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A porta de entrada para Trás-os-Montes e Alto Douro

“Ser feliz sem motivo é a mais autêntica forma de felicidade.”

Carlos Drummond de Andrade

Situada entre o Douro e o Marão, na união de dois rios, o Cabril e o Corgo, situa-se a cidade de Vila Real. Esta cidade com mais de 700 anos de existência, foi fundada por D. Dinis e elevada oficialmente a povoação no ano de 1289 por carta de foral. Dizia-se que a cidade era protegida de El-Rei, daí o nome Vila Real. Possui vários monumentos dignos de nota, entre eles a casa de Diogo Cão, navegador português da segunda metade do século XV.  

Vila Real é uma cidade que, apesar de estar sempre em evolução, consegue manter a sua identidade e tradição em tudo o que faz. Desde a abertura do túnel do Marão, a cidade tornou-se mais acessível aos visitantes, sendo ela entrada de boas-vindas a toda a zona transmontana. 

Vila Real tem tradições muito próprias, uma delas festejada no dia de São Brás. Manda a tradição que em Dia de São Brás os rapazes deem às raparigas a gancha e depois no dia de Santa Luzia estas têm que lhes dar o pito. Chocados? Não fiquem: não tem nada a ver com aquilo que estão a pensar.

A gancha é uma espécie de caramelo, ferve-se água e açúcar e depois estende-se este preparado na pedra de mármore para arrefecer até que se possa moldar na forma que se deseja. O pito é um pouco mais complicado, é um doce feito de massa quebrada recheado com geleia de abóbora e canela, o seu formato é idêntico aos pensos de Santa Luzia para a cura de problemas oftalmológicos. Há séculos que esta tradição se repete e passa de família em família e, claro, não se poupa nas risadas e brejeirice.

Os vila realenses são assim, pessoas trabalhadoras e empenhadas ao mesmo tempo que são alegres e divertidas. As mulheres de Vila Real têm garra, muitas delas cuidavam da casa, dos filhos e do trabalho no campo sem nunca baixar os braços. Aos domingos acordavam bem cedo para ligar o forno a lenha e cozinhar o pão, preparar o cabrito para assar para receber as visitas e alimentar os seus. Na matança do porco é dia de festa, arranja-se o porco, enquanto na brasa se assa umas febras acabadinhas de serem cortadas. Do bicho aproveita-se quase tudo, da cabeça ao rabo, de lá fazem-se salpicões, chouriça, carnes para a feijoada e uns belos presuntos. 

É, claro que eu tenho umas histórias em Vila Real, precisamente na aldeia de Souto Escarão. Como já disse em histórias passadas, a família da parte da minha sogra é toda de Vila Real, dessa aldeia. E, eu, menina da cidade um dia fui lá conhecer a zona. O meu maior desgosto foi não ter uma avó na aldeia para passar as férias de verão e andar nas romarias a dançar Quim Barreiros e Clemente.

No dia que lá fui, um domingo, a avó do meu marido estava sentada num banquinho de madeira à porta de casa dela a partir massa de aletria, com muito cuidado e carinho, para a sobremesa. Eu, Dévora Raquel, detesto aletria, nem suporto o cheiro!

Mais tarde depois do almoço, sozinha com a senhora em casa, ela diz-me: “Pega numa aletria e senta-te aqui a comer!”, e como eu não queria ser mal-educada lá peguei na aletria, que para meu azar ainda estava morna, e comecei a comer. A cada colherada uma agonia subia-me pela garganta, e eu só pensava “Engole Dévora Raquel, não passes vergonhas!”. Desde desse dia passei a não só a não gostar de aletria, mas a repudiar! Quem foi a alminha que se lembrou de inventar massa doce? 

Deixo-vos com a receita de cabrito assado à transmontana e grelos salteados. 

Ingredientes: 

1 perna de cabrito (ou mais)

5 dentes de alho

50 g de banha de porco 

1 copo de azeite

1 copo de sumo de laranja

1 copo de vinho branco

1 colher de sobremesa de colorau

sal q.b.

2 folhas de louro  

Preparo:

 Tempera-se no dia anterior a perna (ou pernas) do cabrito com todos os temperos e gorduras, virando a carne de vez em quando para ganhar sabor. Vai assar em forno médio.

Junte umas batatinhas novas cortadas ao cabrito, sirva acompanhado com grelos salteados.

Dévora Cortinhal

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