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Opinião

Prometeu Sincero, o candidato

“São poucos os políticos que sabem fazer política. Mas, quando um intelectual tenta entrar nesse meio, então é o fim do mundo”.

Jorge Luis Borges

 

O avô, sentado na varanda da casa, acende seu cigarro de palha, pigarreia e diz ao neto:

— Agora vou lhe contar a curiosa história de um político cujo nome era Prometeu, Prometeu Sincero da Silva. Eu o conheci naquele ano em que estive em São Paulo, na época das eleições. Ouça bem:

Poucos dias após o seu nascimento, sua mãe disse:

— Meu filho será grande, um homem importante na política, um deputado, senador ou presidente, para dar um jeito no nosso país e melhorar a vida do povo. Ela, mulher humilde e sem cultura, veria o crescente interesse do filho pela política logo nos primeiros anos da juventude, tornando-se líder dos grupos estudantis, agremiações, etc.

Prometeu Sincero estudou em escolas públicas até concluir o ensino superior, tornando-se doutor em Sociologia e Política. Lecionava em duas faculdades públicas, onde gozava da admiração dos alunos e do corpo docente. Exímio orador, vestia-se impecavelmente, era alto, bonito, de olhos sagazes e encantador sorriso, um conjunto de adjetivos pelos quais se rendia quem o via e ouvia. De ideias modernas e visão futurista, sempre citava os grandes pensadores da antiguidade e elaborava projetos que visavam a diminuição gradativa da pobreza e a educação do povo. Seu sonho era criar e aplicar mecanismos capazes de erradicar as desigualdades econômicas e sociais entre as nações do mundo.

— Você é um louco visionário, Prometeu — diziam seus amigos —, há feridas enraizadas e crônicas na sociedade que jamais poderão ser curadas.

Comentários deste tipo não o desanimavam, pelo contrário, mais fortaleciam o seu desejo de ser útil e marcar a sua passagem pela vida.

“Jamais desistirei dos meus sonhos, que são também os sonhos da minha querida mãe”, pensava.

Mas os seus amigos, mesmo acreditando que ele, pelas suas ideias improváveis ou impossíveis, tinha forte tendência para a insanidade ainda na juventude, o apoiavam nos seus planos de entrar para a política e até garantiam que seriam os seus mais arraigados cabos eleitorais.

Prometeu Sincero era considerado um gênio, mas muito já se disse sobre a delgadíssima tenuidade entre a genialidade e a loucura.

Cansado de ver o povo pisoteado pelos políticos, Prometeu resolveu filiar-se ao PISE (Partido da Igualdade Social e Econômica), apresentando suas propostas inovadoras. O nanico partido, que iniciava suas atividades, vendo naquele jovem e criativo doutor a possibilidade de eleger pela primeira vez um deputado, aceitou suas condições para tornar-se candidato. Prometeu alegou que, se o PISE declinasse da sua proposta, ele procuraria outra legenda ou se necessário criaria o seu próprio partido.

O avô faz uma pausa, acende outro cigarro, dá um trago e fica em silêncio por alguns instantes. O neto de doze anos, acostumado desde pequeno a ouvir suas histórias sem interromper, desta vez pede-lhe que continue.

Assim, preparou os seus discursos (brevíssimos, pois sabia que, como toda pequena legenda, o PISE teria poucos segundos, no máximo um minuto para que ele falasse com os eleitores). As pessoas mais íntimas, a namorada, os irmãos e os amigos ficavam assustados e temerosos quando liam seus discursos, mas ele logo lhes explicava o motivo daqueles textos. O mais difícil foi fazer a sua mãe entender e aceitar aquela loucura.

— Se todos os candidatos prometem tanto e não cumprem, além da inovadora abordagem ao eleitor, nada vejo de tão estranho na sua campanha, querido. Espero que o tiro não saia pela culatra e que o povo entenda os seus objetivos. Acho que a sua estratégia da psicologia inversa se aplicaria melhor aos eleitores mais ricos — dizia sua namorada.

— Meu amor, usarei esta técnica para convencer todas as classes. A minha campanha ficará conhecida pela sinceridade dos meus argumentos. E aprenda uma coisa: o inusitado exerce incrível atração sobre a mente humana, principalmente quando, após o primeiro impacto, permite vislumbrar mesmo que sutilmente as perdidas expectativas. É como ficar diante de uma nova, estranha e atraente iguaria e desejar ardentemente saboreá-la, mesmo sem imaginar quais temperos foram acrescentados ao prato, e depois não conseguir mais tirá-lo do seu cardápio. O povo está cansado da mesmice que nunca funciona e precisa de algo diferente, no qual veja despontar alguma esperança. Com o decorrer da minha campanha, a impressão das pessoas vai mudar gradativamente. Após a indignação e a raiva, virão a compreensão e finalmente a aceitação do que é novo e promissor.

No primeiro dia de programa eleitoral gratuito na televisão, Prometeu disse rapidamente porém com firmeza, para usar bem o seu tempo:

— Senhores, senhoras, moças, rapazes do Brasil, sou Prometeu Sincero, candidato a deputado federal nº 2233 e peço-lhes seus votos. Lembrem-se sempre: somente vocês podem decidir os rumos do nosso país. Se eleito, trabalharei primeiro pelo meu progresso e da minha família, depois pelo crescimento da nação. Assim como eu mereço enriquecer, vocês também merecem sair da pobreza. Primeiro, pensarei em mim, no meu fortalecimento econômico; afinal, só alguém economicamente estruturado pode oferecer alguma coisa boa para a população. Vocês têm o poder e somente vocês podem decidir o melhor para o nosso país. E o melhor sou eu, Prometeu Sincero, número 2233! Obrigado a todos.

Terminou o programa eleitoral e imediatamente os mais inflamados comentários saíam em todos os sites, rádios, nas reuniões de amigos e na televisão. Um grande jornal trouxe na capa bem cedinho a foto dele com a legenda: “Prometeu Sincero, candidato a deputado federal, prometeu roubar caso seja eleito”. Outras publicações seguiam pelo mesmo caminho, expressando a indignação geral provocada pelas palavras do candidato.

Na sede do PISE os telefones não paravam de tocar. Reclamações, xingamentos, ameaças ao candidato e à legenda eram constantes. Seguranças foram contratados para proteger o escritório.

A direção partidária estava preocupada com os possíveis desdobramentos daquela situação, porém tal comportamento dos eleitores já era esperado. Em longas reuniões Prometeu já antecipara tudo o que suas declarações provocariam. Agora ele precisaria sair às ruas, pelo menos neste começo de campanha, acompanhado por seguranças.

— Os fins justificam os meios… e o início — dissera aos diretores e seus correligionários, que confiavam plenamente na capacidade de persuasão daquele homem.

Chegavam inúmeros pedidos para concessão de entrevistas, porém durante o período de veiculação do horário eleitoral era proibido tudo o que pudesse promover o candidato.

No segundo dia do programa na televisão, os telespectadores aguardavam ansiosamente pelo minuto destinado ao PISE e seu único candidato. O índice de aparelhos ligados naquele momento era o maior de todos os tempos.

— Boa noite, senhores, senhoras, moças, rapazes do Brasil. Meu nome é Prometeu Sincero e sou candidato a deputado federal nº 2233. Vocês podem dizer um nome, um único nome de político que cumpriu as suas promessas de campanha? Não votem em candidatos mentirosos, enganadores. Votem no único candidato que é indubitavelmente sincero. Ou vocês preferem confiar em quem sempre os enganou com falsas promessas de campanha? Com quem não as cumpriu após eleito? A decisão é do povo, é de vocês. Como deputado federal, sem dúvida conseguirei realizar todos os meus desejos e os da minha família. E provavelmente os desejos de todos vocês… Muito obrigado.

Naquele segundo programa ele arrefeceu um pouco suas declarações, sendo menos contundente, exatamente como pretendia, pois não poderia arriscar que o Tribunal Eleitoral o advertisse ou cassasse a sua candidatura. A semente estava lançada e agora era só regar com muito cuidado. Em breve colheria os frutos.

A partir daquela noite, a polícia começou a deixar duas ou três viaturas em frente ao PISE, para evitar que o povo invadisse a sede e quebrasse tudo. Havia ameaças de todo tipo e alguns até diziam que botariam fogo na casa. A integridade física de Prometeu, da diretoria do partido e de quem apoiava o candidato estava comprometida.

Em cada casa, em cada bar, em cada escola, por todo canto, o nome de Prometeu não saía da boca do povo. Mas, com o passar do tempo, após diversas aparições na televisão e nas rádios durante a campanha, se no início a maioria das pessoas se mostrava indignada, agora uma parte já nutria certo entusiasmo pela sua candidatura. Afinal, ele era sincero, literalmente.

Na mesa de um restaurante lotado:

— Todos os políticos prometem tudo durante a campanha e depois roubam descaradamente. — alguém disse — Pelo menos Prometeu não está nos enganando. Quem votar nele não poderá reclamar depois.

— Ele é farinha do mesmo saco, gente! Todo político é igual! Como podemos eleger alguém que afirma com tamanha naturalidade que meterá a mão no nosso bolso? — outro falou — E atentem para o nome dele, um nome duplamente e perigosamente sugestivo. Depois ele dirá que não enganou ninguém, que prometeu e que foi sincero. Eis um caso de perigosa sinceridade…

Mas de repente um rapaz dá a sua opinião:

— Esse Prometeu é na verdade um espertalhão. Também já entendi o que ele pretende. Aos poucos vai angariar a confiança dos eleitores, daqueles que, como nós, pensam que se todos prometem e não cumprem, ele pelo menos diz a verdade: que roubará mesmo, mas deixa no ar a intenção de melhorar a vida da população. Portanto, independente do seu nome, ele é um candidato sincero sem dúvida. A coisa tem lógica. Acontece que se todos prometem e não cumprem, porque ele agiria diferente? Assim…

— Assim ele não roubará! — uma estudante completou — É mesmo! Você tem razão. Mas na verdade tudo me parece uma grande jogada. Se a maioria começar a pensar como nós, ele será eleito. No entanto, se é realmente sincero, contrariando o que você disse há pouco, ele roubará e, pior ainda, com o consentimento do eleitor. Aí ninguém poderá mesmo reclamar. Como podemos saber o que passa pela cabeça dele?

— Talvez não descubramos nem depois que ele for eleito. E ele sabe que a única forma de conseguir é se destacando da multidão de candidatos, atraindo a atenção do eleitor com o seu incomparável carisma, dom capaz de arrebanhar multidões. E está no caminho certo, primeiro fazendo declarações de grande impacto que o colocam no centro das atenções, depois amenizando a impressão causada.

E aquela conversa avançou para outras mesas, para a rua, as casas, por todas as cidades do país. Os candidatos adversários, vendo que a rejeição ao nome de Prometeu a cada dia dava lugar à admiração de muitos, de tudo faziam para denegrir a sua imagem, porém não adiantava. Afinal, Prometeu não fazia mesmo todas aquelas promessas que os outros tanto enfatizavam. Ele, àquela altura, segundo a maioria dos eleitores, pelo menos não tentava enganá-los. Era realmente o candidato mais sincero e mais confiável. Se todos vão roubar mesmo, porque ser pego de surpresa? Melhor ter tempo para se preparar material e psicologicamente, para aceitar e não sofrer tanto como quando se é subtraído por políticos mentirosos.

Uma revista publicou matéria de capa com o título: “Prometeu, o único candidato verdadeiramente sincero”. E em pelo menos 20 páginas, recheadas de imagens do candidato, professores, sociólogos, cientistas políticos e empresários emitiam suas opiniões sobre Prometeu, sua candidatura e o PISE. Muitos formadores de opinião já apoiavam Prometeu e outros já não o atacavam com tanta veemência. Aos demais candidatos e seus partidos, a publicação dedicou se muito um quarto de página. A campanha de Prometeu estava no auge e os diretores do PISE esbanjavam satisfação ao ver a sigla estampada em todas as publicações e em todas as bocas.

Em sua casa, Prometeu acalmava os ânimos da mãe, da namorada e dos irmãos:

— Calma, gente, tudo sairá como imaginei. Vejam que a rejeição dos eleitores diminui a cada dia. Até o presidente do maior partido do país procurou-me pessoalmente, tratando-me como se fôssemos grandes amigos. Essa corja toda que me aguarde. Não estou à venda.

Muitas grandes empresas, vendo o incrível crescimento do candidato, procuravam secretamente o PISE e faziam doações milionárias em dinheiro para a campanha de Prometeu. Para os empresários inescrupulosos, não importa a moralidade no caminho escolhido por um candidato, desde que ele chegue ao poder. O partido embolsava as doações, mas não passava recibo nem assinava qualquer outro documento comprometedor. Doa quem quer. O PISE não pedia, mas aceitava. Assim, evitava-se a obrigatoriedade de futuras alianças.

Todas as apresentações de Prometeu eram elegantemente elaboradas, diferente dos outros políticos no geral, pois enquanto os últimos apenas enunciavam massiva e enfadonhamente as suas boas intenções, ele dominava magistralmente uma superfina ironia, sinalizando sua contrariedade com os governantes atuais e os que, à exceção dele, pretendiam chegar ao poder. Com estudado gestual e perfeita entonação, Prometeu enriquecia a sua argumentação e enquanto os demais candidatos eram apenas ouvidos pelos eleitores, ele era ouvido e escutado e seu discurso era memorizado, deglutido e dele extraído o sumo, que na verdade era o discurso inteiro. Nos acalorados debates, ouvia atentamente e até fingia aceitar a opinião dos outros, porém, com extrema sutileza, Prometeu direcionava seus interlocutores a pensar que eram deles as ideias do candidato. Dominava com tamanha eficácia a retórica, que todos com satisfação diziam sim às suas perguntas e até mesmo aqueles eleitores e candidatos adversários que inicialmente repugnavam suas atitudes, rapidamente mudavam de opinião, engrossando as fileiras dos que admiravam a sua força e determinação. Nesse ritmo mão seria de estranhar se até mesmo alguns candidatos adversários se convencessem de que deveriam votar em Prometeu.

Mestre do discurso e do convencimento, Prometeu levava ao pé da letra o ditado “água mole em pedra dura…”, pois aprendera que a massa deve ser guiada com cautela, prudência, paciência e insistência. Sabia que o povo, quanto mais rude e inculto, era, sem dar-se conta, mais vulnerável, mais volúvel e moldável. E com o seu carisma e a sua sabedoria, ele conseguia com relativa facilidade angariar a confiança até dos ricos e dos que se consideravam mais inteligentes e instruídos.

No último dia do horário eleitoral, Prometeu repetiu, citando Xenofonte, o que já dissera tantas vezes durante suas aparições:

— Eu sou o candidato, mas “cada um de vocês é o líder”, e enfatizava fortemente a última parte. Declarações assim pareciam fazer o povo empoderar-se, imaginar-se forte e imbatível, acreditando que estavam nas suas mãos as rédeas para escolher o caminho que desejava.

Viam-se em cada esquina outdoors com a foto de Prometeu e santinhos eram colados nos muros e nos postes. A sua popularidade crescera incrivelmente e as últimas pesquisas de intenção de voto colocavam-no no topo, muito acima do segundo colocado.

Finalmente, a votação.

Um jornalista escreveu: “Prometeu prometeu, prometeu, prometeu… e parece que, analogia à parte, ele será eleito”.

As ruas estavam lotadas e o povo eufórico, fazendo extensas filas para chegar às urnas. Na sede do PISE a diretoria, Prometeu e seus correligionários acompanhavam em tempo real os noticiários sobre as pesquisas de boca de urna.

Prometeu Sincero foi eleito deputado federal com estrondosa quantidade de votos, como jamais havia acontecido com outro candidato. Os programas de rádio e televisão, os jornais e revistas cancelaram todas as outras programações para cobrir aquele furo. Os repórteres lotavam a rua em frente à sede do PISE. Cercado por dezenas de policiais e seguranças particulares, Prometeu respondeu à primeira pergunta, afastando ligeiramente a boca da grande quantidade de mãos, braços e microfones à sua frente:

— Sim, eu já esperava por este resultado, assim como a diretoria do PISE. Estamos muito felizes e agradecemos a todos que votaram em mim.

— E agora, como será o seu mandato, deputado? E todas aquelas promessas de campanha?

— As promessas continuam valendo, no entanto, como todo político, sinceramente, não garanto cumpri-las.

— Pela primeira vez o senhor está sendo realmente honesto na sua declaração, deputado?

— Honesto? Estou sendo sincero, o que é diferente, como fui durante toda a campanha.

Ouviu-se uma ensurdecedora salva de palmas, seguida de gritos de júbilo da multidão:

— Viva Prometeu! Viva Prometeu!

— E tudo o que disse durante a campanha, vovô? Prometeu cumpriu? — o menino perguntou.

— Ah! Meu neto, após as eleições retornei para a minha cidade no interior e nunca mais votei, porém alguns anos depois ouvi dizer que Prometeu Sincero havia chegado à presidência… mas eis aí um assunto para outra história…