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Da geogenética poética

Os meus poemas nascem…
Não! No princípio era o verbo
e depois fez-se luz…
Hum… Não, vá, outra vez!

Os meus poemas têm origem
nas minhas profundezas,
essa é a verdade,
facto geofísico do poeta enquanto
mundo a parte que é,
ou, já que estamos perante
um sistema físico-químico,
como diria friamente
o engenheiro Álvaro de Campos,
digamos então, têm uma origem geogenética.

Portanto, os meus poemas nascem
numa faixa longínqua muito abaixo da minha crosta
num extracto de subsolo ignoto e oculto
terra incógnita do meu ser inculto
os meus poemas nascem
da deriva desses continentes
e da silenciosa e terrível colisão
das minhas gigantescas massas telúricas
que rasgam inefáveis por debaixo
da minha pele e da minha carne
sismos ínfimos de escala de Richter nenhuma
novos aluviões e veias que jorram
em fontes fabulosas e nascentes profícuas
do porão do meu coração
e esculpem novas margens à minha alma
sedenta de horizontes e de luz
e esses choques tectónicos magistrais
chegam finalmente em tsunamis
aos meus neurónios e aos meus dedos
em réplicas por vezes crípticas
outras, felizmente, inteligíveis
e algumas até com generosos
resquícios de pouquíssimo talento,
mas, nasce o poema.

E o poema nasce com raízes
que faz brotar a flor
e a árvore e o pomar e o amor
e a seguir o prado e a floresta
e depois a colina e a montanha
os rios e os mares e a vida infiltram-se
e finalmente o continente
terra à vista que se expande
até esbarrar noutra
e tudo recomeça.
No princípio era o verbo
e o verbo é o poema.

JLC24062019