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Rémi Branco: há um risco de explosão do PS francês

O franco-português Rémi Branco, conselheiro do ministro da Agricultura francês e próximo do presidente François Hollande, disse à Lusa que há um “risco de explosão do PS” nas eleições presidenciais em França em caso de vitória de Emmanuel Macron.

O chefe de gabinete do ministro Stéphane Le Foll considerou que Emmanuel Macron, antigo ministro socialista da Economia, e Benoît Hamon, candidato do Partido Socialista (PS), “são os dois rostos da explosão” do PS francês, a poucos dias da primeira volta das eleições presidenciais, no dia 23 de abril.

“Há um risco de explosão do PS. Se Macron ganhar, é complicado porque a questão é saber se a esquerda quer participar numa coligação um pouco como na Alemanha – um pouco social-democrata, centro e direita. Há no PS quem vá querer participar nisto e outros que não vão querer. Depois, há os que já se juntaram a Macron porque querem ser deputados e estão fartos de Hamon e desta parte do PS que é muito à esquerda”, afirmou Rémi Branco.

Rémi Branco argumentou que se Emmanuel Macron perder, os socialistas vão “ajustar as contas, fazer um congresso e decidir se se opta pela linha dos cinco anos de Hollande ou pela linha da campanha presidencial de Hamon”, concluindo que como os resultados de Benoît Hamon se arriscam a ser “muito baixos, o PS tornará a ser social-democrata”.

Questionado sobre em quem vai votar na primeira volta, Rémi Branco disse não saber, indicando que “a lógica seria votar em Hamon, mas tendo em conta as sondagens, com Fillon a subir, e Macron a estabilizar, votaria em Macron para evitar” uma segunda volta entre a candidata da extrema-direita, Marine Le Pen, e o candidato de Os Republicanos, François Fillon.

“Marine Le Pen representa tudo o que detestamos e Fillon é de direita, foi constituído arguido, incarna qualquer coisa terrível para a democracia e poderia perder contra Marine Le Pen neste contexto. Eu votaria Macron sem problemas, por uma questão de eficácia e utilidade, não por entusiasmo nem por adesão. Como muitos socialistas, sabemos que temos de nos preparar para votar em Macron para evitar o pior”, afirmou.

O conselheiro político recordou que quando François Hollande anunciou, a 1 de dezembro, que não se recandidataria ao Eliseu foi “um rude golpe” e “o fim de qualquer coisa”, tendo sentido que “se não fosse Hollande, não seria um socialista” porque “ele era o único candidato legítimo e as primárias resultariam num candidato de substituição”.

“Eu e o meu ministro, e muitos dos militantes e simpatizantes de esquerda, ficámos um pouco órfãos não apenas de Hollande – que não estava muito popular nessa altura – mas de um posicionamento socialista clássico, social-democrata, que era o de Mitterrand, de Jospin, de Hollande”, recordou o jovem de 32 anos, admitindo que ficou “a ver a campanha de longe”, de forma “passiva”.

A decisão de Hollande significou também “o fim de uma longa aventura de nove anos” que começou em 2008 quando Rémi era estudante em Sciences-Po Paris e abordou, à margem de uma conferência, o então líder do PS para lhe pedir para colaborar com ele.

Desde então, trabalhou de perto com François Hollande, foi o responsável pela juventude na campanha para as primárias socialistas de 2011, integrou a equipa de campanha para as eleições presidenciais de 2012 e depois entrou no ministério da Agricultura, onde ficou a trabalhar até hoje, numa sala contígua ao escritório do ministro Stéphane Le Foll, num palacete oitocentista, no 7º bairro de Paris.

“O paradoxo é que o balanço de Hollande é bom. A situação em 2012 em França era pior que hoje. O desemprego está a começar a baixar, criámos emprego, reduzimos o défice e o investimento e o crescimento estão a retomar. Globalmente, a França está melhor, mas apenas está a começar a ir melhor”, afirmou, acrescentando que “o próximo presidente vai poder dizer que com ele está tudo melhor porque Hollande fez o trabalho sujo”.

Rémi Branco defendeu que Hollande se mostrou “um grande homem de Estado nos momentos mais importantes”, como a gestão dos atentados, a intervenção no Mali e na na Síria, a cimeira para o clima COP21, mas “na gestão política do quotidiano mostrou-se médio e em comunicação foi insuficiente”.

“Penso que, como ele comunicava mal, os franceses tiveram uma má imagem dele, mas ‘a posteriori’ vai-se reabilitar o mandato Hollande. Não se vai dizer que foi um presidente extraordinário mas dir-se-á que foi um bom presidente”, afirmou.

Com raízes familiares em Melgaço, Rémi Branco nasceu em França, tem dupla nacionalidade, torceu por Portugal na final do Euro2016 e tem “a necessidade de ir a Lisboa duas a três vezes por ano”.