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Frei Bento Domingues, teologia humanística e cidadania supra-católica

“Cultos, religiões, bíblias, dogmas, assombros,
São como a cinza vã que sepultou Pompeia.
Exumemos a fé desse montão de escombros,
Desentulhemos Deus dessa aluvião de areia.

E um dia a humanidade inteira, oceano em calma,
Há-de fazer, na mesma aspiração reunida,
Da razão e da fé os dois olhos da alma,
Da verdade e da crença os dois pólos da vida.

A crença é como o luar que nas trevas flutua;
A razão é do Céu o esplêndido farol:
Para a noite da morte é que Deus nos deu Lua
Para o dia da vida é que Deus fez o Sol.”

Guerra Junqueiro, Aos Simples [fragmentos].

Frei Bento Domingues acaba de ser agraciado com o Doutoramento Honoris Causa pela Universidade do Minho. É esta a causa próxima deste texto, não a sua justificação. A justificação para escrever sobre Frei Bento Domingues encontramo-la há dezenas de anos na sua atitude, não pontual, mas continuada. Uma atitude tantas vezes comprometida, activa, inquietadora. Através do site 7MARGENS, pela pena de António Marujo, ficamos a saber da base da justificação desta distinção: Frei Bento é, “por certo, o maior teólogo” da Igreja Católica em Portugal e é uma “voz grande da cultura portuguesa”, afirmou Moisés Lemos Martins, director do Centro de Estudos de Comunicação e Sociedade da Universidade do Minho.

E é pelo seu lugar no catolicismo e na cultura que devemos encarar e compreender Frei Bento Domingues. Há algum tempo, no dia 19 de Abril de 2017, assisti à apresentação do livro de Joaquim Franco e António Marujo sobre o papa Francisco (Papa Francisco –​ A Revolução Imparável, Manuscrito, 2017), que teve lugar no Convento dos Dominicanos em Lisboa, onde reside Frei Bento Domingues. A apresentação do livro estava a cargo do Presidente da República, Marcelo Rebelo de Sousa, e nada faria prever uma mensagem que fosse além do que seria normal dizer sobre a pastoral de um jesuíta auto transformado em Francisco. Mas o próprio espaço era especial e era-o fundamentalmente pelo que os dominicanos representam hoje, devido, em primeiro lugar, a Frei Bento Domingues.

Marcelo Rebelo de Sousa, católico, conhecedor da realidade da sua Igreja, actor e personalidade atenta a esse universo e a toda a sociedade civil, complementou a sua consideração sobre o papa Francisco com uma reflexão sobre os autores e, podemos dizer, sobre o catolicismo português: afirmou que hoje faz falta, à Igreja e à sociedade, o incómodo, a luta desses católicos comprometidos com um discurso político de esquerda. E a Igreja está mais pobre na medida em que esse grupo vindo das décadas de sessenta e de setenta se vai erodindo, vai perdendo gente e espaço social, vai sendo menos influente. Essa via de pensamento e de atitude faz falta à Igreja Católica, afirmava Marcelo Rebelo de Sousa. Não era, especificamente, de Frei Bento Domingues que Marcelo Rebelo de Sousa falava, mas Frei Bento é quem melhor e mais representa essa realidade.

E Frei Bento Domingues nunca desistiu dessa atitude interventiva, questionadora e inquietante. Quando, em 2012, com Julieta Mendes Das, levei a cabo a elaboração de um volume de homenagem a este teólogo, o título surgiu-nos de imediato: Frei Bento Domingues e o incómodo da coerência (Paulinas Editora). Frei Bento é incómodo e é coerentemente incómodo.

Longo seria o historial das actividades e das atitudes de Frei Bento ao longo do seu tempo de vida pública. Nessa entrevista dada a António Marujo, mal se soube em Janeiro da atribuição desta distinção, foi lembrado que na década de 1990, chegou a ser convidado pelo então reitor da Universidade Católica Portuguesa (UCP), padre Isidro Alves, para professor da respectiva Faculdade de Teologia e membro da equipa da revista teológica Communio. “Pedi-lhe garantia de que teria plena liberdade de ensino e ele respondeu que não o poderia fazer. Por isso, disse-lhe que não ia. Se fosse, corria o risco de perder um amigo e isso eu não queria.” A liberdade de pensamento e de consciência é a ferramenta da sua coerência. Como afirmava, “Tive sempre relação com universidades, mas as não-confessionais”.

Quando, em 1997, a Universidade Lusófona de Humanidades e Tecnologias pediu a Frei Bento Domingues que dirigisse o projecto de Ciência das Religiões, fê-lo na plena consciência de quem tinha à frente. Com uma vida cívica de já, então, mais de 40 anos, e com um caminho teológico na mesma escala, Bento Domingues era uma figura ímpar da cultura portuguesa, e a marca a deixar no projecto seria inevitavelmente forte. A liberdade de pensamento por ele e pelo Pastor Dimas de Almeida, seu companheiro no arranque desse projecto, perduram até hoje como marca no nosso ADN. Por esse projecto único, a Universidade Lusófona atribuiu-lhe a Medalha de Ouro de Reconhecimento e Mérito, a 19 de Janeiro de 2005.

Mas interessa centrar o olhar sobre Frei Bento no fundamental, a sua Teologia. E esta é uma escrita na dignidade dos grandes temas chegando aos aspectos pequenos do dia-a-dia. É uma forma fortíssima de afirmar que tudo pertence a um Todo. Das pequenas coisas se faz a grande acção, como se poderia interpretar nas palavras da Mateus: “Aquilo que fizerdes ao mais pequeno dos Meus irmãos, a Mim o fazeis” (Mt 25, 40).

A Teologia costuma ser centrada em Deus, raiz grega que marca a palavra. Mas, para Frei Bento, apenas interessa pensar Deus se for um caminho para o humano. Mais certo seria falar em “Humanologia”, para não dizer Antropologia. Mas o lado rico da humanização de Frei Bento reside na forma como, através da centralidade de Jesus, afirmando que ele se fez Homem, a Teologia distante dos dogmas se transforma na brilhante, simples e bela reflexão sobre a vida, a condição humana e a humanidade. Para Frei Bento, Teologia é libertação, não é conformismo.

Verdadeiro Irmão perante uma integridade da Criação, justa e orgânica, Frei Bento tem a Humanidade como família. Fraterno é isso, ser frater, indiscriminadamente, como o fora o Jesus que está sempre presente nos seus textos. Mas também Igualdade porque sempre buscou um mundo mais justo, onde todos são iguais porque é essa a natureza que Bento Domingues lhes nota através do olhar do Deus em que acredita.