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Onde está Deus?

É tão mais fácil acreditar em Deus quando tudo corre bem. Quando há saúde, sucesso financeiro, o amor pairando no ar, os amigos, poucos ou muitos, bons, a família unida, e o sol brilha de maneira mais radiante e agradavelmente quente. O frio não é frio, mas sim uma suave brisa que nos refresca a alma e nos dá vida. Graças a Deus.

Tivemos sucesso numa entrevista de emprego, mesmo que muitas outras previamente a essa, tivessem falhado, e… graças a Deus, que não me defraudou as expectativas. – Rezei muito, tive muita fé, e mais uma vez Deus lá estava para dar uma mão.

Padecemos de um cancro, lutamos contra ele, com a ajuda de Deus, vencemo-lo. Um ente querido adoeceu gravemente, e o amor que temos por ele, bem como o medo de o perder, forçou-nos a dobrar os joelhos e humildemente deixamo-nos cair por terra, carregando o peso do medo e da pequeneza de que somos feitos, e rezamos. A coisa correu bem, e Deus ouviu-nos.

Onde está esse Deus que ouve uns e não ouve os outros. Onde está esse Deus que escolhe os que mais lhe agradam e sobre eles derrama uns pozinhos de perlimpimpim, transformando-lhes a vida para melhor, num toque de magia.

E, no entanto, as certezas da existência de um Deus todo poderoso, omnipotente e omnipresente, carinhoso e cheio de amor, são tão sólidas como as incertezas com que pomos em causa a sua existência sempre que um pedófilo ataca uma criança inocente e indefesa, um jovem morre de maneira brutal e inesperada, uma jovem é violada e desmembrada de maneira cruel e desumana, um pai mata o seu bebé, um filho mata o seu pai, um neto esfaqueia a sua avó de quase oitenta anos, e as imagens do inferno, na terra, numa terra chamada Síria, onde crianças mulheres e homens morrem aos olhos do mundo que assiste de maneira cobarde e impávida, nos entram dentro de casa pelo ecrã da televisão, os jornais e todos os meios de comunicação existentes. As imagens de uma realidade onde os filhos de um deus menor sofrem os horrores de uma guerra que ninguém compreende. Fechemos os olhos por uns segundos e imaginemo-nos a nós, com as nossas famílias, no meio desse inferno. Fechemos os olhos por uns segundos e imaginemos que os gritos de horror e medo, daquelas crianças que escapando da morte, sofrem na carne lacerada e ensanguentada, das bombas e dos tiros, que são os nossos filhos…

Mas se isso não for suficiente, basta que a sorte nos mude de direção e muito rapidamente questionaremos a existência de Deus. Perguntaremos a nós mesmos, mais vezes do que aquelas que esperaríamos, “onde está Deus?”

E depois, uns continuam teimosamente a acreditar, muitas vezes com medo de que a dúvida lhes possa ser mais penosa para as suas vidas do que a persistência numa ignorância que se torna quase cómoda. Outros duvidam e ficam nessa espécie de limbo, entre a dúvida que lhes vem das evidencias atrozes no mundo, perpetradas é certo, pela mão do homem, mesmo debaixo do nariz de um Deus que nada faz para o evitar, e uma fé que lhes foi passada como testemunho quase como uma tradição familiar. Outros, perdem a fé, ou simplesmente a fé nunca os conquistou em primeiro lugar.

E a dificuldade de acreditar em Deus é tão mais difícil quanto for o nosso conceito acerca dele. Se acreditarmos num Deus feito à semelhança do homem/mulher, sentado numa grande poltrona cheia de enfeites reluzentes, de materiais únicos e caríssimos, difíceis de lhes deitar a mão, segurando um saquinho dos tais pozinhos de perlimpimpim, pronto a soprá-los sob aqueles que melhor lhe caem no goto, então corre-se o risco de, quando as coisas falharem, quando os ventos levarem esses pós mágicos para outras bandas, acabando por beneficiar quem sabe, quem não os mereça, então a existência de Deus muito rapidamente será questionada.

Cresci numa educação católica apostólica romana. Quando pequeno tinha de ir à missa, e como a maior parte das vezes entrava pela porta da frente para me escapulir pela porta de trás assim que tinha uma oportunidade, que seria poucos minutos depois de ter entrado, estava constantemente a cometer um pecado. Como fazia isso de uma maneira regular, penso que o pecado era sempre o mesmo, e se aumentasse em volume, pelo menos não aumentaria em quantidade.

No entanto, nessa altura acreditava num Deus que estaria sentado numa poltrona cheia dos tais fornicoques de que já falei, mas como estaria ocupado com o saquinho dos pozinhos de perlimpimpim, a derramá-los sob os seus protegidos, sempre pensei que não teria tempo de fiscalizar se eu ficava na missa até ao fim. Desde que Ele me visse a entrar…

Depois cresci, e apesar das minhas muitas atribulações pela vida fora, nunca deixei de acreditar em Deus. Mas à medida que fui crescendo e ganhando maturidade, deixei de acreditar no Deus que passaram grande parte da minha vida a quererem impingir-me e comecei a pensar por mim e a olhar à minha volta.

Acredito em Deus, mas não no que está sentado na poltrona, aquele que muitos esperam que seja ele a vir resolver os problemas que nós mesmos criamos na terra. O Deus que muitos esperam que seja ele a limpar a porcaria que fazemos no planeta, uns aos outros. Quase que exigimos a sua interferência naquilo de que não somos capazes, e que deveria ser tão simples. Viver em paz e harmonia uns com os outros.

E depois, a imagem que tinha de um Deus sentado na grande e elegante poltrona, foi desaparecendo como um fim de tarde que se vai vagarosamente fundindo no inicio da noite e acaba por desaparecer no escuro.

Mas fiquei mais observador.

Por minha iniciativa comecei a ler a bíblia, algo que a religião da qual eu tinha obrigações de seguir, mais que não fosse, por tradição familiar, nunca me ensinou a fazê-lo. E tirei as minhas conclusões. Em muitos aspetos a historia parece-me mal contada, muito embora tenha de admitir que noutros, tem lições valiosas que podem ser adaptadas à vida, ao dia a dia.

Tirei as minhas conclusões, mas não critico quem fica agarrado à religião, seja ela qual for, desde que as suas convicções e as suas crenças tornem a pessoa, numa melhor pessoa.

Aborrece-me imenso quando a religião não serve para mais nada a não ser para abrigar ignorância. Aborrece-me imenso quando a religião e o Deus que a representa, não serve para mais nada a não ser para justificar crueldade perante outro ser humano, só porque tem crenças e ideias diferentes. Aborrece-me imenso que se mate em nome de Deus.

Onde está Deus!? Sentado na poltrona com um saquinho de pozinhos de perlimpimpim!? E nós!? Esperamos que nos bafeje a vida com esse toque de magia, quase exigindo que seja Ele a fazer o que nos compete a nós, como seres humanos, com suposta inteligência e racionalidade, fazer!? Agradecemos-lhe pela sua infinita bondade e compreensão quando as águas cristalinas vêm desaguar ao nosso lado, e questionamos a sua existência, a sua bondade e os seus critérios se a qualquer momento os seus métodos nos parecem difíceis, se não impossíveis, de compreender!

Deixei de acreditar no Deus sentado na poltrona e nos seus pozinhos de perlimpimpim, e por consequência deixei de elevar os olhos ao céu, tendo em conta que o céu fica para cima, e o inferno para baixo, e comecei a procurá-lo dentro de mim.

Tantos anos à espera que fosse Ele a resolver os meus problemas, que fosse Ele a solucionar as maldades da humanidade, tantos anos a procurá-lo na poltrona que não existe, e afinal Ele tem estado sempre dentro de mim, e tudo o que eu tenho a fazer é procurá-lo onde ele sempre esteve, dentro de mim, dentro daquilo que eu, com Ele, posso vir a ser, pronto, sempre pronto a pegar-me na mão e a guiar-me durante a minha caminhada, sentindo a terra debaixo dos meus pés, até que eu complete o meu ciclo de vida. E quando esse ciclo de vida estiver completo, se me mantiver junto D’Ele, nem sequer é preciso que me largue a mão com que me guiou durante a vida, para que, continuando a segurar-me nela me ajude a passar para o outro lado para continuar a jornada, numa outra missão.

Onde está Deus!?

Está dentro de cada um de nós, na nossa mente. É lá que habita. Mas porque a mente é um “aparelho” muito complexo de fazer funcionar, cabe-nos a nós, que temos o controle remoto, fazê-lo funcionar devidamente, porque dentro desse “aparelho” há funções que nos levam ao encontro de Deus, e outras ao encontro do diabo. Onde está o bem também está o mal. O bem atrai bondade, tal como a palavra assim o deixa antever, e bondade desencadeia uma série de ações que fazem de nós melhores humanos. E sendo melhores humanos o mundo será um lugar bom de se viver. Onde está o bem, está Deus, e Deus está dentro de nós.

O mal, atrai maldade. A maldade desencadeia uma série de ações que nos leva a ser desumanos. E sendo desumanos o mundo será um lugar miserável de se viver. Onde está o mal está o diabo, e esse sujeito está também dentro de nós.

Cabe-nos decidir com quem queremos nós falar quando procuramos dentro da mente, a quem queremos dar a mão para que nos guie no caminho da vida. Cabe-nos a nós decidir com qual deles nos vamos dar, com qual deles escolheremos ter uma relação de amizade, compromisso e amor incondicional.

Eu, a cada dia que passa, escolho procurar dentro do meu ser, o meu Poder Superior, mais poderoso do que eu mesmo, e com esse Poder Superior, com esse Deus de um amor sem limites, pretendo completar a minha caminhada.

Se cada homem/mulher na terra, procurasse dentro de si o seu Deus, deixaríamos de culpar um Deus que não pode fazer por nós, aquilo que nos compete a nós fazer. E o mundo deixaria de ser um lugar de injustiça e sofrimento.