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Cantinho da Carolina: a Torre de Centum Cellas

A vontade de sair do meu cantinho, em Agosto, nunca é muita.

Quer vá para a praia ou para o campo, o resultado é o mesmo: parece que fomos novamente invadidos pelo exército Castelhano e Napoleónico, só que desta vez não trazem armas, pior, trazem bagagem, mulheres e filhos…

Perdoem-me os turistas e emigrantes.

Mas, enfim, como as escolas fecham e as ­férias da pequena assim o exigem, lá vou eu, não para a terra da Maria, mas para a terra da avó.

E como é costume, sempre que vou para Castelo Branco, dedico pelo menos um dia para descobrir algo do nosso património lá pela zona.

‘Vamos ver pedras’, como diz a minha filha. E nesta denominação pertencem tanto as aldeias de xisto, como as antas, ou ruínas antigas.

Espero que ela um dia goste tanto destas viagens ao passado como eu…

Apesar de já ter visitado Belmonte diversas vezes, nunca me tinha apercebido da torre que fica quase à entrada desta vila. Talvez pelo seu isolado abandono…

As ruínas da Torre de Centum Cellas, estão assinaladas, é verdade, rodeadas por uma rede vermelha, e sustentadas por alguns alicerces, mas a sensação que tive foi que caíram no desinteresse de quem estuda estas coisas, ou de quem as financia.

Espero estar enganada.

As torres tiveram sempre grande importância na História das civilizações, pois a elas estão ligadas funções importantes.

As primeiras estruturas deste género remontam à Antiguidade e eram construídas em forma de pirâmide terraplanada. São exemplo disso os zigurates babilónicos, templos criados pelos Sumérios nos vales da Mesopotâmia.

No Japão e na China criou-se o pagode, edifício religioso com vários níveis, obrigatoriamente de número impar.

Também com função religiosa é a torre de uma mesquita, ou os chamados minaretes islâmicos.

Os faróis de Alexandria e a Torre de Hércules, são grandes exemplos de como as torres foram importantes na orientação à navegação.

Fizeram também parte de muralhas que circundavam povoações, com o fim de as defender, de as vigiar, ou de simplesmente simbolizar a sua importância.

Então que torre foi esta, também conhecida por “Torre de São Cornélio”?

As teorias já foram muitas. Desde templo a acampamento romano, passando até por poder ter sido uma albergaria ou uma prisão.

Mas foi com as escavações realizadas pelo IPPAR, que se demonstrou que esta construção inicial do século I d. C. não era uma única, fazia parte de um complexo com diversas caves, salas, escadarias e pátios.

Assim, a Torre de Centum Cellas deve ter sido parte da Uilla de Lucius Caecilius, um negociante de estanho e abastado cidadão romano.

Um monumento que tem tanto de enigmático, como de imponente, à volta do qual foi construída uma estrutura habitacional, para as diversas rotinas romanas.

Uma ruina considerada das mais emblemáticas da Beira Interior e das mais representativas da presença romana no nosso território, segundo li.

Infelizmente parte destas ruinas foram danificadas pela construção da estrada municipal. E outras zonas, como as termas, parecem irremediavelmente perdidas, tanto pelas construções recentes como pela plantação de vinhas.

Enviei email para a Divisão de Salvaguarda do Património Arquitetónico e Arqueológico, e para a Junta de Freguesia de Belmonte para tentar saber como deixaram isto acontecer, e o que se passa com o resto das escavações que parecem abandonadas. A Junta respondeu que o meu pedido foi remetido para o Gabinete de Arqueologia, mas, passadas 3 semanas, nada disseram.

…Acabei a recordar-me de uma lenda…

Lê-se no Genesis que antigamente toda a humanidade falava a mesma língua. Mas, um dia, um grupo de pessoas que migrava do Oriente, encontrou uma planície na Mesopotâmia e ali decidiu construir uma torre que chegasse ao céu. Parece, no entanto, que os deuses não gostaram de tal audácia e, para impedir que continuassem a obra, resolveram que todos passariam a falar diversas linguagens.

Instalou-se a confusão, as pessoas dispersaram, e a torre nunca foi concluída.

Assim parece o destino da Torre Centum Cellas. Os ‘deuses’ daquela aldeia não admitiram a sua importância, a sua grandeza, e assim deixaram instalar a ‘confusão’.

Não falam a ‘mesma língua’ de quem muito gostaria de preservar e estudar este património.

Há quem defenda que a Torre de Babel realmente existiu, na Babilónia, onde é hoje o Iraque. Infelizmente, acho que Torre de Babel será o nome de muitos monumentos, mas… por aqui, em Portugal.