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Médico português ajudou a combater a covid-19 na Amazónia e acabou em tribunal

© DR

Docente na Universidade de São Paulo, Luís Gonçalves acedeu em 2021 ao pedido do estado brasileiro de Rondónia para ajudar no combate à covid-19, enfrentando, agora, um processo em tribunal por a universidade entender que faltou ao trabalho.

Luís Moreira Gonçalves tem 41 anos, nasceu na Trofa e, atualmente, é psiquiatra em São Paulo, no Brasil, onde em 2021 interrompeu as aulas na Universidade de São Paulo para ajudar no combate ao coronavírus num dos estados da Amazónia, aventura que está na origem do livro “Dormindo entre Cadáveres” e que desvendou em entrevista à Lusa.

Este trecho da história profissional do médico começa em 2018 quando passou a ser professor da Universidade de São Paulo (USP) onde se manteve até, no final de janeiro de 2021, ter sido contactado pela Secretaria de Saúde do estado de Rondónia, na Amazónia, a pedir ajuda no combate ao vírus, declarado como pandemia em 13 de março de 2020.

“Em dezembro de 2020 surgiu uma nova variante, uma nova estirpe do vírus no norte do Brasil, atingindo, sobretudo, Manaus, a capital da Amazónia, uma cidade com cerca de dois milhões de habitantes, tendo-se então registado falta de oxigénio e uma mortalidade enorme”, recordou o médico.

Nesse contexto, no final de janeiro de 2021, “os estados à volta da Amazónia: Rondónia, Roraima, Pará, Amapá, entre outros, começaram a preparar-se para o pior e foi pedido a todos os médicos que estivessem disponíveis para poderem ajudar no combate”, recordou.

Convite aceite, dias depois Luís viajou para Porto Velho, capital do estado de Rondónia para fazer “turnos de 12 horas” no Hospital de Campanha da Zona Leste, aí começando a viver uma aventura que esteve na base do livro distinguido em junho com o Prémio Obra do Ano na 1.ª edição do Prémio Nacional de Banda Desenhada.

Dessas memórias, além das muitas mortes e de ser o único português a operar medicina naquela parte do país, o médico assinalou “o fim do último representante masculino da tribo da comunidade indígena Juma”, mas também as dificuldades para reunir os meios necessários para o combate, ainda que, neste caso, não queira apontar o dedo a ninguém por desconhecer as condições existentes naquele estado antes de a pandemia se instalar.

No final de abril, a situação acalmou em Rondónia e viajou para o Recife, em Pernambuco, e mais tarde para Salvador, na Baía, onde esteve cerca de dois meses em cada um dos estados, antes de voltar a São Paulo para continuar a atividade médica no contexto da pandemia.

Ainda em Rondónia, em abril, Luís viu-se confrontado com uma situação inesperada, com a USP a exigir o seu regresso imediatamente às aulas, o que o obrigou a tomar uma decisão que, desde logo, sabia ter consequências legais.

“Durante a pandemia, em Portugal, como aconteceu, por exemplo, na Universidade do Porto, os médicos foram libertados para poderem trabalhar na luta contra a covid-19, o que não aconteceu no Brasil”, começou por explicar Luís.

Com “contrato de exclusividade” com a USP, quando foi contactado para auxiliar na luta contra o coronavírus, o médico “pediu uma licença sem vencimento, que não foi concedida por estar ainda nos três primeiros anos de contrato, em regime probatório”.

“Faltavam dois meses para terminar o regime probatório”, disse, vendo-se então obrigado a pedir a “exoneração da universidade”, acabando a situação por transitar para os tribunais, onde, cinco anos volvidos, ainda não há decisão sobre a “multa de aproximadamente 5 mil euros” que a USP quer aplicar, alegando que o que Luís estava a fazer em Porto Velho “não eram consultas médicas, mas consultoria científica e, como tal, era possível acumular com o trabalho”.

A distância entre Porto Velho e São Paulo é de cerca de 2.500 quilómetros, lembra.

Sobre o livro que partilha com Felipe Parucci, o médico português explicou haver três motivos que o levaram a escrevê-lo: ajudou-o a ultrapassar um momento que foi traumático para si, dedica-lo a todos os que estiveram, em todo o mundo, na linha da frente, e para deixar um testemunho que permita, anos passados sobre a pandemia e quando parece que já muito foi esquecido, que se possa lembrar tudo o que aconteceu e aprender alguma coisa com isso.

“Fico muito feliz por saber, por exemplo, que houve alguém que escreveu a História do Brasil dos últimos 20 anos e usou o meu livro como fonte primária. Sei também que em agosto foi feita a defesa de uma tese de mestrado sobre o livro, sobre a estética do livro, na Universidade Federal do Paraná”, contou.

Luís Moreira Gonçalves disse à Lusa que está a tentar conseguir a equivalência do grau de psiquiatria em Portugal para poder trabalhar no seu país.

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