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#poesiaarteemportugues: Sophia de Mello Breyner Andresen

Aproxima-se o Dia Mundial da Poesia e não queremos deixar de o comemorar consigo. Venha connosco num roteiro pela poesia portuguesa e por alguns dos seus maiores poetas. Deixemo-nos encantar por este nosso património inconfundível.

Por: Patrícia Barata

POEMA Especial Dia Mundial da Mulher

“O Mar nos meus olhos” de Sophia de Mello Breyner Andresen

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

Não pela cor

Mas pela vastidão da alma

E trazem a poesia nos dedos e nos sorrisos

Ficam para além do tempo

Como se a maré nunca as levasse

Da praia onde foram felizes

Há mulheres que trazem o mar nos olhos

pela grandeza da imensidão da alma

pelo infinito modo como abarcam as coisas e os Homens…

Há mulheres que são maré em noites de tardes

e calma

in Obra Poética, 2010

Sophia de Mello Breyner Andresen (1919-2004)

A obra de Sophia de Mello Breyner Andresen, vasta e bela, é incontornável no âmbito da literatura portuguesa do Século XX. Poeta, escritora de contos e literatura infantil, artigos, ensaios e peças de teatro deixou-nos um património incomensurável. Foi ainda tradutora de Eurípedes, Shakespeare, Claudel, Dante Alighieri e de alguns poetas portugueses para língua francesa (Quatre Poètes Portugais, 1970).

Publicou os primeiros versos em 1940, nos Cadernos de Poesia e em 1944, quando tinha 25 anos, publicou Poesia, o seu primeiro livro.

Os seus contos infantis tornaram-se clássicos da literatura infantil portuguesa, por exemplo Fada Oriana (1958), A Menina do Mar (1958), A Noite de Natal (1959), O Cavaleiro da Dinamarca (1964), O Rapaz de Bronze (1966), entre outros.

A sua obra está traduzida em várias línguas e foi várias vezes premiada, tendo recebido o Prémio Vida Literária da Associação Portuguesa de Escritores em 1994, o Prémio Camões em 1999 (foi a 1.ª mulher a recebê-lo), o galardão francês Prémio Max Jacob Étranger em 2001 e o Prémio Rainha Sofia de Poesia Ibero-Americana em 2003, entre outros.

Esteve desde cedo ligada aos movimentos de luta anti-fascista, tendo apoiado a candidatura do General Humberto Delgado. Assinou vários manifestos e abaixo-assinados católicos, tanto em 1959, como em 1965, ano em que subscreveu o “Manifesto dos 101”, um documento da autoria de um grupo de ativistas católicos contra a guerra colonial e o apoio da Igreja Católica à política do Governo de Salazar. Foi autora da Cantata da Paz escrita, em 1968, para uma vigília contra a guerra colonial e que se tornou uma importante canção de intervenção.

Ainda no contexto da Revolução, no 1.º de Maio de 1974, gritaram milhares de manifestantes uma palavra de ordem lançada pela poeta “A poesia está na rua”, expressão que depois foi imortalizada num célebre quadro de Vieira da Silva. Acerca da Revolução de Abril escreveu Sophia:

“Esta é a madrugada que eu esperava

O dia inicial inteiro e limpo

Onde emergimos da noite e do silêncio

E livres habitamos a substância do tempo.”

In Nome das Coisas

Na leitura da sua obra ressalta – para a além das temáticas que também lhe são reconhecidas como a infância, a juventude, a natureza, o mar, a cidade, o tempo, a admiração pelo real e os valores da antiguidade clássica – um profundo sentido ético e humanista e a busca da justiça e igualdade social, que se confirma, por exemplo, no Livro Sexto (1962) e em algumas narrativas de Contos Exemplares (1962), como o conto “O Jantar do Bispo” ou “O Homem”.

Desde 2005, os seus poemas “cheios de mar” encontram-se expostos no Oceanário de Lisboa, o que permite ao leitor/visitante uma simbiose perfeita entre o cenário (o fundo do mar) e a palavra, que é também mar em Sophia.

Finalizamos com este apontamento essencial dito pela própria: “Creio na nudez da minha vida. Eu não acredito na biografia que é a vida contada pelos outros. No fundo a única biografia que tenho é a que está na minha poesia e essencialmente o que eu procurei foi esse espírito de nudez (…)” (Documentário de João César Monteiro, 1969)