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Testamento

Quando eu morrer quero um caixote de pinho.

Quando eu morrer quero ter todos os meus familiares junto a mim. Quando eu estiver a morrer quero ter nas mãos papel e uma esferográfica, e gostava de nele poder dizer o que terei que voltar para fazer o que não fiz.

Quero escrever as saudades que todos me deixam.

Quero dizer que o mundo, onde pouco tenho vivido, ainda tem muito para me dar e eu lhe dar a ele. Se mais não for, escrever. E reescrever legivelmente as dezenas de cadernos que tenho garatujados.
E se mais não for, escrever tanto que não escrevi antes. Hoje, ontem, anteondem, há uma semana, há um mês, há anos e anos.

Por preguiça, por desinteresse e por desaproveitar a vida que quero muito, muito longa. Mas estou sem esperanças para escrever e reescrever tudo.

Quando eu morrer uma das coisas fundamentais que quero perder por fim é a opinião. E com ela, a verticalidade. A força. A falsa Fé.

Não quero, mas não quero mesmo que chore seja quem for por mim. Quero chorar eu e basto. Pela pena do que terei de voltar para fazer, porque enquanto vivi não fiz.

Quero que todos os que bem entenderem me vejam por fim. Mas, recentemente, entendi que o caixote esteja comigo de tampa fechada. O tempo para me verem no esquife é breve.

Esse caixote tem obrigatoriamente, como por força da lei, que ser em pinho. Seguro apenas com pregos e sem qualquer tratamento nem verniz. Isto é letra antiga. Desde rapazote.
Não tem rendas nem bordados. Qualquer almofada.

Queria muitas, muitas flores. Tantas como delas, todas e qualquer uma flor, eu gosto. Para morto basto eu. Um pequeno punhado de flores campestres pode – sem obrigatoriedade, repousar-me sobre a tampa do caixote. Mais não quero. O dinheiro que se gasta como eu já gastei com muito honor por ser para quem eram – eu não mereço. Não mereço nem quero mesmo.

Se alguém gostasse de me deixar flores, como seria eu no inverso, dê o dinheiro para nem que seja uma pessoa coma um almoço ou jantar quente. Se todos os que tencionarem levar flores, se quotizarem, com o dinheiro com que deixaram sobreviver as flores, também façam alguém sobreviver mais um bocadinho que seja, porque a fome lhes foi morta por instantes. Pelo menos.

Quando eu morrer não me importo de ficar na Capela da Ressureição de Margaride. Por questões práticas e que os mundos de hoje exigem. Mas que apenas me visitem e não precisam ficar a velar-me e menos ainda orar por mim.

Não quero papéis pela cidade a anunciar o evento.

Não quero missa de corpo presente. E quero um funeral completamente civil. Como quem vai apenas depositar algo, que é o que realmente acontece. E nunca quero missas.

Quando eu morrer quero ser cremado. E todas, todinhas as minhas partículas, células, e o que mais for, sejam metidos num caixote mais pequeno, óbvio, e seja depositado junto dos entretanto depositados no buraco, junto dos meus pais e a minha madrinha e irmã.

Quando eu morrer não batam em em latas, nem rompam aos saltos e aos pinotes. Não façam estalar no ar chicotes, nem chamem palhaços e acrobatas!

Conversam, riam. E dêm muitas palmas. Sempre que durante o acto for possível. Não sei descrever em que momentos porque ainda não morri, nem tive um funeral completamente civil.
Batam palmas quando descerem o meu pequeno caixote para junto dos meus.

E recordem-me, muito. Com saudades. Mas certos que chegou a minha vez que é sempre extemporânea em mortes.

Falem de mim. Digam de mim e por mais que possam, mas nada mais que aquilo que eu diria.

Mário Adão Magalhães, 2014/04/19, 04, 53h