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A luta e a demissão

Tal como foi dado a público pelo BOM DIA a Conselheira das Comunidades Luísa Semedo, eleita pelo círculo eleitora de França, demitiu-se das suas funções na presidência do CRE – Conselho Regional da Europa (sub-órgão que agrupa os eleitos dos círculos eleitorais da Europa no sei do Conselho das Comunidades Portuguesas – CCP). As razões apontadas pela conselheira, e consistentes com o que tem vindo, gradualmente, a ser o seu posicionamento público, prendem-se com a iminência da reunião anual do CRE para a qual é hábito convidar, como “sempre fez parte das [suas] práticas democráticas”, os partidos com assento na Assembleia da República para “poder haver um espaço de diálogo”. Esta situação colocaria Luísa Semedo na obrigação de acolher na reunião do CRE o deputado “ilegítimo” (segundo a própria) do Chega – André Ventura.

Antes de continuar devo fazer uma declaração de interesses, e para que não haja nunca dúvidas do lado da barricada em que coloco. Pegando na definição de Lincoln (parafraseada a partir de Daniel Webster), a “democracia é uma forma de do governo do povo, pelo povo e para o povo”. É importante aditar a esta definição que a democracia não é o exercício duma ditadura totalitária por parte das maiorias, mas sim o respeito pelas minorias. Precisamente valendo-me desta definição, tenho reservas crescentes quanto ao nível de democracia que temos hoje em dia na Europa Ocidental. Perante isto restam-me duas possibilidades: o golpe de estado e consequente alteração do sistema ou, provisoriamente, participar do sistema sem abandonar nunca os princípios que me regem. Mas sendo que isso é debate para outro momento, vamos agora assumir que estou plena e permanentemente empenhado tão só na segunda possibilidade.

O espaço público tem sido invadido por um crescendo vozear contra tudo o que é diferente, com um nivelar da opinião pública por baixo, ressurgindo em força o ódio e a mentira que julgávamos enterrado desde 9 de Maio de 1945. O deputado André Ventura é exímio na arte de explorar e manipular a opinião pública usando destes e outros métodos. Nada daquilo que proclama (e não se pode dizer que um catavento defenda seja o que for excepto a sua liberdade de andar à roda) poderá ter o meu agrado ou apoio. Muito antes pelo contrário. As ideias que veicula, o oportunismo com o faz, e a redução ao absurdo de todo e qualquer debate terão sempre a minha mais profunda oposição.

No entanto, partidos como o Chega e políticos como o André Ventura não são já, infelizmente, novidade por essa Europa fora, nomeadamente em França com o clã Le Pen na liderança – o que, de certa forma, obrigaria a conselheira a ter outra capacidade de leitura sobre o melhor caminho a tomar na situação com que foi confrontada. A verdade é que esta estirpe de políticos é, desde algum tempo a esta parte, aquela que mais (para não dizer que é quase a única) dá voz aos ensejos e problemas duma população cada vez mais espoliada e que, com alguma virtude, se pode outorgar (ainda  que não o sendo) porta-voz e defensora dos direitos dos mais desfavorecidos.

Essa corrente política tem de ser combatida. E tal como para o combate às democracias de fachada há duas soluções: a tiro ou rebatendo os seus propósitos com recurso ao debate. A primeira, como não podia deixar de ser, está, obviamente, fora de questão. Resta-nos a segunda. Onde quer que seja que um Fascista possa falar é preciso não o deixar passar sem contraditório. É preciso levá-los a tropeçarem nas próprias parangonas. E esse é um papel que se desempenha, sem sombra de dúvida, muito melhor duma tribuna presidencial que duma bancada qualquer.

A ainda conselheira segue acusando a André Ventura de ser um deputado ilegítimo. Goste-se ou não, André Ventura foi eleito num processo democrático ao qual não poderão apontar anomalias de maior e que em nada difere dos demais processos eleitorais portugueses. Processo eleitoral no qual a demissionária foi já também candidata não lhe tendo, que me lembre, apontado à altura inquinamento algum. A comparação feita mais tarde, durante o debate suscitado, de que também Salazar e Hitler foram eleitos como meio de suportar a sua tese, não procede. E não procede porque nem um nem outro foram eleitos pelo voto popular às posições (respectivamente Presidente do Conselho de Ministros e Chanceler) a partir das quais instauram os seus regimes Fascistas. Esta amalgama de “coisas” é precisamente uma das técnicas dos novos movimentos populistas (para nota: não considero que haja bom populismo – o populismo degenerará sempre num totalitarismo da mesquinhez).

A conselheira, aliás, deu bem conta do que é esta prática de “misturar alhos com bugalhos” numa publicação, e consequentes comentários, que André Ventura fez no Facebook, clamando, e transcrevo: “Óptimo. É dinheiro que os portugueses poupam nestes tachos que não servem para nada. Espero que mais uns tantos e tantas lhe sigam o caminho.” Ora, o cargo de conselheiro do CCP não é remunerado. Mas isso não interessa, interessa o ruído que se faz em torno das coisas. Ora, e a prezada conselheira, só veio dar (ainda mais um) palco para que o populismo que se conhece ao deputado se possa exprimir. E fê-lo em nome do ruído que escolheu fazer para trazer a atenção sobre si mesma.

 

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