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Crónicas de Lisboa: Natal do nosso descontentamento

No Norte do Globo (a Terra), onde está concentrada a riqueza e a opulência, mas que se queixa da escravidão dos presentes da época natalícia, acabamos, cada vez mais, por nos revelarmos pobres, pois o que possuímos, mesmos os menos favorecidos, podem considerar-se ricos face aos milhões que nada têm nessa imensidão do “mundo pobre” ou, como é designado, países do terceiro mundo. Possuímos muitas coisas materiais, mas cada vez mais estamos mortos por dentro, porque para a maioria das pessoas, a festa do Natal perdeu o seu sentido religioso, transformando-se numa espécie dum pequeno inferno, numa guerrilha de maus humores familiares que precede a data de 25 de Dezembro e se prolonga muito para além da “Epifania” (comemoração do episódio dos Reis Magos, como ocasião da primeira manifestação de Cristo aos gentios).

Poucos são aqueles que sentem verdadeiro amor neste período, pois tantas são as queixas e o stresse que provoca no frenesim das compras, dos convites, etc. Já nem mesmo as crianças sentem o amor do Natal, porque as materializámos e com isso, a insatisfação já lhes provocou a “doença consumista”. Quando eramos materialmente mais pobres, eramos bem mais ricos em amor e, nesses tempos, o Natal era uma verdadeira festa familiar genuína e sem hipocrisias. Vivemos tempos difíceis neste “mundo rico”, conceito este que comparamos com o outro “mundo pobre” onde milhões nem a água potável têm disponível. Mas, coitados de nós que “sofremos” tanto por não sermos materialmente mais ricos. E o humor que invade estes tempos é o descontentamento.

Para muitos de nós, sem suportes imateriais fortes (laços de amizade, familiares, sociais, etc), poderemos chamar a estas semanas, já iniciadas pelos sinais de luzes, este ano mais reduzidas no tempo e na extensão, deslumbramentos consumistas, que o marketing a publicidade, cada vez mais competente nos seus métodos, ainda mais forte neste período de natal, para nos “vender a “falsa felicidade”, dizia eu, chamarmos a este período “O Natal do Nosso Descontentamento”.

As pessoas queixam-se do Natal mas, queixando-se, vão a correr comprar os presentes, compram à pressa objetos na sua maioria inúteis, baratos ou caros, fazendo desses últimos alguma ostentação, presentes esses que dirão a quem os receber que a “tradição ou ritual natalício” se cumpriu, mesmo que essa oferta esteja carregada de hipocrisia. Dar um presente é ou deveria ser um ato sério e significativo e não basta andar por aí nas zonas comerciais, cheias de gente apressada, a adquirir algo que possa encher o ego e sentir a “obrigação cumprida”.

Para se encontrar algo para oferecer a uma pessoa de quem se gosta, é necessário perder algum tempo na escolha, sem esquecer o valor material, e ser capaz de entender os pensamentos e a sensibilidade do outro. Será muito triste, ao abrir o embrulho e encontrar algo que nada tem a ver connosco. Quanto dinheiro valerão os nossos presentes? Podem ter um elevado valor afetivo, nas nossas vidas e ou também nas vidas de quem os recebe, mas, com toda a certeza, um valor insignificante do colossal movimento comercial das prendas que se trocam neste período de festa, 

O Natal deste ano de 2022 será, com certeza diferente dos anteriores, mesmo pior, incluindo os dois em plena pandemia, porque agora o “Mundo” tem nos ombros mais uma guerra e, desta vez, porque os “estilhaços” dos misseis que caem e vão destruindo a Ucrânia, estão a atingir todos em geral, face à inflação que este conflito está a provocar, afetando os mais frágeis na sua existência básica. Obviamente que o povo que mais sofre é o ucraniano, inimaginável e doloroso para a minha sensibilidade humana, custa-me interiorizar a situação dolorosa e desumana daquele povo que esta a ser atacado na sua existência. Mas também os países mais pobres, pois neles a inflação provoca mis estragos.

Acredito, contudo, que nesta época natalícia alguns ainda têm motivos para serem felizes, mas outros, vítimas da crise que se instalou, poderão já não ter Natal e, infelizmente, o seguinte poderá ainda ser pior, porque “nuvens negras” pairam sobre muitos de nós, mais “ameaçadoras” para o ano que vem. Se o nosso governo tem a tendência de pintar tudo a “cor-de-rosa”, ou não fosse a rosa o símbolo do partido que suporta o governo, as previsões económicas para 2023 poderão ser ainda piores do que estas finais de 2022, porque não se vislumbra o fim da invasão russa e até onde poderá ir a ambição da Rússia, numa versão atual da politica expansionista que norteou a URSS “exportando” um modelo de sociedade – o comunismo.

No culto da Árvore de Natal, como “montra/depósito” dos muitos presentes a trocar na véspera do  dia do nascimento daquele que deveríamos estar a comemorar (Jesus Cristo), já como a decadência da montagem familiar do Presépio, (“Por que motivo suscita o Presépio tanto enlevo e nos comove?”, perguntou o Papa Francisco – obviamente para os cristãos) que pouco ou nada diz aos milhões de pessoas dos países de cultura judaico-cristã, busquemos a simbologia duma arvorezinha que servia de abrigo a um “sem-abrigo”, algures na cidade, onde ela tentava sobreviver e à sua volta, passava gente apressada. E era aos seus pés que ao fim do dia, as lojas e os restaurantes próximo descarregavam o lixo, que serviam de apoio ao seu amigo “sem-abrigo”. De tempos a tempos, o vento enfeitava os seus ramos com sacos de plástico, qual praga desta “era plastificada”. Naquela humilhante condição ambiental, a arvore não podia expandir-se: não havia raízes, não havia respiração, não havias ramos. Fazia pena ver aquela arvorezinha, daquela forma e reduzida ao espectro de si própria. Pena porque o destino em que era obrigada a viver não era o seu destino, o destino para que tinha sido criada. Será muito diferente a condição do homem? Não creio, quanto mais olho à minha volta, vemos seres humanos que julgam NARCISICAMENTE amar-se e que, na realidade, se desprezam, seres humanos descontentes com tudo, mas incapazes de admitir que o primeiro e maior DESCONTENTAMENTO provém justamente da sua própria passividade ou indiferença e egoísmo. O “amigo” da nossa arvore, o sem-abrigo, com quem tropeçamos, se antes não nos tivermos desviado desse caminho incómodo, é um “Cristo vivo” que nos lança uma flexa com a mensagem: “Ama o próximo como a ti mesmo e faz de cada dia um dia de Natal e de CONTENTAMENTO”.

Este deveria ser o lema do homem moderno e interiorizar que vivemos de passagem num Planeta (a Terra) que está em risco, face a práticas e consumos que a vão destruindo. Nestes estragos estão muitos gestos e atitudes consumistas, massacrados que somos pela publicidade cada vez mais competente nos seus métodos, ainda mais forte neste período de natal que começa bem cedo. 

Serafim Marques

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