. O que realmente mais me chocou foi ver mulheres com burca. Eu me senti pequena diante de tamanha obediência.

Como vê o movimento feminista? Acha que o papel que tem a desempenhar ainda é extenso ou que seu discurso teria esgotado?

O movimento feminista, a meu ver, perdeu o encanto com o passar dos anos. Isso se deu devido a algumas conquistas das mulheres. Porém, o discurso pelos direitos da mulher é sempre válido. O ideal seria não o querer andar na frente de um homem, mas a seu lado. Maior ideal ainda é que se sozinha for, que a mulher ande sempre com a cabeça erguida.

As estatísticas mostram que muitas mulheres continuam vítimas de violência conjugal e por vergonha ou medo não denunciam seus maridos, até porque a estrutura do estado para defendê-las é precária e caro é o acesso a advogados. Não faz muito tempo, muitos assassinos de mulheres eram absolvidos em nome da legitima defesa de honra. Que saídas vê para isso?

Difícil! A mulher tem que sair do casulo, desabrochar, encontrar em si mesma motivação para não depender do homem e ser completa. Há um ditado que diz “numa mulher não se bate nem com uma flor”. O cumprimento das leis em defesa da mulher deveria ser mais atuante. O assunto é muito complexo, ficaríamos horas dialogando. Dar opinião é fácil, difícil é estar no lugar daquela mulher que tem filhos, que já teve pais castradores, que não teve acesso à educação, que não tem como se sustentar.

Novos projetos de livros? Algum sonho ainda não realizado? 

Sim, estou escrevendo outro livro.O meu lado professora e o convívio com os alunos, aos poucos, compõem suas páginas. Não há mais tempo para sonhar e sim recordar. Hoje sou uma mulher feliz, conquistei meu lugar a duras penas, valeram todas as batalhas, as feridas estão cicatrizadas e o coração está inteiro.

Sobre os autores da entrevista: Angelo Mendes Corrêa é doutorando em Arte e Educação pela Universidade Estadual Paulista (Unesp), mestre em Literatura Brasileira pela Universidade de São Paulo (USP), professor e jornalista. Itamar Santos é mestre em Literatura Comparada pela Universidade de São Paulo, professor, ator e jornalista.