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Arte pública e representação identitária da comunidade portuguesa em Toronto

Nos últimos anos, temos assistido ao nível do espaço urbano nacional a uma cada vez maior interação entre arte e cidade, contexto que no âmbito da promoção de uma cidadania ativa e de uma gestão socialmente consciente do espaço público, tem impulsionado vários artistas a desenvolver uma série de obras, como por exemplo murais, em parceria com as comunidades locais.   

A arte pública, liberta dos códigos mais formais e específicos dos museus e galerias, tem feito também o seu caminho no seio da geografia da diáspora lusa. Assumindo mesmo, na linha preconizada pela socióloga Ágata Dourado Sequeira, um “papel de destaque na construção de um espaço público consciente da sua história, presente e futuro, e sobretudo dos cidadãos que o constroem simbolicamente”.

É o caso da comunidade portuguesa em Toronto, onde vive a maioria dos mais de 500 mil portugueses e lusodescendentes presentes no Canadá, que nas últimas décadas tem dinamizado uma série de intervenções artísticas no espaço público, visando através da sua representação identitária aproximar-se ainda mais da cidade e dar-se a conhecer melhor à comunidade canadiana em geral.

Ainda no mês passado, foi inaugurado no “Little Portugal” de Toronto, um mural do artista português Alexandre Farto, conhecido por Vhils, cuja inspiração centra-se na história do movimento feminino Cleaners Action, da década de 1970, liderado por trabalhadoras portuguesas. Como foi o caso de Idalina Azevedo, uma das líderes da greve conhecida por ‘Wildcat’, nas Torres TD, em Toronto, em 1974, que viabilizou alguns direitos para as empregadas de limpeza.

Além deste projeto da iniciativa da vice-presidente da Câmara Municipal de Toronto, a luso-canadiana Ana Bailão, da Associação Comercial do Little Portugal na Dundas, presidida por Anabela Taborda, e da Embaixada de Portugal no Canadá, o bairro português alberga desde o início de outubro, um galo de Barcelos gigante, um dos mais conhecidossímbolos da cultura popular lusa. Com quase três metros, e inserido no ano da arte pública promovido pela autarquia de Toronto, o mais icónico símbolo de Portugal é simultaneamente uma homenagem à comunidade luso-canadiana, e uma forma de revitalizar a Business Improvement Area (BIA), procurando assim atrair os consumidores ao pequeno comércio.

A zona entre as ruas Bathurst e Dufferin, conhecida desde os anos 70 como “Little Portugal”, tem sido pela sua ligação umbilical à comunidade luso-canadiana, alvo de várias manifestações culturais no campo de ação da arte urbana. Há sensivelmente um ano, o coração urbano da comunidade portuguesa em Toronto, foi palco da inauguração de um mural com mais de seis metros de altura, dedicado à fadista Amália Rodrigues, figura maior da cultura portuguesa do século XX, e referência e símbolo da portugalidade.

Criado no âmbito do projeto do empresário de Montreal, Herman Alves, que tem como objetivo criar uma aldeia global virtual colocando 25 murais em pontos centrais da diáspora portuguesa no mundo, este imponente mural junta-se a um outro instalado em Mississauga. Na mesma esteira, a Camões Square em Toronto, que tem desempenhado nas últimas décadas um papel notável na exaltação da portugalidade no centro da cidade, acolhe um enorme mural que retrata o ensino da língua portuguesa e o primeiro barco que levou emigrantes portugueses para o Canadá, o Saturnia. 

É neste espaço simbólico, que se encontra o Portuguese Canadian Walk of Fame, que anualmente, por ação do empresário e filantropo Manuel DaCosta, laureia portugueses que se têm destacado no território canadiano, assim como, a fonte dos pioneiros portugueses, um mural de azulejos e um pequeno jardim. Ainda neste entrecho, refira-se que desde 2003, foi instalado na estação de metro Queen’s Park em Toronto, um painel de azulejos, fabricado em Lisboa, da autoria de Ana Vilela, que aborda a exploração portuguesa no Novo Mundo.

Estes exemplos de intervenções artísticas no espaço urbano de Toronto, e outros que se encontram ou possam vir a ser projetados, assumem-se claramente como uma importante mais-valia cultural e identitária da comunidade luso-canadiana,uma das mais dinâmicas comunidades portuguesas na América do Norte. 

Daniel Bastos

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