Durante décadas, muitas pessoas com doenças cardiovasculares ouviram o mesmo conselho: “Evite o café”. A cafeína era vista com desconfiança, sobretudo pelo receio de provocar hipertensão, arritmias ou enfarte. No entanto, a ciência evoluiu e hoje a mensagem é bastante diferente.
A American Heart Association publicou recentemente uma declaração científica que analisa dezenas de estudos sobre o consumo de café. A conclusão é tranquilizadora: para a maioria dos adultos saudáveis: três a cinco chávenas de café por dia não aumenta o risco cardiovascular e pode mesmo associar-se a vários benefícios.
Os estudos mostram que quem consome café de forma moderada apresenta menor risco de doença coronária, insuficiência cardíaca, acidente vascular cerebral, diabetes tipo 2 e até de algumas arritmias, incluindo fibrilação auricular (!). Além disso, vários trabalhos sugerem redução da mortalidade global entre os consumidores habituais. Porque poderá isto acontecer? A cafeína é apenas uma parte desta história.
O café contém centenas de compostos bioativos, entre eles polifenóis e outras substâncias com propriedades antioxidantes e anti-inflamatórias, que poderão contribuir para proteger o sistema cardiovascular. Curiosamente, alguns benefícios também foram observados em consumidores de café descafeinado, sugerindo que a cafeína não é a única responsável pelos efeitos favoráveis.
Mas atenção: estes resultados não significam que “quanto mais café, melhor”. Acima dos 400 mg diários de cafeína podem surgir efeitos indesejáveis, como palpitações, ansiedade, insónia e aumento transitório da pressão arterial em pessoas mais sensíveis. As bebidas energéticas merecem também uma nota de cautela. Muitas contêm doses muito elevadas de cafeína, frequentemente associadas a outros estimulantes e grandes quantidades de açúcar, podendo aumentar o risco de arritmias e outros problemas cardiovasculares.
Outro aspeto importante é aquilo que acrescentamos ao café. Um café simples é muito diferente de uma bebida carregada de açúcar, xaropes, chantilly ou natas. Nestes casos, os potenciais benefícios podem desaparecer devido ao excesso de calorias, açúcar e gorduras saturadas. É igualmente importante recordar que cada organismo reage de forma diferente.
A velocidade com que metabolizamos a cafeína depende, entre outros fatores, da genética, idade, gravidez, de alguns medicamentos e dos hábitos de consumo. Assim, pessoas que desenvolvem tremores, ansiedade, palpitações ou insónia deverão reduzir a quantidade ingerida.
A mensagem final é simples: o café não é um inimigo do coração. Pelo contrário, quando consumido com moderação, sem excesso de açúcar e integrado num estilo de vida saudável, pode fazer parte de uma alimentação cardioprotetora. Claro que nenhum alimento, por si só, substitui aquilo que realmente faz a diferença: não fumar, praticar exercício físico regularmente, manter um peso adequado, controlar a pressão arterial, o colesterol e a diabetes, e seguir uma alimentação equilibrada.
Afinal, para a maioria das pessoas, a chávena de café da manhã pode continuar a ser um pequeno prazer… com a ciência do seu lado.
Ovidio Costa
