Assinalam-se este ano os 120 anos do nascimento do Dr. Corino de Andrade (1906-2005), uma das figuras maiores da medicina portuguesa. Neurologista de reconhecimento internacional, foi quem descreveu pela primeira vez a polineuropatia amiloidótica familiar, conhecida entre nós como doença dos pezinhos, descoberta que projetou a medicina portuguesa no mundo. Alentejano de Moura, foi no Porto que construiu uma escola de neurologia e formou sucessivas gerações de médicos.
Conheci-o em 1996.
Preparava então a exposição Radiografia como Expressão Estética, inaugurada na Santa Casa da Misericórdia do Porto pela então Ministra da Saúde, Maria de Belém Roseira.
A exposição nasceu de uma inquietação. Eu queria reivindicar a dimensão estética da radiografia. Via nela mais do que um instrumento de diagnóstico: via uma linguagem própria, uma luz, uma harmonia de cinzentos que mereciam também ser contemplados.
Ao mesmo tempo, procurava compreender uma geração de médicos que revolucionara a medicina portuguesa a partir de meados do século XX e que encontrava nas artes um espaço natural de reflexão. Eu queria ouvi-los falar.
Na procura dessas respostas tive o privilégio de conhecer quatro discípulos do Dr. Corino de Andrade, que o visitavam com frequência e com quem privei: o Professor Nuno Grande, o Dr. Rocha e Melo, o Dr. Manuel Silva Araújo e o Dr. Armando Pinheiro.
O Dr. Armando Pinheiro, reputado pneumologista e poeta de reconhecido mérito, juntamente com o Dr. Manuel Silva Araújo, incentivados por Corino de Andrade, fizeram estágios fora de Portugal, sendo ambos, juntamente com o Professor Tomé Vilar de Lisboa, responsáveis pelo início dos cuidados intensivos portugueses.
Foi o Dr. Armando Pinheiro quem me levou, numa tarde de 1996, a casa do Dr. Corino de Andrade.
Recebeu-nos um pequeno cão, irrequieto, que parecia cumprir a missão de proteger o dono. O Dr. Corino mostrou-nos esculturas do Professor Abel Salazar e foi recordando episódios da convivência entre ambos. Eu também queria ouvi-lo falar de Abel Salazar, que o Dr. Corino conhecera bem. Amavelmente, a sua nora trouxe-nos chá, para aconchegar a conversa.
Na sala onde estávamos e onde normalmente recebia, o Dr. Corino sentava-se num sofá estreito, de aparência cómoda. Ao seu lado direito, um telefone branco, de fio.
Disse-nos que, naquela fase da vida, era através daquele telefone e das visitas dos discípulos e amigos que continuava ligado ao mundo. A visão já o limitava. Mesmo assim, escutava com uma atenção extraordinária — como se nada do essencial lhe escapasse.
Falámos da exposição.
Procurei explicar-lhe porque via numa radiografia uma dimensão que ultrapassava o diagnóstico. Falei-lhe da luz dos cinzentos, dessa diferença subtil que tantas vezes encontrava entre radiografias.
Escutou-me como se quisesse acompanhar o caminho do meu pensamento. Não para responder de imediato, mas para perceber onde eu queria chegar. O que mais me impressionou foi a disponibilidade com que acolhia uma ideia que lhe era inteiramente nova. Aos noventa anos, mantinha intacta a curiosidade intelectual.
Quando lhe falava das radiografias, tive a estranha sensação de que o Dr. Corino de Andrade não se limitava a escutar-me. Era como se quisesse entrar no próprio fenómeno que eu tentava descrever. Não para o simplificar, mas para o habitar por dentro. Como se, por instantes, acompanhasse o percurso do feixe, a travessia da luz, a lógica invisível que eu procurava traduzir.
Só muito mais tarde compreendi o que aproximava muitos daqueles médicos que tive o privilégio de conhecer. Pertenciam a uma geração em que o diagnóstico começava muito antes dos exames complementares. Começava na escuta: na atenção ao doente, à palavra, ao silêncio, ao olhar. Talvez tenha sido essa escola da escuta que lhes tenha dado também a delicadeza com que recebiam, conversavam, ensinavam e permaneciam disponíveis para compreender quem tinham diante de si.
Voltei a estar mais duas vezes com o Dr. Corino de Andrade.
Durante o período em que exerci funções de assessora do PCA do Hospital de São João, tive sempre sobre a minha secretária o meu exemplar do livro “Corino Andrade – Excelência de uma Vida e Obra”, de Maria Augusta Silva. Na capa estava o Dr. Corino exatamente como eu o conhecera.
Em 2005, eu e o meu marido estivemos presentes nas cerimónias fúnebres realizadas no Instituto Abel Salazar.
Quando o caixão saiu do edifício, abriu-se um corredor ladeado por familiares, discípulos, amigos e pelas muitas personalidades que ali tinham acorrido para lhe prestar a última homenagem.
Entre elas encontrava-se Mariano Gago, então Ministro da Ciência, Tecnologia e Ensino Superior.
De uma das coroas desprendeu-se uma flor.
Inclinei-me para a apanhar.
Mas Mariano Gago antecipou-se.
Recolheu-a cuidadosamente e levou-a entre as mãos, atrás das costas, como quem protege algo frágil.
Alguém se aproximou para pegar na flor…
Ele respondeu apenas:
— Não. Eu quero a flor.
Ana Príncipe
