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Portugueses desiludidos por “burgomestre português” não assumir o cargo

Em Bettendorf, a pequena localidade luxemburguesa onde o português José Vaz do Rio venceu as eleições em 08 de outubro mas recusou o cargo de burgomestre, a alegria deu lugar à desilusão.

José Barros tem 30 anos, filho de portugueses já nasceu no Luxemburgo e não está recenseado para votar, mas isso não o impediu de criticar a decisão de Vaz do Rio, que invocou dificuldades com o luxemburguês e o facto de só ter a quarta classe.

“Acho mal. Ganhou as eleições, por que é que não ficou burgomestre?”, disse à Lusa. “Se é por causa do luxemburguês, podia meter um secretário”.

Na pequena localidade luxemburguesa todos conhecem o “burgomestre português”, como há quem continue a chamar-lhe, mas muitos estão desiludidos com o desfecho.

António Machado, reformado de 60 anos, também não está recenseado para votar, mas os três filhos “votaram todos” em José Vaz do Rio e a notícia da vitória do português foi recebida com euforia. “Estavam todos contentíssimos”.

Depois, veio a desilusão. “A mais velha disse-me: ‘Ó pai, palavra de honra, se eu sabia não votava nele’. E como ela há muitos”, contou o reformado.

Naquela autarquia do nordeste do país, que agrupa as localidades de Bettendorf e Gilsdorf, vivem cerca de 2.800 habitantes.

Destes, 932 são portugueses, mas só 129 estavam recenseados para votar nestas eleições, segundo dados da Câmara Municipal.

José Vaz do Rio conquistou 588 votos nas eleições de 8 de outubro, e a maioria veio de luxemburgueses.

Sacha Back é luxemburguês e tinha nove cruzes para usar no boletim de voto – o número de membros a eleger para o Conselho Municipal da localidade -, mas disse à Lusa que só pôs uma, precisamente à frente do nome de Vaz do Rio.

“Só votei no José, o resto não conhecia ninguém”, contou o luxemburguês, em português perfeito, que aprendeu a falar “com amigos”.

Sentado na esplanada do café onde quase todos os dias José Vaz do Rio toma uma bica, na aldeia de Gilsdorf, o luxemburguês disse que compreende as razões para que não tivesse aceite o cargo.

“É a barreira linguística, como em todo o lado”, comentou António, outro cliente do café. “De certeza que se ele dominasse a língua luxemburguesa ficaria ele”.

Apesar de ter renunciado ao cargo – ou talvez por isso -, José Vaz do Rio não tem parado de dar entrevistas aos órgãos de comunicação social no país.

Quando o canal de televisão luxemburguês RTL esteve na localidade para o entrevistar, um dia depois das eleições, um funcionário da autarquia brincou: “José, vais ficar mais famoso que o Cristiano Ronaldo!”.

O funcionário conhece bem o português, que já tinha sido eleito conselheiro municipal há seis anos – ficando nessa altura em quinto lugar -, e não lhe poupa elogios: “Se ele te diz que vai fazer uma coisa, ele faz”.

José Vaz do Rio foi o candidato mais votado nas eleições municipais em Bettendorf, um feito histórico para os portugueses no Luxemburgo, mas decidiu renunciar ao cargo por receio de não estar à altura.

O português anunciou em 10 de outubro que assumiria o segundo lugar no executivo camarário, o de primeiro vereador.

Natural de Raíz do Monte, Vila Pouca de Aguiar, Vaz do Rio  tem dupla nacionalidade, chegou ao Luxemburgo em 1979 e está reformado há quatro anos, depois de ter trabalhado na fábrica de pneus da Goodyear.