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Filme sobre portugueses de Great Yarmouth mostrado em Espanha

© DR

O realizador Marco Martins estreia na terça-feira, no Festival de Cinema de San Sebastian (Espanha), “Great Yarmouth – Provisional Figures”, uma ficção a partir de histórias da vida de emigrantes portugueses numa vila costeira do Reino Unido.

“O que existe dentro do filme é uma recriação a partir de relatos. É um produto da minha observação, da minha imaginação e dos relatos”, explicou Marco Martins à agência Lusa a partir de San Sebastian, onde “Great Yarmouth – Provisional Figures” está integrado na seleção oficial.

“Great Yarmouth – Provisional Figures” é o filme que resulta de um longo trabalho de campo de Marco Martins, com atores e não atores, na comunidade de Great Yarmouth, uma vila da Costa Este do Reino Unido, para onde dezenas de portugueses emigraram em busca de trabalho em fábricas de processamento alimentar.

A longa-metragem é um objeto artístico distinto da peça de teatro que Marco Martins encenou, com a participação daquela comunidade da vila britânica e com a mesma temática, já estreada em palco tanto no Reino Unido como em Portugal, em 2018.

“Great Yarmouth – Provisional Figures” é “um filme de personagem”, centrado em Tânia (a atriz Beatriz Batarda), uma portuguesa que serve de intermediária para contratar emigrantes portugueses, para um matadouro de perus, e para os instalar em habitações precárias e sem condições, enquanto sonha em mudar de vida e dedicar-se ao turismo para idosos.

O filme remete para um tempo de crise económica, de desemprego, com o Reino Unido à beira do ‘Brexit’, e Marco Martins reconhece, neste contexto, pontos de contacto com a realidade portuguesa retratada em “São Jorge” (2016), um filme sobre os anos de intervenção da ‘troika’ em Portugal, rodado nos bairros da Bela Vista (Setúbal) e Jamaica (Seixal), sobre um pugilista, desempregado, que aceita um emprego numa empresa de cobranças difíceis.

“A primeira vez que fui a [Great] Yarmouth foi em 2017, foi um ano depois da estreia do ‘São Jorge’, e havia essa coincidência, esse lado evidente. Das pessoas com quem falei, havia muitas que eram de Lisboa, da margem sul e que estava em Yarmouth. Começou a formar-se a ideia de fazer ali um filme”, sustentou Marco Martins.

O realizador reconhece que “Great Yarmouth – Provisional Figures” é um filme “muito duro por força do tema e do guião”, visualmente dramático, pelas cenas rodadas no matadouro, pelo retrato dos dormitórios, com um ambiente “um bocado conspirativo e paranóico”, lembrou.

Essa dureza afetou também as equipas e elenco, já que a rodagem do filme foi interrompida e alterada pela pandemia da covid-19.

“É um sítio com uma energia estranha. De repente estávamos a filmar e apanhámos a pandemia, depois voltámos para filmar, em circunstâncias muito difíceis. (…) O filme acabou por ficar um retrato daquela época, tem um lado quase de pesadelo e em quase toda a equipa há essa tomada de consciência do local e das condições de trabalho”, disse.

“Great Yarmouth – Provisional Figures”, que ainda não tem data de estreia comercial em Portugal, é protagonizado por Beatriz Batarda, contando ainda com desempenhos de Rita Cabaço, Nuno Lopes, Romeu Runa, Kris Hitchen e Peter Caulfield, entre outros.

Este ano, além deste filme, Marco Martins estreou o documentário “Um Corpo que Dança – Ballet Gulbenkian 1965 – 2005”, realizado para a Fundação Calouste Gulbenkian, e prepara um novo projeto de teatro, para 2023, novamente tocado pelas questões laborais.

O projeto terá por título “Pêndulo”, sobre “o movimento pendular [das pessoas] para as cidades”, em particular sobre os trabalhadores da margem sul [do Tejo], que vêm trabalhar para Lisboa sobretudo na área de prestação de serviços domésticos a idosos”, adiantou.

O Festival de Cinema de San Sebastian começou no dia 16 e termina no dia 24.

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