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A esperança como estratégia política

© Lusa

No passado dia 7 de maio, as eleições locais no Reino Unido confirmaram o impensável: o histórico sistema bipartidário britânico está em colapso.

A fragmentação é de tal ordem que as projeções de alguns analistas apontam para um cenário inédito caso estas fossem eleições nacionais: um empate técnico entre quatro partidos tradicionais (Trabalhistas, Conservadores, Liberais Democratas e Verdes), todos entre os 16% e os 18%, e uma liderança destacada do partido de extrema-direita ‘Reform’, com 28%.

Este cenário é verdadeiramente extraordinário se recuarmos apenas dois anos, altura em que o Partido Trabalhista de Keir Starmer conquistou uma esmagadora maioria parlamentar. Por norma, governos com dois anos de mandato ainda desfrutam de um certo “estado de graça”. Nestas eleições, porém, o que se viu foi uma derrota estrondosa. Como chegámos até aqui?

A política está a mudar a um ritmo vertiginoso e a fragmentação partidária veio para ficar. Concordo em absoluto com o artigo de Pedro Adão e Silva (publicado no Público a 10 de maio), que resumiu a temática num título certeiro: “O que aconteceu no Reino Unido não vai ficar no Reino Unido”.

É inegável que as redes sociais — e, por contágio, grande parte da comunicação social tradicional — não beneficiam os partidos com responsabilidades governativas. Vivemos mergulhados na perceção do caos e da crise constante. Transmite-se a imagem de lideranças sem rumo, o que leva os cidadãos a sentirem (correta ou incorretamente) que as suas Cidades estão ao abandono. A narrativa de que a imigração está descontrolada ganha força, ignorando convenientemente que são esses mesmos imigrantes que asseguram o funcionamento de hospitais, escolas, supermercados e da construção civil. O sentimento de insegurança tornou-se permanente.

Esta polarização, ampliada pelo debate político tóxico, gera uma enorme vontade de mudança e de “experimentalismo” eleitoral, o que poderá criar uma instabilidade social, política e económica ainda maior à escala global. Curiosamente, embora viva no Reino Unido, ao acompanhar as notícias britânicas e portuguesas, sinto muitas vezes que estamos a falar do mesmo país, debatendo exatamente os mesmos problemas.

O fim do “estado de graça” de Starmer

Na minha perspetiva, a impopularidade atual do governo de Keir Starmer deve-se, em grande parte, a contextos externos que tornam a comunicação política um autêntico campo de minas. As medidas positivas do governo esbarram num muro de ruído e não chegam às pessoas. Pelo contrário, os erros e as indecisões são amplificados, espalhando silenciosamente uma sensação de incompetência.

No entanto, a culpa não reside apenas nos desafios de comunicação do século XXI. O governo cometeu erros táticos, nomeadamente na esfera política. Preocupou-se em demasia em responder às ameaças populistas de Nigel Farage e do partido Reform, adotando posturas que desmotivaram uma parte significativa da sua base de apoio. O resultado? Muitos desses eleitores desiludidos engrossaram as fileiras d’Os Verdes.

A Lição de Littlemore: A política da esperança

Governar é, na sua essência, a arte de trazer esperança. É provar que uma vida melhor é possível. Num mundo saturado pelos dramas das redes sociais, a solução passa por políticas que entusiasmem, vão ao encontro das expectativas reais das pessoas, unam as comunidades e atuem sobre o futuro.

Foi com esta premissa que delineei a minha estratégia de campanha para as eleições à Câmara de Oxford, pelo círculo eleitoral de Littlemore. Num contexto nacional altamente desfavorável para o Partido Trabalhista, conquistei uma vitória clara com 43% dos votos, deixando o segundo classificado a 20 pontos de distância (23%).

Como contrariámos a tendência nacional? A receita baseou-se em quatro pilares fundamentais:

  • Visão Positiva: Definimos uma estratégia e um plano claro, focado exclusivamente na transformação positiva do nosso círculo eleitoral.
  • Mensagem Simples e Focada: Adotámos uma comunicação clara e repetida, assente em slogans como “Amar/Orgulho/Empoderar Littlemore” e “Tiago em Ação”. Enaltecemos apenas o nosso projeto e as nossas políticas transformadoras, recusando-nos a perder tempo a falar dos adversários.
  • Proximidade Local: Apostámos numa comunicação tangível, com o envio regular de newsletters entregues em mãos por voluntários em todas as casas.
  • Porta-a-Porta: Privilegiámos o contacto humano e o bater de portas em detrimento das redes sociais. É uma abordagem incrivelmente exigente e dispendiosa em tempo e recursos humanos? Sem dúvida. Mas, num mundo digitalizado e polarizado, o contacto frente-a-frente continua a ser a arma política mais efetiva.

A fragmentação está aí, e o ruído mediático também. Mas a lição de Littlemore prova que quando a política se foca nas pessoas, no terreno e na esperança, os resultados aparecem.

Tiago Corais

Esta publicação é da responsabilidade exclusiva do seu autor.

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